Edição nº 1023 15.06 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

“Nossa política fiscal chegou ao limite”

“Nossa política fiscal chegou ao limite”

Cláudio Gradilone
Edição 15.07.2016 - nº 976

Um dos maiores especialistas em contas públicas, Raul Velloso, Ph.D em economia pela Universidade Yale, acredita que o dia do Juízo está próximo. Não o Final, mas o orçamentário. Em seu livro mais recente, “O Dia do Juízo Fiscal”, publicado em maio, ele traça um panorama tenebroso das contas brasileiras após os anos de irresponsabilidade fiscal dos governos do PT. “Batemos no muro”, escreveu ele. Segundo Velloso, a desaceleração da economia, que diminui as receitas do governo, e a dificuldade em cortar despesas, tornam improvável uma melhora do cenário antes de quatro anos. E será preciso enfrentar questões difíceis, como o déficit da Previdência, indo além de soluções cosméticas, mas alterando os parâmetros da aposentadoria. Mesmo assim, ele avalia que a escolha de uma equipe econômica comprometida com a solidez fiscal e a volta de palavras como privatização e concessões aos discursos do governo permitem supor que é possível esperar uma solução, ainda que demorada. Ele falou com a DINHEIRO:

DINHEIRO – Durante anos, o governo do PT gastou muito dinheiro, o que comprometeu a qualidade das contas públicas. Em seu livro mais recente, o sr. diz que chegou o dia do “juízo fiscal”. Chegou a hora de o Brasil deixar de gastar mais do que arrecada?
RAUL VELLOSO –
 Sim. Nós batemos no muro. Nossa política fiscal chegou ao limite, não há maneira de os gastos públicos permanecerem na trajetória em que estão. Ou reformamos o Estado, ou nossa realidade será de alta inflação e crescimento econômico baixo.

DINHEIRO – Por que a crise é tão grave?
VELLOSO –
 Estamos em um momento em que duas crises nas finanças públicas confluíram. Uma é conjuntural, de queda de arrecadação devido ao desaquecimento da economia. Outra é estrutural: gastos que pressionam o Tesouro e são muito difíceis de reverter. Um dos grandes problemas do debate sobre as contas públicas no Brasil é que não é claro que esses dois problemas são distintos e necessitam de soluções distintas.

DINHEIRO – Há alguns anos, o Brasil tinha superávit fiscal e isso garantiu o grau de investimento, que perdemos no ano passado. Como isso ocorreu?
VELLOSO –
 Se analisarmos a história recente, vemos cinco momentos bem definidos das nossas contas públicas. Entre 2005 e 2009, a receita do governo federal cresceu muito, cerca de 8,9% ao ano, embalada pelo alto preço das commodities no mercado internacional. Havia dinheiro para todos. Isso permitiu ao governo atender às demandas sociais, conceder subsídios e desonerações para empresas que deveriam ser campeões nacionais, e também pagar as despesas do Bolsa Família. As despesas cresceram 8,7% ao ano nesse período, praticamente igualando o crescimento das receitas. Isso acabou com a crise de 2009, que derrubou os preços das commodities. E aí começamos a sofrer o efeito da diferença entre a dinâmica das receitas e a das despesas.

DINHEIRO – Por que as dinâmicas são diferentes?
VELLOSO –
 As receitas são oriundas da arrecadação e dependem da atividade econômica. Quando a atividade desacelera, as receitas caem imediatamente. Mas as despesas são muito menos flexíveis. A maioria dos gastos públicos já está pré-contratada por lei, como o reajuste do salário mínimo, a concessão das aposentadorias, subsídios dedicados a obras. Tudo isso é muito difícil de mudar. Mas essa crise durou pouco, a economia chinesa se recuperou, os preços das commodities voltaram a subir e conseguimos elevar as receitas até 2012, o que foi a terceira fase da nossa análise. Nesse momento, o mercado de commodities iniciou um longo ciclo de baixa e isso desequilibrou o orçamento do governo.

DINHEIRO – Isso dura até hoje? 
VELLOSO – 
Sim, porque a partir desse momento o governo resolveu apostar em políticas contracíclicas, mas a economia não cresceu. Como resultado, em 2012 e em 2013, as receitas cresceram 2,8% ao ano, mas as despesas cresceram 6,2%. Em 2014, a turbulência política com a eleição zerou o crescimento e provocou uma recessão no ano seguinte. Nesse momento, abriu-se um enorme hiato. Entre novembro de 2014 e fevereiro deste ano, as receitas caíram 4,3% ao ano em termos reais, e as despesas subiram 4,2%.

DINHEIRO – Como sair dessa situação? A crise é insolúvel?
VELLOSO – 
Não, a crise não é insolúvel, mas precisamos acertar no diagnóstico. É preciso separar os problemas estruturais e os problemas conjunturais. O que é conjuntural não pode ser resolvido com soluções estruturais, e vice-versa.

DINHEIRO – Como assim?
VELLOSO –
 Vamos começar pelo principal problema estrutural, que é o déficit da Previdência. A Previdência precisa de reformas. Qualquer medida estrutural de reforma da Previdência precisa mexer em pontos fundamentais, como a idade mínima para a aposentadoria. No entanto, o efeito disso não é imediato. Ao contrário, se começarmos a discutir idade mínima, o impacto no curtíssimo prazo poderá até ser adverso, estimulando as pessoas a se aposentar para garantir o benefício.

DINHEIRO – Quais os outros problemas estruturais além do déficit da Previdência? 
VELLOSO – 
Há duas questões que precisam ser enfrentadas. Uma delas são os gastos com pessoal, que são elevados. A manutenção da máquina é muito cara tendo em vista o orçamento do Estado. Outro problema é a gestão da assistência social, em que os programas são ineficientes e ineficazes, e não atendem os objetivos a que se propõem. É comum haver duplicidade e superposição de programas. Tudo isso representa um gasto de dinheiro público, que poderia ser melhor empregado.

DINHEIRO – Os subsídios e desonerações fiscais não ajudaram a construir esse cenário ruim?
VELLOSO – 
Subsídio é algo que, em muitos casos, faz sentido. Tomemos, por exemplo, o caso do financiamento da infraestrutura. Investir em infraestrutura é caro, demorado e exige muito capital. Se o governo não tiver condições de fazer os investimentos e for necessário convocar a iniciativa privada, faz sentido conceder um financiamento subsidiado, por exemplo. Não é a algo descabido diante de condições complexas.

DINHEIRO – Por exemplo?
VELLOSO – 
O mercado não é perfeito todo o tempo. Há falhas de mercado, por exemplo, se o prazo de maturação de um investimento for longo demais para contar com financiamento privado. Há falhas de mercado por causa de questões regulatórias. Os exemplos são inúmeros. O governo pode resolver isso concedendo financiamento em condições vantajosas, inclusive por meio do BNDES. Não há nenhum problema nisso, desde que o investimento seja necessário e a economia ou a sociedade de fato ganhem com ele.

DINHEIRO – Essa é a questão estrutural. E os problemas conjunturais? 
VELLOSO – 
Eles decorrem da desaceleração da economia. Vamos simplificar. Para se financiar, o governo cobra impostos. Os mais importantes, tanto federais quanto estaduais, incidem sobre a renda das pessoas e das empresas, sobre a produção e sobre a circulação de mercadorias. Tudo isso depende basicamente de que a economia se movimente. Quando a atividade econômica desacelera ou encolhe, que é o que vimos em 2015 e deverá se repetir em 2016, a arrecadação vai diminuir. Já as despesas são menos flexíveis. Então, temos despesas fixas e uma arrecadação em queda. E não há solução possível no curto prazo.

DINHEIRO – Por quê? 
VELLOSO – 
Porque, como é difícil reduzir as despesas, a saída para enfrentar o déficit é elevar a receita, algo pouco praticável em períodos de queda da atividade econômica. E não adianta querer aumentar as alíquotas de imposto para compensar a queda na arrecadação. O resultado é simples, o governo não vai encontrar quem pague esse imposto adicional. Esse tipo de solução só se justifica em situações emergenciais, muito especiais. Na atual conjuntura, elevar imposto é predatório. É algo que se justifica apenas se o País estiver caminhando para abismo.

DINHEIRO – E estamos?
VELLOSO –
 Temos uma vantagem. A escolha do Henrique Meirelles para o Ministério da Fazenda é um bom sinal. Mostra um comprometimento do novo governo com o equilíbrio das contas públicas. Ele montou uma equipe de pessoas comprometidas com a solidez fiscal.

DINHEIRO – Mesmo com o Congresso discutindo um déficit público de quase R$ 140 bilhões em 2017, após ter aprovado R$ 170 bilhões de déficit em 2016? Como escapar disso?
VELLOSO – 
No curto prazo, o governo terá de fazer todo o possível para permitir à economia retomar sua trajetória de crescimento. Só com crescimento econômico é possível esperar um efeito relevante no curto prazo. O problema é que será pouco provável que isso ocorra logo. Vamos ter de esperar quatro anos antes de vermos resultados polpudos.

DINHEIRO – O governo Temer parece estar bastante empenhado na privatização e na volta dos leilões de concessões. Isso não pode representar uma solução?
VELLOSO –
 É uma solução temporária, mas que sempre ajuda. A venda de ativos estatais pode gerar receitas extraordinárias, que podem substituir os impostos. Mas isso vale apenas para um determinado momento. Temos de ter duas coisas em mente. A primeira é que isso tem de ser visto como uma ponte, como algo não recorrente, que só pode ser feito uma vez. A outra é que uma privatização não é um processo trivial. É preciso estabelecer um preço justo e competitivo para os ativos e também encontrar alguém que esteja disposto a comprar esses ativos à venda.

  • Dólar Comercial
    R$3,33300 0,00%
  • Euro Comercial
    R$3,71590 -0,13%
  • Dow Jones
    21.433,60 +0,11%
  • Nasdaq
    6.253,0600 +0,31%
  • Londres
    7.439,29 -0,11%
  • Frankfurt
    12.794,00 +0,15%
  • Paris
    5.281,93 +0,15%
  • Madrid
    10.709,90 -0,29%
  • Hong Kong
    25.674,50 -0,08%
  • CDI Anual
    10,14% 0,00%

Justiça

Julgamento reinicia no STF e terceiro ministro vota pela validade da delação da JBS


Fibria confirma interesse em comprar Eldorado, dos irmãos Batista

Negociação

Fibria confirma interesse em comprar Eldorado, dos irmãos Batista

Após novo revés no Congresso, Temer diz que reformas são inadiáveis

Crise política

Após novo revés no Congresso, Temer diz que reformas são inadiáveis

Defesa da JBS fala que empresa sofre ‘retaliação’

Delação

Defesa da JBS fala que empresa sofre ‘retaliação’

Com dívida de R$ 3,8 bi, Triunfo tenta evitar recuperação judicial

Negócios

Com dívida de R$ 3,8 bi, Triunfo tenta evitar recuperação judicial

Confiança do empresário industrial cai em junho, revela CNI

Indústria

Confiança do empresário industrial cai em junho, revela CNI


TV Dinheiro


Headhanter fala sobre o aumento da contratação de executivos brasileiros no exterior

Moeda forte

Headhanter fala sobre o aumento da contratação de executivos brasileiros no exterior

Qual expectativa para a recuperação das vendas no Brasil?

Dinheiro em Ação

Dinheiro em Ação

Qual expectativa para a recuperação das vendas no Brasil?

Quais os fatores que influenciam na variação do dólar?

Descomplicando a economia

Descomplicando a economia

Quais os fatores que influenciam na variação do dólar?

Economista debate crise econômica e má gestão

Papo de economista

Papo de economista

Economista debate crise econômica e má gestão


Economia


BC vê inflação menor em 2017 e 2018, mas deve reduzir corte nos juros

Relatório

BC vê inflação menor em 2017 e 2018, mas deve reduzir corte nos juros

Mudança nas regras da Previdência deve ter atraso

Reforma

Mudança nas regras da Previdência deve ter atraso


Negócios


Adidas faz ‘virada’ de marca ao apostar em moda

Marketing

Adidas faz ‘virada’ de marca ao apostar em moda

Varejo

Magazine Luiza suspende estudos para oferta pública de ações

JBS

Associação de funcionários do BNDES se surpreende com bloqueio de bens da JBS

AGU

Manifestação contra JBS não coloca em suspeição funcionários do BNDES


Blogs


Boom de fintechs brasileiras oferece novas oportunidades para os investidores

Empreendedorismo, por Romero Rodrigues

Boom de fintechs brasileiras oferece novas oportunidades para os investidores

O que o Argo pode fazer pela Fiat

República do Automóvel

O que o Argo pode fazer pela Fiat

Criado para substituir o Punto, o Bravo e algumas versões do Palio, o hatch produzido em Betim faz parte de uma estratégia que não mira só o volume de vendas, mas principalmente a redução de custos


Marketing Esportivo


Quais os planos da NBA para alavancar sua marca no Brasil

Fortalecimento

Quais os planos da NBA para alavancar sua marca no Brasil

Berço de fenômenos do esporte e do marketing mundial, a liga americana de basquete, dona de uma receita global de US$ 5,8 bilhões, prepara um novo salto para popularizar sua marca no País

Para conquistar adeptos, americanos ajudam esporte a renascer no país

Novo Basquete

Para conquistar adeptos, americanos ajudam esporte a renascer no país

Para a NBA, desenvolver o basquete brasileiro é fundamental para os negócios e ganhos de longo prazo. Entenda como a liga americana vem sendo peça chave para o renascimento do esporte no País


Entrevista

“O cenário mais provável é que Temer chegue ao final do mandato”

Rodrigo Rollemberg, governador do DF

Rodrigo Rollemberg, governador do DF

“O cenário mais provável é que Temer chegue ao final do mandato”

A despeito de seu partido, o PSB, Rollemberg apoia reformas e evita confrontar postura de Temer. "Renúncia é uma decisão unilateral"


Tecnologia


Como Masayoshi Son, do Softbank, está criando o maior rival da Uber

SEM LEVAR UM PASSAGEIRO

Como Masayoshi Son, do Softbank, está criando o maior rival da Uber

Como o empreendedor japonês Masayoshi Son, fundador do grupo Softbank, está criando um competidor global ao mais popular aplicativo de transporte do planeta

Moleskine tenta turbinar vendas ao usar novas tecnologias

CAMINHO DIGITAL

Moleskine tenta turbinar vendas ao usar novas tecnologias

Famosa pelos bloquinhos de papel, a empresa italiana tenta se reinventar com o uso da tecnologia. Conheça o plano para turbinar as suas vendas por aqui


Especial Franquias


Quais as alternativas para não colocar dinheiro do próprio bolso em uma franquia

Sonho do negócio próprio

Quais as alternativas para não colocar dinheiro do próprio bolso em uma franquia

As franquias são um caminho natural para quem deseja começar a empreender. O problema é arrumar os recursos para abrir uma empresa. As linhas de financiamento ainda são escassas e o melhor é usar dinheiro próprio. Mas existem algumas alternativas

Os conselhos de Carlos Wizard, fundador das escolas Wizard, para se dar bem no setor

Apaixonado por franquias

Apaixonado por franquias

Os conselhos de Carlos Wizard, fundador das escolas Wizard, para se dar bem no setor

Academias continuam apostando nas franquias para ganhar cada vez musculatura

Suando para Inovar

Suando para Inovar

Academias continuam apostando nas franquias para ganhar cada vez musculatura

Após crise, especialistas dizem que este é o momento para investir em um novo negócio

A hora é agora

A hora é agora

Após crise, especialistas dizem que este é o momento para investir em um novo negócio


Economia


Países latino-americanos buscam novo impulso para suas economias

DECLÍNIO DAS COMMODITIES

Países latino-americanos buscam novo impulso para suas economias

Imersos em crises políticas, Brasil, Argentina, Venezuela, México e até o Chile não conseguiram se reinventar após o fim do ciclo virtuoso das commodities. Recuperação econômica continuará lenta na maioria desses países

Por que o Brasil recebeu o novo escritório global da Câmara Internacional

10 perguntas a ALEXIS MOURRE

Por que o Brasil recebeu o novo escritório global da Câmara Internacional

10 perguntas para Alexis Mourre, presidente da Corte Internacional de Arbitragem


Finanças

Podendo ser vendido, Original entra na mira do Santander

Relâmpago

Relâmpago

Podendo ser vendido, Original entra na mira do Santander

Alheio aos escândalos do grupo J&F, de Joesley Batista, o banco possui boa plataforma tecnológica e conhecimento no agronegócio. Dois atrativos aos olhos espanhóis.


Negócios


Conheça a fórmula do CEO que multiplicou as vendas da farmacêutica Takeda

Cosmopolita

Conheça a fórmula do CEO que multiplicou as vendas da farmacêutica Takeda

Depois de multiplicar por quatro os resultados da farmacêutica japonesa, em apenas cinco anos, Ricardo Marek recebe a missão de comandar os negócios em 35 países. Conheça a sua fórmula

Quais os planos da Caoa para continuar crescendo com a Hyundai no Brasil

Casamento

Quais os planos da Caoa para continuar crescendo com a Hyundai no Brasil

O grupo brasileiro e a montadora coreana se consolidam entre as quatro maiores marcas do setor e negociam a extensão de uma fórmula que deu certo


Colunas


As benevolências de Temer

Editorial

As benevolências de Temer

Temidas delações de Palocci e de Funaro fazem o mercado financeiro tremer

Moeda forte

Temidas delações de Palocci e de Funaro fazem o mercado financeiro tremer

Paris é uma festa

Sustentabilidade

Paris é uma festa

Piratas, tremei!

Cobiça

Piratas, tremei!

O fim do mistério sobre o “carro” da Apple

Dinheiro & Tecnologia

O fim do mistério sobre o “carro” da Apple


Artigo

Porque a falta de renda e os juros fazem o país patinar

Economia

Economia

Porque a falta de renda e os juros fazem o país patinar

O impacto do dinheiro extra do FGTS no desempenho do varejo sublinha o fato que, no Brasil, ganha-se mal. Sobra pouco para o consumo