EXCLUSIVO: COMO PERDI MEU BOI GORDO

12/10/2001

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Às lágrimas, ruborizado, o rei do gado perdeu a majestade. Presidente da Fazendas Reunidas Boi Gordo, concordatária desde a terça-feira 16, o empresário Paulo Roberto de Andrade disse à DINHEIRO que teme ?ser confundido com um golpista aventureiro?. Um receio que tem, de saída, 27 mil bons motivos para existir. Este é o número de Certificados de Investimento Coletivo (CICs) emitidos pela empresa, nas mãos de mais de 20 mil investidores, que a partir de agora só poderão ser resgatados, se tudo der certo, dentro de dois anos. A conta espetada nos clientes é de R$ 780 milhões. ?Vou trabalhar, vou lutar, vou superar isso?, disse Andrade, aos prantos, no luxuoso escritório da empresa no bairro dos Jardins, em São Paulo, horas depois de ter seu pedido de concordata aceito. ?As regras da Comissão de Valores Mobiliários engessaram o meu negócio.?

Ex-rei do gado. Aos 53 anos, com pai e avô pecuaristas, Andrade ostenta o título de maior proprietário de cabeças de gado do País. Sua fama inspirou o escritor Benedito Rui Barbosa a compor o principal personagem da novela O Rei do Gado, da Rede Globo. Hoje, a Boi Gordo possui 300 mil hectares de terras em São Paulo, Mato Grosso e Rondônia, divididas entre 137 fazendas, próprias e arrendadas, nas quais mantém 150 mil cabeças de gado Nelore e Limousin. Entre seus clientes, o perfil médio é de quem tem poupanças na casa de R$ 25 mil, mas há gente famosa como o próprio Benedito Rui Barbosa e como o ator Antônio Fagundes, que protagonizou a novela e foi garoto-propaganda do negócio iniciado em 1988. Naquele ano, Andrade juntou dinheiro de 40 amigos para comprar bezerros. Prometia devolver o investimento com acréscimo de 42% dezoito meses depois, quando o gado, engordado, alcançaria o peso ideal para abate. Em seus dez anos iniciais, o negócio prosperou e formou uma milionária corrente de
investidores que chegavam a receber no prazo o investimento inicial com acréscimo de até 130%. Quase 100 mil contratos foram vendidos no período.

O sucesso atraiu para o ramo, inédito no mundo, outras empresas semelhantes à Boi Gordo. Uma delas, a Gallus, faliu em 1998, depois que se descobriu que os títulos vendidos não tinham correspondência com o número de bois comprados pela empresa. A partir daí, a Comissão de Valores Mobiliários entrou em cena e passou a estabelecer regras para o funcionamento do negócio. ?Não somos responsáveis pelas companhias estarem bem ou mal?, lembra José Luis Osório, presidente da CVM. ?Tudo o que fazemos como órgão regulador é impor regras que dêem ao investidor o máximo de informações e garantias à sua aplicação.? Chamado ao Rio e a Brasília para diversas reuniões, Andrade, que lutava pela regulamentação do mercado, reconhece que não soube adaptar a Boi Gordo às novas regras que criaram a figura da CIC,
entre elas apresentar garantias financeiras superiores ao volume
de títulos emitidos.

Credibilidade em baixa. Em fevereiro, a CVM flagrou uma emissão irregular de títulos pela empresa no valor de R$ 80 milhões, para a venda de dois milhões de arrobas. Com a investigação aberta, novas emissões ficaram suspensas por cinco meses. Nesse período a Boi Gordo resgatou títulos de clientes no valor de R$ 237 milhões. Quando a empresa resolveu vender ações e se capitalizar, em setembro, a mistura de credibilidade em baixa com caixa negativo mostrou-se explosiva. ?É difícil dizer ao cliente a hora certa de pedir uma concordata?, diz o advogado Ariosvaldo Mattos Filho, ex-presidente da CVM, contratado pela empresa. Na semana passada, o telefone da CVM recebeu centenas de ligações de clientes atrás de informações sobre suas poupanças. Pela concordata, a Boi Gordo tem de saldar 40% de suas dívidas no primeiro ano e 60% no segundo. ?Estou tranqüilo?, diz o piloto Ingo Hoffman, outro que investiu no gado. ?Já ganhei dinheiro com eles. Eles vão sair dessa.?

APLICAÇÕES DA RADIAÇÃO NUCLEAR
 

DINHEIRO ? Boi gordo é mau negócio?
PAULO ROBERTO DE ANDRADE ? Não. Chegamos a dar rentabilidade superior a 130% para contratos de 18 meses, quando investimentos nos bancos não renderam nem metade. A culpa não é do boi.

DINHEIRO ? De quem é?
ANDRADE ? Tivemos de nos adaptar, com muita dificuldade, a medidas excessivamente financeiras impostas pela Comissão de Valores Mobiliários. Fizemos isso com muita dificuldade, porque somos uma empresa caipira. Entendemos de campo, não de
mercado financeiro. A CVM tem 30 fiscais para olhar todas as companhias de capital aberto. Como é possível um deles subir no lombo de um burro para ver se eu tenho boi no pasto para saldar os meus contratos?

DINHEIRO ? Por que o sr. não pediu concordata antes?
ANDRADE ?
Eu sempre acreditei e continuo acreditando no meu negócio. Por isso insisti até quando não deu mais.

DINHEIRO ? Como o sr. pretende levantar a concordata?
ANDRADE
? Ainda não sei. Se precisar, vendemos terra. Também vamos ver se é possível trocar títulos por ações da empresa. Vou investir em genética, colocar os bois em semi-confinamento para engordarem em sete meses o que engordariam em 18. Parceiros vão me ajudar.

DINHEIRO ? Como fica o investidor comum?
ANDRADE ? Vou pagar a todos. Não sou aventureiro, minha família tem cem anos na pecuária. Eu sei que as pessoas que têm títulos comigo terão a paciência diminuída pela necessidade. A concordata é fria, não diferencia socialmente as pessoas, mas vou pagar todos (choro).

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