Estilo

O clube do bilhão

Depois da febre dos sites de compras coletivas, uma nova forma de adquirir produtos virtualmente tem conquistado os brasileiros: os clubes de assinatura, que fazem os clientes se sentirem especiais. Aqui, a criatividade desses novos empreendedores digitais não tem limite

O clube do bilhão

Lâminas em casa: “Atuamos em 70 cidades brasileiras e temos a meta de ultrapassar 300 em 12 meses”, diz Arthur da Costa, um dos sócios do Home Shave Club (foto: Luisa Santosa)

Quanto vale um clube que só vende produtos exclusivos para seus associados? Um dos clubes de assinatura mais famosos do mundo, o Dollar Shave Club, com cerca de três milhões de clientes que recebem lâminas de barbear, loções e cremes em casa, vale a mítica cifra de US$ 1 bilhão. Quem diz é a Unilever, gigante multinacional que comprou o Dollar Shave Club por esse valor, na quarta-feira 20. A startup americana faturou US$ 152 milhões no ano passado e seu potencial de crescimento é imenso, acredita a Unilever. Imenso e inspirador, como provam outras iniciativas inovadoras e estilosas que começam a vingar no Brasil.

O s amigos e empresários paulistas Arthur da Costa, Felipe Ziegelmeyer e Lucio Gomes criaram por aqui o Home Shave Club, em 2014, três anos depois do fenômeno americano. Guardadas as devidas proporções, eles também já deram certo. Seguindo os passos do modelo americano, a empresa tem crescido 30% ao mês e, recentemente, recebeu um aporte de R$ 8 milhões do fundo A5 Capital Partners. “Atuamos em mais de 70 cidades brasileiras. Nossa meta é ultrapassar  300 em 12 meses”, prevê Arthur, que pretende, ainda, ampliar o portfólio. Preço atrativo e comodidade fizeram com que, em pouco tempo, se destacassem na web: o clube brasileiro garante preços até 50% menores em comparação a marcas já consagradas no mercado. “Nossas lâminas são importadas da Coreia do Sul e temos exclusividade na comercialização online do produto no Brasil”, garante Costa. “Elas são as únicas no País que não têm solda ou emenda, permitindo menos obstáculos para o acúmulo de detritos, evitando corrosões e aumentando a durabilidade do produto”, acrescenta o empresário, que injetou parte dos R$ 350 mil investidos na fase inicial da Home Shave Club. 

Esse é apenas um entre os 500 clubes de assinatura que surgiram no País nos últimos anos, mudando completamente a forma de as pessoas consumirem sofisticados produtos como vinhos, cervejas artesanais e cosméticos importados. Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), as bebidas alcoólicas têm conquistado espaço na preferência do consumidor, que chega a gastar entre R$ 110 e R$ 150 em kits mensais de cervejas e vinhos  premium. O grande apelo desses clubes é a exclusividade. Muitos têm parcerias com importadores, garimpando produtos inéditos no mercado.  “Se levarmos em conta que as vendas através de e-commerce devem crescer 10% este ano, os clubes devem ter crescimento ainda maior, podendo chegar ao dobro desta expectativa”, diz  Gastão Mattos, CEO da Braspag, empresa do Grupo Cielo. 

Os “produtos gourmet” também têm seu espaço na rede. Apaixonados por culinária e turismo, o casal Gabriel Ribeiro e Nathalia Takenobu fundou, há dois anos, o BistroBox. Por R$ 79,90, os 800 assinantes recebem mensalmente uma charmosa caixa com cinco itens culinários, como temperos, geleias, chás e produtos importados, que vêm com dicas de uso e curiosidades sobre eles. “Disponibilizamos receitas em nosso site e clube de vantagens com desconto em empresas parceiras”, afirma Gabriel.  Ele montou a  Associação Brasileira dos Clubes de Assinatura. “Este ano, a expectativa de faturamento é de R$ 400 milhões no setor.”

Há produtos até para pets. O empresário Pedro Rosman foi além com sua empresa virtual, a Latbox. “Esse tipo de serviço é uma tendência mundial, assim como alimentos orgânicos e veganos. Então, por que não criar um clube para cachorros mimados?” Todos os produtos comestíveis da empresa seguem a linha natural. E acredite: a ideia pegou. Desde janeiro, a startup já enviou cerca de dois mil kits, que começam em R$ 130 e vão até R$ 180. “Se você for comprar os mesmos produtos no mercado, certamente pagará quase o dobro do preço”, garante Pedro. Outra ferramenta para atrair cliques é usar a criatividade. Pioneiro no segmento de gestante e bebê, o clube PetiteBox nasceu em 2013 e hoje é um dos modelos de inspiração para muitos empreendedores. “Este público é ávido por novidades e, além da necessidade de consumo, gosta de comprar”, diz o idealizador Felipe Wasserman, que comanda o negócio com a sócia Ivy Assis. Com faturamento mensal de R$ 150 mil, muitos dos 2,5 mil assinantes foram “pescados” na rede graças à parceria com blogueiras influentes. São babadores, fraldas e roupas que ganham visibilidade também por conta do preço mais acessível. 

Há também opção para os fãs de literatura. A paixão por livros e a vontade de empreender uniram os sócios Arthur Dambros, Gustavo Lembert e Tomás Susin, em 2014, na criação do TAG – Experiências Literárias. “Mesmo sabendo que vivemos em uma nação de não-leitores e na era do e-book, queremos incentivar as pessoas a cultivarem o hábito da leitura”, comenta Lembert. A grande sacada do clube, que tem nove mil associados, está na curadoria especial. Mensalmente, os sócios conversam com alguns nomes que são referência no cenário intelectual e, a partir daí, selecionam um livro indicado por eles. Escritores como Luís Fernando Veríssimo, Cíntia Moscovich e Mario Sergio Cortella já participaram da curadoria. Para Silvio Laban, coordenador do Insper e consultor de varejo, o empreendedor deve ficar atento para não cair em armadilhas.  “Tem de ter diferenciação para se manter na rede.”