Luxo online e offline

O marketplace de moda Farfetch, que reúne marcas como Dolce & Gabbana, Giorgio Armani e Fendi, se tornou um fenômeno na internet. Mas seu idealizador, o português José Neves, quer ir além das vendas digitais

22/12/2016 18:40

  • // Por: Andressa D’Amato

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Vocação empresarial: a Farfetch, de José  Neves, já recebeu aportes de US$ 305 milhões
Vocação empresarial: a Farfetch, de José  Neves, já recebeu aportes de US$ 305 milhões ( foto: Flávio Florido)

Numa tarde cinzenta de quarta-feira em São Paulo, o português José Neves, 42 anos, abre as portas de seu escritório no País, localizado no bairro da Consolação, no centro de São Paulo. Vestindo uma camisa azul e calça jeans levemente desbotada, da grife francesa Yves Saint Laurent, e um relógio Rolex, o estilo fashion-descolado indica que o empresário gosta e entende do universo da moda. Neves é dono do marketplace Farfetch, que comercializa roupas, joias, acessórios e cosméticos.

No total, a loja online reúne centenas de grifes de moda, como Cartier, Salvatore Ferragamo, Stella McCartney, Dolce & Gabbana, Giorgio Armani e Fendi, além de marcas brasileiras, como Osklen e Reinaldo Lourenço. “Ainda há grifes de luxo que gostaríamos de trabalhar, como Céline, Christian Dior e Chanel. Mas é questão de tempo”, diz Neves. Agora, o empreendedor português quer ir além do mundo digital. No ano passado, ele adquiriu a Browns, uma das marcas mais icônicas de Londres, que servirá como laboratório para um objetivo ainda maior.

A ideia de Neves é inaugurar, em breve, uma nova loja com o conceito parecido com o da Browns, mas com o estilo da Farfetch. “Queremos oferecer aos clientes a melhor junção entre experiência digital e física, na linha do omnichannel, que significa estar presente em todos os canais de venda”, diz. Esse tipo de sistema já vem sendo praticado na Farfetch, inclusive para as vendas no Brasil. “O cliente compra um produto pelo site e faz a retirada em uma das lojas parceiras da empresa”, afirma Neves. “Se a pessoa não gostar, poderá escolher outra peça ou ser reembolsada.”

Até o momento, são 700 varejistas espalhados pelo mundo, que contam com 1,5 mil pontos de vendas. Outra estratégia de Neves, implantada recentemente por ele no mercado brasileiro, é fisgar o cliente que vai viajar para os Estados Unidos ou para a Europa. Antes de embarcar, o consumidor tem a opção de pedir um produto pelo site, pagar seu preço original, sem a taxa de importação, e recebê-lo no país em que estiver, fornecendo o endereço onde estará hospedado. O consumidor ainda pode parcelar em até seis vezes sem juros.

“São vantagens que, sem dúvida, fidelizam os clientes”, diz Amnon Armoni, coordenador do curso de pós-graduação em gestão estratégica em negócios e varejo de moda da Faap. “Além disso, a variedade desse tipo de marketplace é muito maior do que em um shopping.” Fundada em 2008, a Farfetch ganhou tração por conta de aporte de fundos de capital de risco. Ao total, ela já recebeu aportes de US$ 305 milhões em cinco rodadas de investimentos. A mais recente delas aconteceu em maio deste ano, de US$ 110 milhões, liderada pela Temasek, IDG e Eurazeo.

A Vitruvian Partners, que já era sócia, também participou da capitalização. Em 2016, a receita da empresa será de US$ 800 milhões, segundo Neves. No ano passado, foi de US$ 500 milhões. Já seu valor de mercado também subiu: passou de US$ 1 bilhão para US$ 1,5 bilhão, entre 2015 e 2016, de acordo com estimatimas dos fundos de venture capital. “Atingimos a marca de um milhão de clientes ativos nos últimos doze meses.” O setor de luxo tem conseguido crescer, apesar da crise.

No primeiro semestre deste ano, o mercado global de artigos de luxo registrou crescimento de 4%, de acordo com um estudo elaborado pela consultoria Bain & Company. No Brasil, as compras online também estão em alta. Segundo a consultoria Ebit, a expectativa é de que as vendas subam 8% este ano, atingindo um total de R$ 44,6 bilhões. Não é para menos que o País está entre os cinco maiores mercados da Farfetch. Em média, o consumidor brasileiro gasta R$ 1,6 mil por compra. Nos Estados Unidos, seu maior mercado, o tíquete médio é de R$ 2,4 mil.

“Continuaremos apostando no mercado brasileiro”, diz Neves. Otimista com seus negócios, a expectativa é de, em 2017, crescer 60%. Já quanto a uma possível abertura de capital, o empresário faz planos. “Temos a intenção daqui a dois ou três anos”. Hoje, a Farfetch atende 190 países e tem escritórios em 10 cidades de sete países. No total, conta com mil funcionários, 90 deles no Brasil. Neves atuou como estilista por uma década, mas nunca viu a moda como seu objetivo principal até seus 22 anos. Formado em economia pela Universidade do Porto, sua cidade natal, os números nunca o empolgaram.

Sua vontade era deixar Portugal e conhecer o mundo. “Queria sair do provincianismo português, viajar e conhecer outros países”. A cidade de Londres, considerada uma das capitais da moda, foi a escolhida por ele. Há 20 anos, ele vive no país dos Beatles. Foi lá que descobriu sua vocação para a moda e para os negócios, ao criar a marca de sapatos Swear, na qual está ainda à frente dos negócios. “Hoje, sinto que precisava desligar a parte criativa para acionar o botão de gestão”, afirma Neves. Ao que tudo indica, parece ter sido uma boa ideia do empreendedor português.

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