Vinhos de verão

A bebida, geralmente associada ao inverno, é bem-vinda mesmo durante os dias mais quentes. Produtores e importadores garantem: o consumo cresce como nunca

17/01/2014

  • // Por: Bruna Borelli

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Inverno e vinho tinto. Praia e cerveja. Duas associações que, óbvias à primeira vista para muita gente, têm caído por terra na medida em que os brasileiros sofisticam o paladar. A renda da população aumentou, assim como o consumo de vinho. É consenso entre os especialistas que os brasileiros estão bebendo mais, aprendendo a degustar e buscam rótulos de melhor qualidade. Prova disso é que as importações de vinhos e espumantes dobraram entre 2004 e 2012, para 79,5 milhões de litros por ano, de acordo com o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). Em 2013, em razão da alta do dólar, foi registrado o primeiro revés em 15 anos, com uma queda de 9%, segundo projeção do consultor Adão Morellatto, da International Consulting.
 

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Frescor: servidos na temperatura ideal, os brancos e rosés
são uma opção para a época
 
Com mais acesso à bebida, os consumidores nacionais parecem entender mais do assunto e, muitas vezes, até já começaram a deixar alguns preconceitos de lado. “O consumo do vinho pode cair durante a temporada de calor, mas quem costuma beber com frequência não deixa de beber mesmo no verão”, afirma José Osvaldo do Amarante, diretor da importadora Mistral, de São Paulo. Segundo ele, só é preciso adaptar o paladar para tintos mais jovens e menos encorpados, como aqueles elaborados sem passar por barricas de carvalho. Entre as recomendações de Amarante, figuram variedades como Pinot Noir e Gamay.
 
Embora não revele números, o executivo admite que ainda pode ser notada uma queda na procura pelos tintos em dias de calor. Em compensação, é visível o aumento do interesse dos brasileiros por vinhos considerados mais fáceis de consumir no verão, como os brancos e os rosés. “A regra dos encorpados na época quente do ano também vale para os brancos”, diz Amarante, que explica também que nem todo vinho branco é necessariamente mais refrescante. “A sensação de frescor não tem a ver apenas com a temperatura ideal em que os vinhos devem ser tomados, que no caso dos brancos é mais baixa, mas também com a estrutura da bebida”, diz. Mesmo com a gradual mudança de conceito de que vinho é bebida de inverno, algumas importadoras ainda lidam com a queda das vendas na temporada de calor. 
 

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Bom desempenho: a venda de espumantes como o de Mario Geisse,
da Cave Geisse, vai bem o ano todo
 
Na verdade, empresas como a Qualimpor, que representa os portugueses Herdade do Esporão e Quinta do Crasto, chegaram a constatar que mesmo os vinhos brancos, considerados uma boa opção para a época, são mais vendidos no inverno. Entre abril e maio do ano passado, quando as temperaturas começaram a cair, a empresa teve um aumento de 35% na vendas dos brancos. A importadora Expand também sofre com a resistência dos brasileiros em tomar vinho no verão. “Janeiro, fevereiro e março são meses fracos para nós”, diz Rafaela Figueiredo, coordenadora de produtos da Expand. “Há resistência sim, mas sentimos que fica cada vez menor a cada ano que passa”, afirma a executiva. Servir vinho no verão não é um problema para os restaurantes de alta gastronomia. 
 
“Talvez por termos um ambiente climatizado ou porque nossos clientes são, geralmente, mais entendidos de vinho”, afirma Manoel Beato, sommelier do grupo Fasano. Das 3,5 mil garrafas da adega do grupo, 80% são tintos. “Nossa demanda não muda muito, independentemente da estação.” Nos restaurantes de primeira linha, os brancos também têm seu espaço reservado à mesa. A sommelier Gabriela Monteleone, do restaurante D.O.M., do renomado chef Alex Atala, diz que eles são mais utilizados na harmonização dos pratos. “O Atala tem uma cozinha brasileira e os ingredientes naturais de nosso país pedem vinhos mais leves”, afirma Gabriela. 
 

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Alta gastronomia: Gabriela Monteleone, sommelier do D.O.M.,
diz que seus clientes são fiéis ao vinho
 
Ao lado dos brancos e rosés, os espumantes têm se consolidado durante o verão. “O aumento nas vendas dos espumantes é até mais discreto se compararmos com o dos vinhos brancos e rosés, porque o espumante já tem seu lugar cativo no mercado durante o ano todo”, afirma Gianni Tartari, sommelier da importadora World Wine. Nesse cenário, a produção nacional apresenta um ótimo desempenho, já que a qualidade dos espumantes gaúchos é reconhecida internacionalmente. O chileno Mario Geisse, fundador da premiada vinícola que leva seu nome, em Pinto Bandeira, na Serra Gaúcha, revela que 30% de seus 180 mil espumantes produzidos por ano são vendidos durante os meses de novembro e dezembro. 
 
PEDRA DE GELO Ainda na onda dos espumantes de verão, a moda é consumi-los com pedras de gelo na taça. A tendência, batizada de “piscine” (piscina, em francês), surgiu na Europa e inspirou a tradicionalíssima Moët & Chandon para o lançamento de seu champanhe Ice Impérial. Paola Mastrocolla, gerente da LVMH Moët Hennessy Louis Vuitton no Brasil, a controladora da marca francesa, afirma que o lançamento foi tão bem recebido no mercado nacional que muitas vezes nem é possível atender a todas as encomendas, uma vez que ele é produzido em pequenas quantidades, de forma quase artesanal. 
 

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Estratégia: o champanhe Ice Impérial, da Moët & Chandon,
é servido com gelo
 
“O Ice Impérial foi pensado para ser bebido com três pedras de gelo, em uma taça de boca larga e durante um dia quente”, diz a executiva. “Essas são as condições ideais para o champanhe.” No entanto, Paola garante que, no caso da bebida Moët & Chandon, não se trata de uma diluição do conteúdo, mas sim de uma fórmula mais concentrada que encontra o equilíbrio perfeito em contato com o gelo. Para promover a bebida, a marca firmou parcerias com pousadas e hotéis estrelados que mais recebem turistas endinheirados, como Casas Brancas, em Búzios, Fasano, no Rio de Janeiro, e Estrela D’Água, em Trancoso. 
 
O gelo também é utilizado nos drinques de jarras que têm o vinho como base, a exemplo da sangria (tinto e frutas) e clericot (branco e frutas), e virou sucesso nos bares e restaurantes de São Paulo. “A sangria é uma das opções mais pedidas no verão”, afirma Leo Botto, chef do Chez Oscar, no bairro dos Jardins, na capital paulista. Os elaborados com espumante, como o Aperol Spritz do Zena Café, também nos Jardins, são bem-vistos pelo público brasileiro. Para Dirceu Scottá, vice-presidente do Ibravin, esses drinques podem ajudar na divulgação da bebida durante o verão. “É uma sementinha plantada”, afirma ele. “Beber aquele drinque talvez desperte a curiosidade de potenciais consumidores e amplie a venda de vinho e espumante.”
 

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