Economia

O futuro do mundo

Nos próximos 20 anos, o planeta assistirá a um desenvolvimento acelerado de áreas como saúde, energia, mobilidade e manufatura. Tendências como biomedicina, energias renováveis e impressão 3D se tornarão o padrão, provocando revoluções na economia e no modo de vida das pessoas. A perspectiva é de um futuro promissor, mas o caminho até ele será cheio de obstáculos

O futuro do mundo

Fazer previsões é uma tarefa desafiadora, especialmente em escala global. Humanamente, é natural imaginar o futuro com base no que aconteceu no passado. “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás”, já dizia o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855). “Mas só pode ser vivida olhando-se para frente.” Essa é a dificuldade do futurólogo: como desvendar o amanhã, sem ficar preso ao passado. O ano de 2016 é especialmente traiçoeiro nesse sentido.

A eleição de Donald Trump, o Brexit, a crise de refugiados e a ascensão da direita em diversas partes do mundo dão uma sensação de regressão a lógicas econômicas e políticas de décadas atrás. A questão é que em áreas como saúde, energia, mobilidade e manufatura o mundo vivenciou avanços importantes, que indicaram tendências irreversíveis em setores como os de energias renováveis, biomedicina e impressão 3D. O choque entre essas duas realidades é o que promete moldar as forças que regem a geopolítica mundial nas próximas duas décadas, transformando o modo como as pessoas vivem e produzem.

Nos próximos 20 anos, o conceito de sustentabilidade deve ganhar um novo sentido. Não se tratará mais de como salvar o meio ambiente, mas sim de como garantir a perenidade dos negócios. Nesse contexto, os ativistas e ambientalistas ganharão o reforço de um grupo com muito mais poder: investidores e empreendedores. “O mercado financeiro já entendeu que o consumo desmedido não é viável”, afirma Linda Murasawa, superintendente executiva de sustentabilidade do banco Santander. “Não haverá mais dinheiro para projetos que não sejam sustentáveis.”

Nas próximas duas décadas, o fluxo do dinheiro deve migrar, por exemplo, das energias sujas, como carvão, para as limpas, como eólica e solar. Algo que, na verdade, já vem acontecendo. Há cinco anos, o mundo viu o surgimento dos primeiros “green bonds”, títulos lançados com o objetivo de financiar iniciativas verdes, como geração limpa, mobilidade, etc. De lá para cá, esse segmento cresceu de pouco mais de US$ 5 bilhões para US$ 150 bilhões, neste ano. A expectativa é de que o volume de investimentos chegue a US$ 1 trilhão, no início da próxima década.

“Em algum ponto, precisaremos alcançar uma economia baseada em energia sustentável, ou vamos ficar sem combustível fóssil para queimar e a civilização entrará em colapso”, afirma o empreendedor Elon Musk, fundador da Tesla, fabricante de carros elétricos. “Já que temos de nos livrar dos combustíveis fósseis de qualquer maneira, o quanto antes chegarmos a esse ponto, melhor.” A mudança da matriz energética trará consequências na geopolítica mundial. Os países nórdicos e a Alemanha, atualmente os mais avançados nesse tipo de tecnologia, devem ganhar importância nessa nova configuração.

Entre os emergentes, China e Índia estão largando na frente, enquanto o Brasil dá sinais confusos. Por um lado, incentivou a criação de indústrias de placas solares e turbinas eólicas por meio de leilões de energia renovável, nos últimos anos. Mas, em dezembro, cancelou de última hora um pleito programado há meses, gerando dúvidas nos investidores. A Rússia, por sua vez, deve seguir apostando no petróleo e na energia nuclear. Já os Estados Unidos, apesar das promessas de Trump de retomar os investimentos na indústria de carvão, têm a seu favor sua imensa força empreendedora.

Musk, por exemplo, está construindo a maior fábrica de baterias do mundo, para abastecer tanto o mercado de carros elétricos, quanto o residencial. Em algum ponto das próximas duas décadas, é muito provável, ainda, que seja decretada a morte do carro a combustão. O petróleo não irá desaparecer totalmente da logística mundial, ao contrário. As movimentações de carga, tanto por via naval, rodoviária ou aérea, ainda vão depender muito dos combustíveis fósseis. Mas, quem nasceu a partir de 2010, e fará a aquisição do seu primeiro automóvel no fim da década de 2020, certamente irá preferir um modelo movido a eletricidade.

Ou sequer terá interesse em adquirir um veículo. Carros autônomos e softwares de compartilhamento devem garantir a demanda por mobilidade nas grandes cidades. O ano passado marcou o ressurgimento de uma antiga força: o operário de classe média. O trabalhador industrial foi, talvez, o grande protagonista nas eleições dos Estados Unidos. Donald Trump surpreendeu o mundo ao vencer a corrida pela Casa Branca com um discurso de retomada desse tipo de emprego. A questão é que, se nas últimas duas décadas o americano viu seu posto de trabalho se mudar para a China e para o México, nos próximos 20 anos, ele perderá o emprego para a automação.

Impressoras 3D e softwares de inteligência artificial devem gerar o corte de mais de cinco milhões de vagas, somente até 2020, segundo um estudo do Fórum Econômico Mundial. No mesmo ano, a consultoria EY estima que 40% dos americanos em idade produtiva estarão trabalhando como fornecedores independentes ou terceirizados. Esse processo já começou. Em janeiro, uma empresa de seguros do Japão, a Fukoku Mutual Life Insurance, substituiu 34 funcionários por um software fornecido pela IBM. O sistema, baseado na plataforma Watson, é capaz de ler e analisar dados médicos para calcular pagamentos. O preço nem é tão alto: cerca de R$ 5 milhões.

LEGIÃO DE INÚTEIS O desenvolvimento da inteligência artificial preocupa diversos pensadores e empresários, entre eles Bill Gates e Stephen Hawking. Mas é o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor do best seller “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, que traça o cenário mais intimidante. Para ele, a evolução dessa tecnologia irá criar uma classe inútil de seres humanos. Harari afirma que a Revolução Industrial apenas eliminou os trabalhos repetitivos e perigosos, deixando intactas as funções que necessitam de capacidade cognitiva. Com a inteligência artificial, isso muda de figura.

Sua previsão é de que bilhões de pessoas serão relegadas a segundo plano. No campo da saúde, ainda segundo Harari, a tecnologia também deverá aumentar a desigualdade. Isso porque as técnicas de engenharia genética e biomedicina vão garantir uma saúde perfeita, a custos muito altos, sendo acessíveis somente a uma pequena parcela da população. O fato é que, hoje, cientistas já são capazes de criar, em laboratórios, alguns órgãos humanos. Em um futuro próximo, será possível usar essas habilidades para fazer upgrades.

“No século 20, o foco da medicina estava em dar a qualquer pessoa um certo nível de saúde e capacidades”, diz o historiador. “No século 21, a medicina está caminhando no sentido de superar o normal, de ajudar as pessoas a viverem mais, aprimorarem a memória e controlarem melhor suas emoções. Trata-se de um projeto elitista.” Paralelamente, a indústria de tecnologia trabalha na criação de gadgets que podem ser usados para ampliar a capacidade cognitiva.

É o caso, por exemplo, dos óculos e relógios inteligentes lançados por Apple e Google. A nanotecnologia poderá criar versões desses dispositivos que podem ser implantadas nas pessoas, criando verdadeiros homens biônicos. Há quem diga que esse tipo de previsão já foi feita no passado. É verdade. Nesse caso, pensadores como Harari estariam fazendo como o menino que anunciava a chegada de um lobo apenas para assustar os moradores de sua aldeia. Nessa mesma fábula, no entanto, chega um dia em que havia, de fato, um lobo. “Acredito que, dessa vez, é verdade”, diz Harari.

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Confira o Especial da Edição nº 1000:

• Os homens da economia
• 20 anos de negócios
• Como o dinheiro mudou de mãos
• O Brasil do futuro