Edição nº 1015 20.04 Ver ediçõs anteriores
Håkan Buskhe, CEO da Saab (foto: Claudio Gatti)

Entrevista

“Estamos voltando para um cenário parecido com o da Guerra Fria”

“Estamos voltando para um cenário parecido com o da Guerra Fria”

Rodrigo Caetano
Edição 25.11.2016 - nº 995

Guerras são eventos complexos. É difícil apontar apenas um motivo para o estouro de um conflito. Mas, em todos os casos, há um ponto em comum: o componente econômico. Duas indústrias, em particular, foram apontadas como as grandes culpadas pela maioria dos conflitos nos últimos 20 anos: petróleo e defesa. Na avaliação de Håkan Buskhe, CEO da sueca Saab, no entanto, trata-se de uma atribuição imprecisa, no caso da indústria de armamentos. O comandante da fabricante do caça Gripen, que teve 36 unidades compradas pelo Brasil por US$ 4,7 bilhões, acredita que quanto maior for a capacidade dos países de se defenderem, maior será a chance de se alcançar a paz. “Ter as fronteiras definidas faz parte do conceito de país”, afirma Buskhe. “Nesse sentido, existem a responsabilidade e a obrigação de defendê-las, de acordo com as leis internacionais.” O momento, no entanto, não é bom. Para o executivo, o mundo está caminhando na direção errada. A falta de diálogo entre os líderes mundiais pode colocar as grandes nações em posição de enfrentamento, sem a possibilidade de se voltar atrás. Brasil e Suécia têm um papel importante incentivando a diplomacia. Ao mesmo tempo, as parceiras Saab e Embraer podem aproveitar para fazer negócios. Confira a entrevista:

DINHEIRO – Mudanças recentes na geopolítica mundial, como o crescimento da extrema direita nos Estados Unidos e na Europa, geraram uma expectativa de alta nos gastos militares. Como a Saab e a Embraer estão posicionadas nesse mercado, globalmente?
HÅKAN BUSKHE - 
Infelizmente, as tensões estão aumentando. Suécia e Brasil fizeram essa parceria, que envolve várias empresas. Mas, claro, Saab e Embraer são as mais importantes. Nós vemos oportunidades no mercado internacional. Podemos fornecer, não só o avião inteiro, mas também componentes. No último ano, o mundo passou por mudanças não muito positivas. Os líderes estão conversando pouco entre eles. Isso não é bom. É comum as pessoas acharem que essa situação é favorável ao mercado de defesa. Mas não é o caso, pois traz insegurança para todos. Agora, vemos uma demanda por nossos produtos de alta tecnologia.

DINHEIRO – O sr. mencionou a venda de componentes do Gripen, não apenas o avião inteiro. Isso significa que o mercado que se abre para a Saab e a Embraer é muito maior do que se imaginava?
BUSKHE –
 Existem partes do avião, que serão fabricadas no Brasil, e também componentes fornecidos por empresas brasileiras, que podem ser vendidos para outros países, inclusive a Suécia.

DINHEIRO – De quantos países, especificamente, estamos falando?
BUSKHE - 
Da versão atual do Gripen, 100 unidades foram vendidas para a Suécia e 66 para outros quatro países (África do Sul, Hungria, República Checa e Tailândia). O avião que será entregue ao Brasil é uma nova versão, totalmente renovada. A expectativa é de que as vendas da versão brasileira ultrapassem 400 unidades.

DINHEIRO – Saab e Embraer acabam de inaugurar um centro de desenvolvimento no País. Qual será o papel dele no desenvolvimento do Gripen?
BUSKHE - 
Uma versão de dois lugares do Gripen será desenvolvida no Brasil. Nós prometemos transferência total de tecnologia. E somos pessoas monótonas. Invariavelmente, cumprimos nossas promessas. O contrato com o Brasil foi ratificado em setembro do ano passado, em Londres. Em pouco mais de um ano, já inauguramos nosso centro tecnológico. Nesse meio tempo, estivemos treinando mais de 100 técnicos brasileiros da Embraer, na Suécia. Ao todo, já treinamos cerca de 500 profissionais. Quase todos estarão trabalhando no centro. A questão é que, quando se aprende uma coisa nova, se essa habilidade não é utilizada logo, acaba se perdendo. Por isso consideramos muito importante o desenvolvimento que será feito em Gavião Peixoto (cidade no interior de São Paulo onde estão localizados o centro de desenvolvimento e a futura fábrica do Gripen).

DINHEIRO – A Saab e a Suécia podem ser monótonas em relação às promessas, mas o Brasil é uma verdadeira montanha russa. Nos últimos dois anos, algumas empresas do setor de defesa reclamaram de atrasos no pagamento por parte do governo. Como o sr. vê essa situação?
BUSKHE –
 Fazemos negócios com mais de uma centena de países. Às vezes, as coisas vão bem, às vezes vão mal. Não temos um fluxo constante de recursos nem do nosso próprio país. É natural nesse mercado. Isso é a vida real. Mas, pensamos no longo prazo. Quando se está em um período de baixa, os projetos não são abandonados. No caso específico do Gripen, todo o programa de financiamento foi feito com o banco de fomento sueco. Por essa perspectiva, está tudo correndo normalmente. E acredito fielmente no potencial do Brasil.

DINHEIRO – Os pagamentos, então, são feitos via Suécia…
BUSKHE - 
De certa forma, mas quem libera os recursos são as autoridades brasileiras, não suecas. E dependendo do cumprimento dos prazos. Se ficarmos parados como gatos gordos, não recebemos.

DINHEIRO – A sua parceira Embraer esteve envolvida em um caso de corrupção internacional, no qual fez um acordo com autoridades americanas. Há, também, expectativas de cortes de pessoal na empresa, aqui no Brasil. Isso afeta, de alguma forma, o relacionamento entre as duas companhias?
BUSKHE - 
Eles tiveram alguns momentos difíceis. Do nosso lado, somos totalmente transparentes e temos políticas claras em relação à corrupção. Não trabalhamos dessa maneira. Então, para a Saab é muito bom que a Embraer tenha resolvido essa situação com os acordos firmados nos Estados Unidos. Todo esse processo foi feito de forma transparente e a direção atual mostra comprometimento. Em relação às demissões, no mundo dos negócios, às vezes você contrata, às vezes demite. Ajustes são necessários. Claro que é mais divertido contratar. Mas, no final das contas, se você não ajusta, todo mundo acaba sem emprego. Tenho total confiança na Embraer.

DINHEIRO – O sr. diria que o Brasil e a Embraer estão ganhando relevância no cenário internacional? O que isso representa para a Saab? 
BUSKHE –
 Nós gostamos de fazer parcerias pelo mundo. Agora, nossa estratégia não é multinacional. Fazemos alianças locais. No mercado de defesa, acreditamos que muitos países, como o Brasil, gostariam de desenvolver suas próprias capacidades para se tornarem menos dependentes de outros países. Isso inclui defesa cibernética, satélites, armas, controle de tráfego aéreo e, no nosso caso específico, aviões de combate. Entre 25% e 30% da nossa receita anual vai para pesquisa e desenvolvimento. Sempre me perguntam por que nós compartilhamos essa propriedade intelectual. Mas, ao desenvolvermos algo na Suécia que outros países também podem usar, nos tornamos mais fortes.

DINHEIRO – Agora, no mercado de defesa, é preciso escolher algum lado, correto? Como a Saab avalia os parceiros? É possível, por exemplo, vender armas para os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, para a Rússia?
BUSKHE –
 Brasil e Suécia são países neutros. Se temos problemas com um vizinho, isso não significa que vamos desqualificar um terceiro país por conta disso. Existem regulações e normas. E, claro, monitoramos nossos parceiros. O mundo, no entanto, não é tão simples. Não é fácil como escolher o time A ou o time B. Talvez, do ponto de vista de negócios, pode parecer simples. Agora, não sei se o mundo está nesse ponto. Os líderes devem conversar entre si, e não se esconder em trincheiras. Enfim, acompanhamos nossos parceiros, mas não acho que devemos escolher lados.

DINHEIRO – O fato de Brasil e Suécia adotarem essa postura de neutralidade é bom para os negócios de Saab e Embraer, então…
BUSKHE - 
Nos diversos lugares do mundo, o cenário competitivo é totalmente diferente. Na Ásia, por exemplo, onde estamos tentando fazer negócios, competimos com americanos, russos, grandes potências europeias e, agora, com os chineses. Somos um país pequeno, com metade da população de São Paulo, o que nos deixa sem a possibilidade de fazer pressões políticas. Nosso diferencial é a capacidade técnica. Algumas vezes, líderes preferem não escolher este ou aquele bloco. Então, preferem vir até nós. Outras vezes, há um comprometimento de países com este ou aquele bloco, e fica difícil para nós. O problema, no momento, é que há no mundo uma forte tendência de formação de times novamente. Estamos voltando para um cenário parecido com o da Guerra Fria e isso não é positivo.

DINHEIRO – O sr. mencionou a Ásia. Neste momento, com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, há uma expectativa de que os asiáticos busquem novos parceiros de defesa, saindo do guarda-chuva americano, ao menos parcialmente. Isso também acontece em outras regiões. Há uma janela de oportunidade para Brasil e Suécia?
BUSKHE –
 Ainda não está claro o que o presidente Trump irá fazer. Os Estados Unidos têm um legado e uma responsabilidade naquela região. Muitos americanos ainda têm na memória histórias de lutas nas ilhas do Pacífico. Temos de esperar para ver. Acho que nada será tão fácil. Uma coisa é fazer campanha, outra é comandar um país. Hoje se discute se o livre comércio prejudicou a distribuição de riqueza. Mas as pessoas esquecem-se dos enormes avanços que tivemos. O combate à pobreza foi recorde nos últimos anos. Há poucos países, atualmente, onde crianças são impedidas de ir para a escola. Se voltarmos 30 ou 40 anos, veríamos uma situação totalmente diferente. A questão é que a percepção não é essa, ao que parece. Estamos olhando para o controle de fronteiras e não para formas de nos ajudarmos. Acho isso ruim para o mundo.

DINHEIRO – Essa questão não é um paradoxo para a indústria de defesa? O pensamento comum é de que a paz é ruim para esse mercado e que quanto maiores forem as tensões, melhor para as empresas. 
BUSKHE –
 Se a consequência é guerra, não é bom para nós, definitivamente. Guerras são devastadoras. Mas, não devemos esquecer que a paz global, após a Segunda Guerra Mundial, está baseada em tratados da ONU e outras legislações do tipo. E que ter as fronteiras definidas faz parte do conceito de país. Nesse sentido, existe a responsabilidade e a obrigação de defendê-las, de acordo com as leis internacionais. Isso vale, também, para o espaço aéreo. Para cumprir essa obrigação, é preciso ter certas capacidades. Dessa maneira, se mantém a paz.

DINHEIRO – Em teoria, portanto, quanto maior for a capacidade dos países se defenderem, maior será a chance de se ter paz?
BUSKHE –
 Sim. No mínimo, você tem uma situação que não gera a possibilidade de conflito. Na Suécia, não temos uma guerra há mais de 200 anos. O que estamos vendo, agora, é um aumento nas possibilidades de guerra. Na Europa, há uma situação na Ucrânia. Na Síria, o conflito pode se acirrar ainda mais. Há tensões no Mar do Sul da China e na Coreia do Norte. Estamos na direção errada.

DINHEIRO – Qual seria o pior cenário, em relação a esses conflitos?
BUSKHE - 
O pior cenário seria no caso de líderes utilizarem essas disputas para acalmar os ânimos da população, criando mais tensão. Em dado momento, é possível se colocar em uma situação em que não há volta. Não se trata de algo inédito. Infelizmente, o momento atual tem as mesmas características de tempos tenebrosos da história mundial. Suécia e Brasil podem ter um papel importante incentivando o diálogo.

DINHEIRO – Qual é o seu maior medo: Donald Trump, Vladimir Putin ou Xi Jinping? 
BUSKHE –
 Meu maior medo é de que eles não conversem. E que essas três nações gigantes tentem encontrar soluções para outros países, sem consultá-los.

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