Edição nº 1036 15.09 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

“Nunca deixamos de ser atrativos para os investidores estrangeiros”

“Nunca deixamos de ser atrativos para os investidores estrangeiros”

Paula Bezerra
Edição 02.09.2016 - nº 983

O diplomata e engenheiro carioca Roberto Jaguaribe, de 64 anos, trocou a residência da embaixada brasileira em Pequim por Brasília, há cerca de três meses. Durante um ano, ele ocupou o cargo de embaixador do País na China e Mongólia. A decisão de regressar ao Brasil depois de seis anos no exterior – entre 2010 a 2015 ele foi o embaixador brasileiro no Reino Unido – veio por meio de um nobre convite, segundo suas palavras: presidir a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex). Com a ida de José Serra para o ministério de Relações Exteriores e o esforço do novo governo em aumentar a participação do Brasil no contexto econômico global, a entidade passou a ser parte integrante do Itamaraty. Em dois meses de atuação, Jaguaribe anunciou novos programas e repensou estratégias. Ele afirma que a união da entidade com o ministério tem como objetivo aumentar a inteligência comercial. “Não tenho dúvida de que precisamos ser mais concretos nas metas de negociação”, disse ele. Nesta entrevista exclusiva à DINHEIRO, Jaguaribe detalha seus planos:

DINHEIRO – O governo de Michel Temer adotou a estratégia de incentivar o comércio internacional. Nesse processo, a Apex foi incorporada ao ministério das Relações Exteriores. Qual é a importância dessa mudança? 
ROBERTO JAGUARIBE – 
O papel da Apex não mudou. A entidade continua exatamente como era antes, ou seja, trabalhando para a promoção de exportações e de investimentos no Brasil. Agora, o local de ancoragem da Apex, no âmbito do governo federal, é que mudou e passou a estar no lugar natural e necessário. Antes, não era. Era equivocada. No Itamaraty, ganha-se a multiplicação dos tentáculos no exterior, melhora-se a capacidade de encontrar oportunidades e de se criar uma relação direta com a produção onde estamos conectados. Na verdade, a Apex é uma instituição muito interessante, que já tem cultura e competência adquiridas. Mas é completamente equivocado que ela não tenha tido, desde o começo, uma relação de completa coordenação com os postos do Brasil no exterior e com o departamento de promoção comercial do Itamaraty.

DINHEIRO – Nessa formatação, o que a Apex passa a agregar no processo de exportação? 
JAGUARIBE –
 Ela traz um elemento que, para mim, é fundamental. A inteligência no sentido de informação específica que orienta a criação de oportunidades. Além disso, com essa nova configuração vinculada à presidência da República, a Apex ganhou uma força maior de negociação comercial. Não que ela esteja na linha de frente, mas ela passa a estar mais diretamente integrada na negociação comercial. Na teoria, e tem que ser na prática, a Apex é a entidade com mais conhecimento da capacidade exportadora do Brasil. Se você tem o maior conhecimento de exportação do Brasil, tem de estar ligado ao processo de negociação. Então, é um processo complexo. Não sou contra, acho que temos que manter essa liberdade de políticas públicas. Mas, não tenho dúvida de que precisamos ser mais concretos nas metas de negociação, tendo presente o universo real da capacidade produtiva e de exportação

DINHEIRO – O trabalho de ajudar pequenas e médias empresas a exportar foi mantido? 
JAGUARIBE – 
A Apex nasceu no âmbito do Sebrae tentando incentivar a participação da micro e da pequena empresa no processo de exportação. Então, ela tem um foco maior nessa questão. Mas devemos ampliar nosso foco. Em primeiro lugar, apesar de já termos começado a trabalhar com o setor agro-exportador, precisamos dar um foco maior a ele por ser o principal segmento de exportação do Brasil, na atualidade. Nesse contexto, a primeira ação que tivemos foi a de formular um grupo de trabalho para fazer a convergência e a coordenação plena para o Itamaraty. A segunda foi criar um outro grupo com o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), com consultores externos e vários setores produtivos da agroindústria brasileira para fazer um grande pacote para o setor. Nesse pacote, a dimensão fundamental serve para toda a área e não apenas para a exportação. Precisamos trabalhar melhor uma percepção não só da imagem do Brasil como marca, mas do que é o País em termos de produção.

DINHEIRO – Quais são esses passos para mudar a percepção do País no exterior? 
JAGUARIBE – 
O primeiro ponto-chave é em relação à sustentabilidade. O Brasil é um País que tem uma enorme sustentabilidade, sobretudo e principalmente, na sua produção agroindustrial. Mas no exterior isso não é percebido, porque há uma distorção grande, uma desinformação relevante, e, até mesmo, uma leviandade nesses processos. Principalmente porque interessa para muitos países que o Brasil tenha essa imagem de devastador em áreas nativas, o que é falso. Precisamos trabalhar todas essas questões. O que pretendemos agora é caracterizar a Apex como uma instância que deve ser buscada pelos interessados pelos aportes de inteligência e de informação comercial. O foco será nesse elemento.

DINHEIRO – Como é possível transformar essa percepção? 
JAGUARIBE – 
Passamos por um momento muito difícil. Um momento de instabilidade política, somado às dificuldades econômicas. Além disso, há o momento sanitário complexo, por causa do vírus da Zika, e mais ainda o dano da imagem, que foi maior que o econômico. Tudo isso gerou uma confluência negativa e deixou muita gente preocupada com o que poderia acontecer na Olimpíada e nos Jogos Paralímpicos, por exemplo. Porém, o Brasil mostrou maturidade, serenidade e uma enorme resiliência. Tivemos muito sucesso nos Jogos. Mostramos a criatividade, a capacidade de produzir resultados de grande efeito com inteligência e transmitimos, inclusive, uma mensagem humanista, profunda, que diz respeito à questão da diversidade brasileira. Tratamos o tema da sustentabilidade. Não vi nenhuma Olimpíada com uma proposta de evidenciar essas coisas de uma maneira tão ampla como o Brasil fez. Foi um momento de reflexão profunda. Até mesmo a questão tragicômica dos nadadores americanos. Ela ajudou a mostrar como é fácil passar um entendimento baseado no clichê e que, depois, não se revela verdadeiro. Acho que tudo isso é um bom ponto de partida para o trabalho de reversão de imagem, para que tenha efeito real.

DINHEIRO – Depois desse exemplo na Olimpíada, o Brasil voltará a ser atrativo aos investidores estrangeiros?
JAGUARIBE – 
Nunca deixamos de ser atrativos para os investidores estrangeiros. Mesmo no ano passado, que foi complicado pelos elementos políticos e econômicos, o Brasil foi o nono destino de investimentos diretos do mundo. Estamos acostumados a estar entre os cinco primeiros, mas, cá entre nós, ser o nono não é passar vergonha. Sempre fomos percebidos como um destino importante e não deixaremos de ser. Agora, teremos novos parceiros importantes. A China passa a ser um parceiro fundamental e muito particular, como já era no comércio. Depois, os parceiros tradicionais, como os países europeus, os Estados Unidos e o Japão. Temos, também, a entrada dos parceiros indianos, que passam a investir no País. Na verdade, é mais fácil ainda ampliar significativamente a atração de investimentos do que a exportação de certos segmentos produtivos que precisam de mudanças macro mais sustentáveis. Não há milagre que se faça nem através de negociação comercial nem de promoção comercial, para corrigir deficiências estruturais no custo da produção. Aí é preciso fazer o dever de casa em vários segmentos.

DINHEIRO – O sr. acredita que a crise política do Mercosul pode atrapalhar a relação comercial entre os países membros? 
JAGUARIBE – 
Não acredito que isso afete minimamente os interesses pragmáticos e concretos da integração e da aproximação com o resto da América Latina. Mesmo os que não fazem parte do Mercosul. Embora, até seja difícil dizer, porque toda a América do Sul está vinculada de certa forma com o Mercosul, com acordos diretos, como Chile, Peru, Colômbia. Além disso, há todo um interesse em fazer uma aproximação direta com a Aliança do Pacífico. Não vejo nenhum problema de natureza política afetando as negociações comerciais na região.

DINHEIRO – Em relação à Aliança do Pacífico, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, intensificou as relações com os países membros. O Brasil precisa seguir o mesmo caminho?
JAGUARIBE – 
O ministro José Serra tem feito manifestações nesse sentido. Não tenho dúvida de que isso seja um interesse permanente. Creio que é inalterável o interesse do Brasil em ter uma inserção muito próxima com o seu contorno geográfico. Um país como o Brasil não pode ignorar sua região. Tudo isso faz com que seja absolutamente óbvio que a prioridade número um do País seja com seu entorno geográfico. Pela proximidade, amizade, desafios conjuntos, desafios logísticos. É uma questão muito clara e não vejo nada que abale. Tanto no passado, como no futuro. Mas esse interesse é permanente.

DINHEIRO – Este ano foi marcado por muitos acontecimentos na política global, como a saída do Reino Unido da União Europeia. Como isso impacta o Brasil?
JAGUARIBE – 
Pode haver uma leitura otimista e pessimista sobre isso. O Brasil valoriza muitíssimo a Europa e a força da atuação do Continente no contexto internacional. Aquilo que enfraquece a Europa não é algo que nos interessa. Por outro lado, o Reino Unido é um país muito particular com o qual o Brasil tem relações tradicionalíssimas. É um país com presença global, com uma enorme capacidade de influenciar e de gerar percepções. Agora, o fato de o Reino Unido sair ou não do bloco europeu, é uma coisa muito obscura. O processo parece estar menos acelerado. Até mesmo algumas pessoas do país dizem que ainda apostam que ele não sairá. Porém, não abalará a posição do Brasil na Europa. Avalio que criará, inclusive, uma possibilidade de tornar o processo de aproximação de relação comercial com o Reino Unido, talvez mais fácil do que com o resto da Europa. No entanto, não vejo que vai diminuir ou afetar negativamente nossa relação com a Europa e nossa relação individual com o Reino Unido.

DINHEIRO – Em 2015, o Brasil superou a crise diplomática com os EUA. As eleições presidenciais americanas podem provocar um novo retrocesso? 
JAGUARIBE – 
A relação do Brasil com os Estados Unidos é outra relação permanente. De interesse, de amizade, e ela vai subsistir e resistir a qualquer governo. Existem interesses sólidos e canais consolidados de relação, que passam, muitas vezes, à revelia do governo. São investidores privados, culturais e de cooperação. De modo de que a consolidação da relação comercial com os EUA é um processo que também vai continuar. Claro que, se houver um governo altamente protecionista aos Estados Unidos, algumas alterações vão existir. Porém, não acredito que isso venha a ocorrer, independente do resultado das eleições americanas.

DINHEIRO – Nessa nova composição global, há um mercado foco para o Brasil? 
JAGUARIBE – 
Trabalhamos com a lista de países prioritários que o governo traça para nós. Mas, não tenho dúvida nenhuma que a China é prioritária pela demanda que ela tem no Brasil. É um país de grande conseqüência e relevância, que não tem condições de ser sustentável em todas as suas áreas de produção. Portanto, a China é de fato uma prioridade. Sabemos que se trata de um país complexo, onde o governo tem um papel muito mais preponderante que em outros países do mundo. Então, é uma relação que precisa ser melhor trabalhada.

DINHEIRO – Alguns especialistas apontam o fim do BRICS – acrônimo de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O sr. concorda com essa visão? 
JAGUARIBE – 
Não tenho dúvidas que os BRICS não acabaram. O grupo é uma realidade. Trata-se de grandes países do mundo, porém, que têm pouco conhecimento entre si. Mas é inegável que eles ganham muito em ter essa aproximação e institucionalização. Isso abre portas para entendimentos de muito mais densidade. Além de ter uma representação coletiva de muito mais intensidade. O ponto é que a relação entre os países BRICS ainda é insuficientemente explorada. Então, temos que olhar essas questões com enorme pragmatismo. O que deve ser levado em consideração é que são países em desenvolvimento que lidam com outros países em desenvolvimento.

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  • Hong Kong
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