Uma nova geração na Itaúsa

10/02/2010

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As palavras de Olavo Setubal ainda ecoam pelas torres do Centro Empresarial Itaúsa, no bairro do Jabaquara, em São Paulo. ?Se vocês ficarem juntos, vão longe; se se separarem, ficarão com empresas pequenas?, afirmou diante dos herdeiros do fundador do Banco Itaú, Alfredo Egydio de Souza Aranha.A cena ocorreu três anos antes de seu falecimento em agosto de 2008.

Na verdade, as palavras não eram suas. Foram ditas pelo empresário Alfredo Egydio décadas antes, quando passou o comando dos negócios para o sobrinho Olavo e o genro Eudoro Villela. Desta vez, foram lembradas para orientar os herdeiros do clã na sucessão do Olavão, como era conhecido.
 

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Álbum de família: numa foto recente do clã Egydio Souza Aranha, pouco antes da morte de Olavo Setubal (ao centro),
Alfredo Villela Filho é o primeiro à esquerda

 

Na semana passada, em um evento em São Paulo, três jovens acionistas do segundo maior grupo privado do País mostraram que continuam fiéis aos ensinamentos dos antecessores. Os ramos da grande família seguem unidos ? e novas faces começam a aparecer no comando da organização.

Numa sala do Hotel Emiliano, representantes da terceira e quarta geração receberam a imprensa na segunda-feira 1º para anunciar mu-danças na Itautec, uma das três companhias da holding Itaúsa na área industrial. Foi uma rara oportunidade em que um dos mais discretos acionistas da Itaúsa veio a público. Seu nome: Alfredo Egydio Arruda Villela Filho, atualmente presidente da diretoria da holding que engloba todos os negócios do grupo.

Sob seu comando, encontra-se um colosso corporativo com ativos de R$ 620 bilhões, lucro de R$ 8,2 bilhões até setembro de 2009 e um portfólio que inclui nomes como Itaú Unibanco, Duratex, Itautec e Elekeiroz.

Villela Filho foi escolhido pelos parentes para presidir essa organização após o falecimento de Olavão. Não é fácil para ninguém substituir um líder marcante como Olavo Setubal, muito menos para um jovem discreto, com menos de 40 anos, que detesta aparecer em público, não se deixa fotografar e sempre se nega a dar entrevistas. Mas ele venceu a timidez e falou com exclusividade à DINHEIRO.

Modesto, deixou bem claro que reverencia o tio-avô e não se coloca na mesma dimensão. ?Não quero nem de perto ser igual ao doutor Olavo?, afirmou. Ao seu lado estavam os primos Rodolfo Marino Villela e Ricardo Egydio Setubal.

Os jovens anunciaram a maior dança das cadeiras da Itautec em 30 anos. Pela primeira vez, um executivo de fora do grupo, Mário Anseloni, homem forte da HP no Brasil, foi contratado para presidir a diretoria. A mudança foi provocada pela saída, por motivos de saúde, de Olavo Setubal Neto do comando executivo. Alfredo, até então presidente do conselho de administração, passou o bastão para Ricardo e permaneceu como conselheiro.

Três novos membros foram trazidos do mercado para reforçar a governança: Luiz Antonio Carvalho, ex-C&A; Carlos Eduardo Fonseca, ex-Banco Real, e Chu Tung, ex-EDS.  ?O mercado de tecnologia apresenta excelentes expectativas de crescimento. Este é o momento para investir na Itautec e iniciar uma nova etapa?, afirmou Villela Filho.

Cacife para liderar a Itaúsa, ele tem. Villela Filho e sua irmã Ana Lúcia são os maiores acionistas individuais da holding, com uma participação de 7,2% do capital total cada um. Como a Itaúsa tem um valor de mercado de quase R$ 52 bilhões, a fatia de cada um supera R$ 3,7 bilhões, o que os coloca entre os brasileiros mais ricos do País.

A terceira maior participação na empresa é a da tia, Milú Villela, de 4,9%. Mas ?só isso? não basta para assumir um papel relevante no grupo. Durante anos, o herdeiro de Alfredo Egydio Villela, irmão de Milú, preparou-se para crescer e dar sua contribuição para perpetuar os negócios da família.

E seguiu as regras de formação definidas pelo Conselho Familiar, um órgão criado para governar as relações entre os herdeiros. Formou-se em engenharia mecânica pelo Instituto Mauá de Tecnologia e fez pós-graduação em administração de empresas na Fundação Getulio Vargas. Sua participação nas empresas da família começou em 1997, como membro do conselho da Itautec. Em setembro de 2008, ele já atuava nos conselhos das outras companhias, o Itaú Unibanco, a Duratex e a Elekeiroz.

Daí sua escolha para presidir a holding. ?Tirando o doutor Olavo, que tinha uma visão fantástica de tudo, eu tinha um pouco de visão de cada coisa?, diz Villela Filho. ?Foi uma decisão natural?, afirma Ricardo Egydio Setubal. Sobre o primo, só elogios. ?O Alfredo é uma pessoa muito espontânea, tenho um relacionamento excelente com ele. É muito bacana?, diz.

Alfredo é visto pela família como uma espécie de guardião dos princípios e dos valores semeados por Olavo Setubal e Eudoro Villela. Na última apresentação que fez aos analistas de investimento reunidos pela Apimec, em São Paulo, listou 12 deles. Somente um engenheiro humanista  poderia conciliar os clássicos ?gestão analítica e cuidadosa nos detalhes? e ?geração de valor para os acionistas? com ?respeito ao ser humano? e ?amor ao que fazemos?. 

Outra característica marcante da era pós-Olavão é o fortalecimento dos conselhos de administração das empresas da holding. São eles os responsáveis pelas estratégias individuais em cada ramo de negócios. Depois de trazer grandes nomes para cada empresa ? como Alcides Lopes Tápias e Gustavo Loyola, para o Itaú Unibanco, e Pedro Parente, para a Duratex ?, o grupo implementou diversos comitês para acompanhar mais de perto todas as áreas críticas nos ramos industrial e financeiro.

Melhor para todos os investidores, inclusive os de fora da família. ?O grupo tem um histórico positivo de respeito aos acionistas?, afirma Reginaldo Alexandre, presidente da Apimec-SP. Transparência e boas regras de gestão e convivência entre os sócios foram fundamentais para os dois últimos grandes negócios da família, diz Villela Filho: as associações do Itaú com o Unibanco, da família Moreira Salles, e da Duratex com a Satipel, do empresário Salo David Seibel.

?Não fosse uma boa governança estruturada, o Pedro [Moreira Salles] e o Salo não teriam fechado negócio conosco?, afirma. Os banqueiros Roberto Egydio Setubal e Pedro Moreira Salles, naturalmente, são os principais líderes da área financeira, a mais forte do grupo, com 93% dos ativos e 97% do lucro.

A reviravolta na Itautec é um sinal de que a família quer fortalecer o lado industrial para aproveitar melhor o bom momento da economia brasileira. A expansão do consumo interno deve favorecer os ramos de atuação da Itautec (computadores e tecnologia da informação), da Duratex (materiais de construção) e da Elekeiroz (química, com produtos usados em automóveis, alimentos, tintas, etc). 

Apesar de ser bastante conhecida por seus computadores, disponíveis inclusive no varejo, a maior parte da receita da Itautec vem dos mercados de automação bancária e comercial. Segundo Ricardo Egydio Setubal, as mudanças no comando iniciam uma nova etapa. ?O fortalecimento do conselho permite que a empresa atue em novos nichos?, afirma.

Isso significa partir para mercados como os de terceirização de infraestrutura de tecnologia e consultoria. ?Vamos conquistar mais do que já foi conquistado nesses 30 anos?, diz Mário Anseloni, o novo presidente. Pode ser. O futuro do grupo Itaúsa já começou.

Colaborou Rodrigo Caetano

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Poder equilibrado

A governança na família Egydio de Souza Aranha


- Um Conselho Familiar orienta os membros dos dois principais ramos da família, os Setubal e os Villela, para proteger a unidade e perenizar o Grupo Itaúsa para as futuras gerações

- Doze acionistas seniores comandam o Conselho: Ana Lúcia de Matos Barreto Villela (presidente), Alfredo Egydio Arruda Villela Filho, Maria de Lourdes (Milú) Egydio Villela, Ricardo Villela Marino, Rodolfo Villela Marino, Alfredo Egydio Setubal, Ricardo Egydio Setubal, Roberto Egydio Setubal, Paulo Setubal Neto, Olavo Egydio Setubal Junior, Maria Alice Setubal, José Luiz Setubal

- Dos 12 acionistas seniores, somente dois não participam diretamente das empresas do grupo: Maria Alice Setubal e José Luiz Setubal

- O Conselho define as regras e decide quais familiares podem atuar nas empresas do grupo (Itaú Unibanco, Duratex, Itautec, Elekeiroz) como conselheiros ou como executivos

- O Conselho promove orientação educacional, educação visual e de participações em eventos, regras de relacionamento entre as empresas e os valores do grupo

- Se houver conflitos familiares, eles são solucionados dentro do Conselho e não passam para as empresas controladas


Como assegurar a unidade de um grupo familiar e permitir a entrada de novos sócios de peso? O presidente da Itaúsa, Alfredo Egydio Arruda Villela Filho, tem a fórmula. Segundo ele, a convivência com os sócios é pautada pelo relacionamento profissional com ética, respeito, transparência, extrema confiança e sempre fiel ao cumprimento de tudo o que é combinado. Na segunda-feira 1º, ele concedeu entrevista exclusiva à DINHEIRO.
 

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?O objetivo é perenizar o grupo por várias gerações?


Como o sr. recebeu a missão de presidir a Itaúsa?

Com tranquilidade. Já participava de conselhos. Tenho algumas atividades fora do grupo, como logística e construção e uma ONG.
 

E qual é o desafio da Itaúsa?

É simplesmente apoiar as empresas investidas, financeiramente e estrategicamente. É uma holding.


A Itaúsa atua na estratégia das empresas controladas?

Vamos começar pela família. Três anos atrás, nós, acionistas, resolvemos avançar no nosso processo de governança. Em parte porque a gente achou que precisava, em parte porque havia uma liderança muito forte do doutor Olavo e ele estava um pouco mais fraco. Ele disse: ?Tudo bem, vamos lá. Mas como vocês vão ser o futuro, eu não participo. Quero só saber o que estão fazendo, talvez alguma coisa eu vete.? Então, começamos o processo com ajuda externa, com a participação de todos os acionistas. Isso tudo foi evoluindo em um processo de governança familiar, das empresas. Temos, hoje, um Conselho Familiar.


Como funciona esse Conselho?

Apoia a família em diversas instâncias, desde a educação dos acionistas até as regras de relacionamento entre as empresas, bem como seus valores.
 

Para entrar na empresa, não basta ter sobrenome?

Não. Tem um monte de regrinha. Tem que ter MBA e ter trabalhado fora em empresa de primeira linha. O conselho familiar apoia e dá suporte, quando necessário, para ajudar na formação. O objetivo é perenizar o grupo por várias gerações. Esse é o foco que o doutor Olavo enxergou. Abraçamos a causa.


Como vocês resolvem as divergências entre os acionistas?

É um grupo com características de engenheiros. Tem que ser muito pragmático. Avaliamos as coisas em cima de coisas estruturadas e decidimos racionalmente. Em algumas coisas, decidimos como engenheiros. Em outras, concordamos em concordar.


Como o grupo chegou ao seu nome para a Itaúsa?

Eu já estava em todos os conselhos do grupo. Tinha um pouco de visão de cada coisa. Não quero nem de perto ser igual ao doutor Olavo. Foi uma solução natural, dentro de um conceito que era uma holding e não precisava de um executivo full time, o tempo todo.


A estratégia é decidida na holding?

Não. Nós montamos um sistema de governança onde cada empresa tem que decidir sua estratégia. Os conselhos têm que ser fortalecidos. Por isso estamos trazendo gente de fora, gente independente. É óbvio que essa estratégia é submetida à Itaúsa, que dá a palavra final. E a Itaúsa criou um comitê de portfólio para olhar novas oportunidades, para ter uma estratégia de longo prazo, tanto para a área financeira quanto a industrial.


O que mudou depois da transição na Itaúsa?

A governança. Os conselhos e os comitês passaram a ser mais efetivos. Se não tivéssemos feito isso, não teria saído negociação com o Unibanco. Mostramos ao Pedro Moreira Salles como estava nossa governança, para ele entender o desenho. O Pedro falou: ?Não quero simplesmente chegar lá e ser um figurante. O fato de já terem uma cultura de governança me dá confiança para a gente avançar nas conversas.?
 

E como tem sido no Itaú Unibanco?

O banco é uma empresa gigantesca. O conselho consegue debater os temas estratégicos principais. A presença do Pedro é muito importante. Hoje temos muito mais reuniões do que antes.Como assegurar a unidade de um grupo familiar e permitir a entrada de novos sócios de peso? O presidente da Itaúsa, Alfredo Egydio Arruda Villela Filho, tem a fórmula. Segundo ele, a convivência com os sócios é pautada pelo relacionamento profissional com ética, respeito, transparência, extrema confiança e sempre fiel ao cumprimento de tudo o que é combinado. Na segunda-feira 1º, ele concedeu entrevista exclusiva à DINHEIRO.

 

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