Economia

Um recorde sem glórias

O Brasil pode repetir em 2017 o patamar do superávit recorde da balança comercial atingido em 2016. Uma recuperação econômica argentina pode ajudar

Um recorde sem glórias

Tráfego favorável: a Argentina contribuiu com US$ 4,3 bilhões do superávit comercial brasileiro, em 2016, e a sua recuperação econômica  pode continuar ajudando em 2017 (foto: Aurea Cunha / Gazeta do Povo/Folhapress)

O Brasil conquistou em 2016 um recorde que não vai comemorar. O superávit da balança comercial brasileira atingiu US$ 47,7 bilhões. Foi o melhor resultado de toda a série histórica, iniciada em 1989. Mas o marco só foi alcançado graças a um recuo das importações de 20,1%, para uma queda menor das exportações, de 3,5%. Tais números são retratos do desaquecido ambiente econômico brasileiro. Por três anos, a corrente de comércio, a soma de importações e exportações, cai. Os US$ 322,79 bilhões registrados em 2016 representam o pior resultado desde 2009.

Mas, para o governo, não há apenas notícias negativas. “O saldo recorde, em si, já tem um significado muito importante, porque contribui para o estoque de reservas cambiais e ajuda na melhora das contas externas”, diz Abrão Neto, secretário de comércio exterior e serviços do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). “A projeção para 2017 é manter o superávit no mesmo patamar, mas com aumento de exportações e importações.” Neto ainda destaca a aproximação do Mercosul com a União Europeia e o início da negociação com a Efta, formada pela Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein, com a Coreia do Sul e a Índia.

Mas um fator que ajudou nas exportações de manufaturados em 2016, o fortalecimento do dólar que chegou a superar, em fevereiro, a barreira dos R$ 4, não deve ter o mesmo impacto em 2017. A expectativa agora é de estabilidade. “Não deve haver choques cambiais, e trabalhamos com o dólar por volta de R$ 3,40”, diz Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria Integrada. Por outro lado, uma recuperação do PIB global deve ajudar, subindo de 3%, em 2016, para 3,3%, neste ano.

O crescimento de duas economias, em particular, será fundamental para as contas nacionais. As relações comerciais com China e Argentina foram altamente responsáveis pelo superávit de 2016. Com a China foi de US$ 13,6 bilhões, e com a Argentina, US$ 4,3 bilhões. O país vizinho deve sair de sua recessão ao mesmo tempo que o Brasil. “Quando um entra em crise, atrapalha o outro”, diz André Mitidieri, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). “Havia uma demanda reprimida, em especial, de importação de eletrodomésticos.”

A prometida recuperação da economia pelo presidente, Mauricio Macri, para o segundo semestre de 2016, só virá neste ano. As estimativas dão conta de uma queda de 1,8% do PIB, inflação de 40% e desaceleração industrial de 8% em 2016. Os números fizeram uma vítima. Em dezembro de 2016, Macri sacou o ministro da Fazenda e Finanças, Alfonso Prat-Gay. O cargo foi dividido em dois: Luis Caputo assumiu a pasta de Finanças e Nicolás Dujovne, a Fazenda. As previsões para 2017 são de crescimento de 3,5% do PIB e inflação de 17%.