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Negócio sem benção

O quadro Salvator Mundi, de Leonardo Da Vinci, está no centro de uma batalha judicial envolvendo negociantes de arte, empresários e a casa de leilões Sotheby’s. Conheça os bastidores desse quebra-cabeça milionário

Negócio sem benção

Uma obra do artista italiano Leonardo Da Vinci (1452-1519) voltou a ser exposta nos noticiários internacionais. Desta vez, não nas sessões de cultura. Mas, sim, nas páginas policiais. O lendário quadro Salvator Mundi (Salvador do Mundo), pintado por volta de 1500, desencadeou uma briga entre o bilionário russo Dmitry Rybolovlev, o marchand suíço Yves Bouvier, os negociantes de arte Robert Simon e Alexander Parish, e a casa de leilões inglesa Sotheby’s.

Rybolovlev alega que houve superfaturamento da parte de Bouvier na venda desta e de outras obras adquiridas através do marchand; enquanto os negociantes de arte acusam a Sotheby’s, que estava os representando na venda deste quadro, de ter agido de má-fé, em favor de Bouvier. A pintura, que retrata Cristo em traje renascentista fazendo sinal de bênção, foi considerada, durante muito tempo, como uma obra de arte perdida. Nos anos 2000, em uma liquidação de patrimônio nos Estados Unidos, ela ressurgiu, porém, sem autenticação.

Muitos especialistas acreditavam que ela poderia ser uma cópia da original. Sem garantia que se tratava de uma autêntica pintura de Da Vinci, Simon e Parish a compraram por US$ 10 mil. De acordo com a Sotheby’s, a empresa foi procurada pelos negociantes para ser a corretora desta obra e ajudar na sua autenticação. Comprovada que se tratava de uma pintura original de Da Vinci, ela foi vendida, em 2013, por US$ 80 milhões. O comprador era o marchand Yves Bouvier, um dos melhores clientes da Sotheby’s.

Ele, por sua vez, a revendeu dias depois para o bilionário Dmitry Rybolovlev, dono de uma fortuna avaliada em US$ 7,7 bilhões. O russo pagou a quantia de US$ 127,5 milhões – US$ 47,5 milhões a mais do que Bouvier havia desembolsado pela pintura. A negociação causou a ira de Simon e Parish, que alegam que a Sotheby’s poderia ter pedido mais pelo quadro. Já Rybolovlev acabou descobrindo o “golpe” de Bouvier nessa e em outras transações. O marchand é acusado de ter lucrado cerca de US$ 1 bilhão em 38 pinturas vendidas a Rybolovlev. O caso agora está na Justiça.

A Sotheby’s criou recentemente um novo departamento para lidar com fraudes, comandado por James Martin, que trabalhou por duas décadas no FBI. Para a advogada Marcela Trigo, do escritório Trench, Rossi e Watanabe, Rybolovlev pode ter mais chances de ter o negócio anulado. “Tendo ocorrido uma fraude real, seria possível pleitear a sua nulidade e indenização por danos”, afirma. A batalha, por enquanto, ainda não tem previsão de acabar. Neste universo, diferentemente dos quadros, quanto menos pintura, melhor.