Economia

Os homens da economia

Ao longo de 1.000 edições, a DINHEIRO sempre antecipou e analisou as decisões dos ministros da Fazenda e dos presidentes do Banco Central. Através das páginas da revista, é possível entender a história econômica do Brasil

Os homens da economia

O poder em pauta: na edição de estreia, Pedro Malan em sua primeira capa de revista. Na edição 997, Meirelles é Empreendedor do Ano (foto: Divulgação)

Observe as duas capas ao lado e descubra qual é a semelhança entre a 1ª edição da DINHEIRO, em 1997, e a edição número 997, publicada no fim de 2016. Ambas destacam, em sua principal reportagem, o homem forte da economia brasileira. Há quase duas décadas, a DINHEIRO começou a sua trajetória com um perfil do poderoso ministro da Fazenda, Pedro Malan. Em recente edição, de 21 de dezembro, o atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, foi eleito EMPREENDEDOR DO ANO devido à sua luta para tirar o País do abismo fiscal.

Discreto, Malan ficou no cargo durante os oito anos dos dois mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso. Hábil, Meirelles tem pela frente menos de dois anos para alcançar o crescimento econômico no governo Michel Temer. Nestes dois casos e ao longo de suas 1.000 edições, a DINHEIRO sempre se diferenciou por antecipar as decisões econômicas mais importantes de Brasília e mostrar quais são os impactos para os seus leitores, empresários e investidores. Pelas páginas da revista, semanalmente, a história econômica do País vem sendo contada e analisada. Nos últimos 20 anos, como se viu por aqui, o Brasil saiu do inferno da hiperinflação, foi ao paraíso do crescimento e regressou ao purgatório da recessão.

Em setembro de 1997, quando a DINHEIRO chegou às bancas pela primeira vez, o mundo tentava digerir a crise asiática, que começou na Tailândia e atingiu o sudeste da Ásia e o Japão. Houve fuga de capitais e as moedas dos países se desvalorizaram fortemente frente ao dólar. O pânico financeiro se espalhou pelo mundo e levou o presidente do Banco Central do Brasil (BC), Gustavo Franco, em reunião extraordinária, a elevar a taxa básica de juros de 19% para 45% ao ano. Franco (leia entrevista aqui) era um ferrenho defensor do regime de câmbio fixo para combater a inflação.

O cenário difícil se repetiria no ano seguinte com a crise da Rússia, que decretou a moratória de sua dívida externa e desvalorizou sua moeda, o rublo. “O câmbio fixo, um dos pilares do Plano Real, criou vulnerabilidade externa, facilitando os ataques especulativos ao Brasil durante as crises internacionais da década de 1990”, afirma Manuel Enriquez Garcia, presidente da Ordem dos Economistas do Brasil (OEB). “Esse modelo foi sustentado com taxas de juros muito elevadas.”

Em 1999, após quatro anos de um regime cambial fixo e excessivamente valorizado, o presidente Fernando Henrique Cardoso iniciou seu segundo mandato com uma liberação do câmbio. Franco deixou o BC em 13 de janeiro e foi substituído por Chico Lopes, que criou a denominada banda diagonal endógena, com uma desvalorização inicial de 8,3% do real. A iniciativa fracassou e o câmbio foi liberado dois dias depois, gerando uma megadesvalorização de 64% em apenas 15 dias. Lopes durou poucos dias no cargo e Armínio Fraga assumiu o BC em 2 de fevereiro.

Sua primeira medida foi elevar os juros de 25% para 45% ao ano, para acalmar os mercados. “O grande mérito do Armínio foi criar o sistema de metas de inflação”, diz André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos. “Mas os juros continuaram excessivamente elevados.” Os três anos da dobradinha Malan-Armínio ainda teriam fortes emoções. Em 2000, houve o estouro da bolha especulativa da internet, na bolsa eletrônica Nasdaq. No ano seguinte, o dia 11 de setembro entrou para a história mundial.

O grupo terrorista al-Qaeda sequestrou aviões e promoveu ataques às torres do World Trade Center, em Nova York, e à sede do Pentágono, em Washington, causando uma queda histórica de quase 15% da Bolsa de Nova York, em apenas uma semana. Com medo de paralisar a economia, o Banco Central dos Estados Unidos reduziu os juros e gerou uma bolha de crédito nos anos seguintes. Germinava ali a crise do subprime, que estouraria em 2008. Em 2002, Malan e Armínio tiveram de controlar as reações dos mercados à ascensão de Lula nas pesquisas, apesar de o petista ter divulgado a Carta ao Povo Brasileiro, na qual se comprometia com a responsabilidade fiscal.

A moeda brasileira sofreu uma desvalorização recorde e chegou ao inédito patamar de R$ 4,00 por dólar. No poder, o ex-metalúrgico surpreendeu positivamente ao escalar uma equipe ortodoxa, com Antonio Palocci na Fazenda e Henrique Meirelles no BC. Contrariando a cartilha do PT, foi feito um ajuste fiscal e a taxa básica de juros passou a subir. Ao fim de 2003, o PIB registrou um crescimento modesto, de 1,1%, e a inflação disparou 9,3%. “Malan e Palocci tiveram uma continuidade de política econômica”, diz William Summerhill, brasilianista e professor da Universidade da Califórnia Los Angeles (UCLA).

A partir de 2004, com as contas públicas em ordem, o Brasil passaria a se beneficiar de um crescimento exuberante da China, que elevou os preços das commodities agrícolas e minerais. O PIB encerrou o ano com alta de 5,8% e a inflação foi de 7,6%. No ano seguinte, embora a economia brasileira continuasse a apresentar bons resultados, o noticiário foi marcado pelo escândalo do Mensalão, que derrubaria o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. Meses depois, em 2006, seria a vez de Palocci ser demitido por quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo. Para o seu lugar, foi escalado Guido Mantega.

Neste ponto, os especialistas preferem dividir a era Mantega em duas partes: a primeira no governo Lula foi positiva; a segunda no governo Dilma, trágica. O Brasil seguiu a onda do otimismo mundial e colheu bons PIBs em 2006 e 2007, ano que marcou o pico da euforia internacional. Veio o ano de 2008 e a dupla Mantega-Meirelles teve de reagir à maior crise internacional pós-1929. No dia 15 de setembro, uma inesquecível segunda-feira, o banco de investimentos Lehman Brothers quebrou e expôs ao mundo as operações de crédito imobiliário subprime.

O pânico tomou conta de todas as bolsas de valores e os principais bancos centrais agiram em conjunto para derrubar os juros e injetar liquidez na economia. No Brasil, Mantega reagiu à crise com gastos públicos e estímulo a bens de consumo. Meirelles passou a reduzir os juros apenas em 2009, quando o Brasil foi apontado como o queridinho do mercado. Enquanto as maiores economias do mundo derretiam, o PIB brasileiro ficou praticamente estável. Em 2010, o Brasil obteve um crescimento exuberante de 7,6%, consagrando a política anticíclica.

“Se o Mantega tivesse deixado o governo junto com o Lula naquele momento, teria entrado para a história como o ministro que mais fez o Brasil crescer”, diz o economista Perfeito. “Mas ele resolveu continuar com a Dilma e manteve a política de incentivos num contexto de pleno emprego.” Com crescimento acima do seu potencial, o Brasil passou a conviver com gargalos na infraestrutura logística e no mercado de trabalho. Com a eleição de Dilma Rousseff, o ministro Mantega seguiu na Fazenda com amplos poderes – e cometendo erros. “O período de Mantega no cargo foi longo o suficiente para deixar um forte impacto e causar um retrocesso para um modelo antigo, de baixa produtividade e descontrole fiscal”, afirma Summerhill, da UCLA.

No BC, assumiu o “pombo” Alexandre Tombini, que não conseguiria cumprir o centro da meta de inflação (4,5%) nos cinco anos seguintes. Para piorar, a presidente Dilma reduziu, na marra, os juros básicos da economia para o menor patamar da história (7,25% ao ano) e interveio no setor de energia para derrubar as tarifas, desestabilizando o setor. Os anos seguintes seriam de desaceleração econômica até 2014, quando Dilma se reelegeu. Mantega foi demitido e Joaquim Levy assumiu a Fazenda, em 2015. Sem o apoio da própria base governista, Levy não conseguiu aprovar seu plano de ajuste fiscal no Congresso.

“Levy é um ortodoxo que foi colocado numa fogueira de políticos que não concordam em controlar os gastos públicos”, diz Garcia, da OEB. Em setembro de 2015, o Brasil perdeu o status de bom pagador (grau de investimento) e, meses depois, Levy foi trocado por Nelson Barbosa, que ficou alguns meses na Fazenda, até o impeachment de Dilma. Em maio de 2016, o presidente Michel Temer assumiu a Presidência e nomeou Henrique Meirelles para dar uma guinada na economia e resolver os problemas fiscais dos entes da Federação.

“Está certo o ministro Meirelles em seguir o modelo do final dos anos 1990 e exigir que os Estados vendam seus ativos”, diz a economista Elena Landau. “No governo FHC, houve a reestruturação dos Estados, que precisam de eficiência, o que contribuiu com o ajuste fiscal da época.” Para o comando do BC foi alçado Ilan Goldfajn, que tem a missão de derrubar uma inflação acima de 10%. É a volta da responsabilidade fiscal com inflação na meta. Com reformas estruturais em andamento, a meta para 2017 é reanimar o setor produtivo e preparar o País para crescer de forma sustentada nas próximas duas décadas.

Colaborou: Márcio Kroehn

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