Economia

O Brasil do futuro

As próximas 1.000 edições da DINHEIRO, que contarão as transformações econômicas, políticas e sociais do País, mostrarão também os bastidores da construção do novo Brasil. Prevê-se um crescimento do PIB mais fraco e um agronegócio mais forte. Será?

O Brasil do futuro

Como será o Brasil daqui a duas décadas? O País brilhará entre as grandes economias do planeta ou será apenas um capítulo amargo dos livros acadêmicos, que destaca os maiores fiascos da história recente? Diante das incertezas que pairam sobre a economia e a política brasileira atualmente, que dificultam previsões até mesmo para o próximo semestre, encontrar respostas confiáveis para um período longo pode ser algo tão abstrato quanto um jogo de adivinhação. “O Brasil é tão imprevisível que deveria ser fonte de estudos sobre imprevisibilidades econômicas e sociais”, definiu o sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, um dos maiores especialistas em economias emergentes.

“Quando tudo parece ir bem, começa a ficar mal. E quando tudo vai mal, algo acontece e fica tudo bem.” A constatação de Bauman se baseia tanto no sobe-e-desce da economia nos últimos anos quanto na sua dificuldade em enxergar qual será o destino do Brasil nos próximos 20 anos. Alguns indicadores e estudos, no entanto, já sinalizam os caminhos que o País tomará em setores fundamentais como infraestrutura, energia, políticas econômicas e previdência social. “Mesmo sabendo que teremos um ritmo de crescimento abaixo do registrado no passado recente, podemos afirmar que algumas atividades econômicas, como o agronegócio, ganharão mais importância no contexto mundial”, prevê Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Entre as grandes apostas para o Brasil, o agronegócio é, realmente, uma unanimidade. As previsões do Ministério da Agricultura, que projetam o setor apenas para a próxima década, indicam uma alta de 29,4% na produção de grãos nos próximos dez anos, com 259,7 milhões de toneladas, e com uma expansão de 14,8% na área plantada. Para duas décadas, no atual ritmo de expansão, o potencial de aumento da produção supera 35%. Ou seja, o País se manterá como o maior fornecedor de alimentos do planeta e a atividade no campo será muito mais produtiva do que atualmente.

“Não podemos ignorar o fato de que o Brasil possui 13% da água doce do mundo e 22% das terras cultiváveis do planeta”, afirma o economista Carlos Lourenço, co-autor do estudo Evolução do agronegócio brasileiro, desafios e perspectivas. “Nas próximas duas décadas, o Brasil deverá ser o território com maior expansão de cultivo no mundo.” Mesmo sem haver uma bola de cristal, também é possível imaginar o panorama no setor elétrico brasileiro com uma grande probabilidade de acerto. Entre especialistas, é consenso que a geração de energia por meio do sol e da força dos ventos catalisará a maior fatia dos investimentos.

Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), cerca de 1,2 milhão de geradores de energia solar deverão ser instalados nos telhados de residências e empresas em todo o Brasil, até 2024, representando 15% da matriz energética brasileira. Até 2030, a participação do sol na geração de eletricidade tende a superar 23%, com investimentos superiores a R$ 100 bilhões. Se o potencial do sistema fotovoltaico for somado à capacidade de geração dos parques eólicos, que atualmente suprem 7% da demanda brasileira, pode-se projetar que o País terá, a partir de 2030, uma matriz energética 100% limpa, renovável e segura.

“Estamos caminhando para chegar em 2020 como a segunda fonte de energia do país e somos o setor da economia que mais cresce”, afirma a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum. “Somos o quarto país do mundo que mais investe, o oitavo que mais gera energia eólica e o décimo país em capacidade instalada.” Com energia em abundância, a mobilidade também deve se transformar. Nos passos de países como Suécia e Alemanha, que já planejam a extinção dos motores movidos a combustão, uma parte significativa da frota brasileira será elétrica.

“Não tenho dúvidas de que, entre 15 e 20 anos, nenhum consumidor terá coragem de comprar veículos que queimam petróleo”, diz Jorge Samek, diretor brasileiro da Usina de Itaipu, um dos grandes laboratórios de desenvolvimento de carros elétricos no Brasil. “E não depende se o governo vai querer ou não. Ou a indústria segue para o caminho do carbono zero, ou vai desaparecer.” Profundas transformações nas políticas econômicas e sociais também serão observadas no País pelos próximos 20 anos, segundo o estudo Desafios da Nação, que será lançado em formato de livro, em setembro deste ano, pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea).

Nas previsões do coautor do livro, o pesquisador Marco Antônio Cavalcanti, o Brasil será, daqui a 20 anos, um País muito diferente sob vários aspectos. O ritmo de crescimento médio do PIB, por exemplo, será de 2,11% ao ano, bem abaixo dos números registrado nos últimos dez anos. “O PIB crescerá menos porque haverá menos trabalhadores na ativa”, explica Cavalcanti. “Além disso, a população brasileira deve parar de crescer a partir de 2030, visto que a taxa de natalidade está em queda acentuada.”

Diante dessa constatação, o pesquisador do Ipea enxerga a reforma do sistema de previdência pública o ponto-chave para determinar o sucesso ou fracasso econômico brasileiro nos próximos anos. “O Brasil terá outro perfil econômico e social, em que o bônus demográfico dará lugar ao ônus demográfico”, diz ele, referindo-se ao fato de que a fatia de idosos na população brasileira será maior e haverá mais gente aposentada do que trabalhando. “Por isso, equacionar a Previdência Social será o maior desafio do Brasil nas próximas duas décadas.”

Já no campo da infraestrutura, os estudos em andamento sugerem uma participação minúscula – ou mesmo nula – do Estado em administração de portos, aeroportos e rodovias. “O Brasil está quebrado e não há como imaginar os governos federal, estadual ou municipal colocando dinheiro em áreas que não sejam prioritárias, como saúde, educação e segurança”, diz Cavalcanti. Na avaliação do filósofo Luiz Felipe Pondé, os próximos 20 anos serão um período de grandes adaptações da sociedade brasileira. Ele enxerga o Brasil como um país de “velhos pobres”, diante daquilo que ele classifica como “falência do sistema de previdência social”, e ainda acredita que a esquerda continuará ameaçando os rumos da nação.

“Como a pobreza é o grande capital da esquerda populista, e o Brasil continuará sendo pobre, nosso futuro pode estar em risco”, afirma Pondé. “O Brasil é imprevisível por um lado, mas previsível por outro, porque sempre anda em círculos.” Ele acredita, no entanto, que há chances de se criar um País melhor daqui a duas décadas. “O Brasil ideal é um País em que o Estado seja menor, inclusive suas instituições, como o Ministério Público. O dia que não precisarmos mais de suas presenças em nosso cotidiano, teremos criado uma nação melhor.”

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Confira o Especial da Edição nº 1000:

• Os homens da economia
• 20 anos de negócios
• Como o dinheiro mudou de mãos
• O futuro do mundo