Economia

A caminho do crescimento

Após quatro anos de retração no Brasil, as montadoras começam a fazer planos para uma recuperação a partir de 2017. A falta de crédito e o desemprego, no entanto, ainda preocupam o setor

A caminho do crescimento

No início da tarde do dia 7 de dezembro de 2012, o então presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Cledorvino Belini, ergueu uma taça de champanhe e propôs um brinde de “Feliz 2013” a dezenas de jornalistas reunidos num hotel, em São Paulo. Era o último encontro com a imprensa naquele ano, que entraria para a história como o melhor do setor automotivo – foram vendidos 3,8 milhões de veículos. Naquele momento, o plano ambicioso de atingir 5 milhões de unidades até o fim da década contrastava com os primeiros sinais de desaceleração da economia no governo Dilma Rousseff. “Se o País não crescer vai ser um problema”, afirmou Belini, na ocasião, sem imaginar que o mercado de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus cairia quase pela metade nos quatro anos seguintes. Agora, após esse longo período ladeira abaixo, as montadoras se preparam para uma recuperação a partir de 2017.

O caminho será longo e sinuoso para recuperar uma década perdida. O primeiro obstáculo é o mercado de trabalho. Um estudo feito pela Anfavea, a partir de dados coletados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pelo Ibope, mostra que, no mês de junho (último dado disponível), 80% dos brasileiros empregados estavam “com muito medo” ou “com um pouco de medo” de ser demitidos, o maior patamar desde o início da série histórica, em 1999. Diante do receio de ficar sem trabalho e renda, o consumidor evita contrair novos empréstimos, adiando a compra de um carro. “Dois terços do mercado são compostos por carros mais baratos, de até 1.600 cilindradas”, diz o consultor Orlando Merluzzi, da MA8 Management Consulting Group. “É justamente esse público que mais precisa de financiamento.” Para piorar o cenário, os bancos aumentaram o rigor na concessão de crédito sob o argumento de que a alta do desemprego eleva o risco da inadimplência. Não por coincidência, a participação do crédito nas vendas de veículos caiu do patamar tradicional de 65% para apenas 53% em julho. “Estamos conversando com os bancos, que precisam ser mais tolerantes ao risco”, diz Antonio Megale, atual presidente da Anfavea.

A boa notícia é que desde janeiro, quando o tombo nas vendas foi de 39% em relação ao mesmo período do ano anterior, o setor vem gradativamente recuperando terreno. Se tudo ocorrer conforme o previsto pela entidade, a queda neste ano será de 19%. Diante de um mercado retraído e de estoques abarrotados (representavam 55 dias de vendas em outubro de 2015 ante os atuais 37 dias), as montadoras reduziram estrategicamente o ritmo de produção. Isso, de alguma forma, amenizou a pressão sobre as concessionárias, que armazenam 70% dos carros já fabricados. “Terminou a hemorragia”, afirma Alarico Assumpção, presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). “As concessionárias sofreram muito nos últimos anos, pois 60% do faturamento decorrem da venda de veículo zero quilômetro.” Os outros 40% são divididos entre carros usados (15%) e pós-venda (25%). O efeito colateral da freada do setor foi a demissão de quase seis mil trabalhadores nas fábricas desde o pico dos estoques, em outubro. O quadro só não é pior porque as montadoras mantêm 26 mil funcionários em regime de lay-off  (suspensão temporária do contrato de trabalho) ou no Programa de Proteção ao Emprego (PPE), que prevê redução parcial de jornada e salário.

A premissa básica para a recuperação da indústria automotiva em 2017 é a concretização do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff. Na semana passada, o Senado Federal aprovou a penúltima etapa, tornando-a ré. A votação final deverá ocorrer no fim de agosto (leia 
reportagem na pág. 22). A melhora no clima político vem elevando os índices de confiança de empresários e consumidores, asfaltando o terreno para um crescimento de 2% no Produto Interno Bruto (PIB) no ano que vem, segundo a consultoria MB Associados. “O setor de papelão ondulado, que é um termômetro da economia, já dá sinais de recuperação”, diz Tereza Fernandez, diretora da MB. “Há também uma desaceleração no número de falências de empresas.”

Nada disso será suficiente, entretanto, se o governo Michel Temer não conseguir aprovar o ajuste fiscal no Congresso Nacional, incluindo temas polêmicos como a reforma da Previdência Social. Por conta disso, os executivos das montadoras acompanham atentamente o desenrolar de tudo o que acontece em Brasília, municiando diariamente suas matrizes com informações. “O grande problema, hoje, do Brasil, vem da incerteza política e econômica, pois ninguém ainda sabe quem vai dirigir o País nem quais serão as decisões econômicas”, diz Carlos Ghosn, o executivo brasileiro que preside a operação global da Nissan. “Se pelo menos você colocar o grande gorila, que é a incerteza, fora do quarto, mesmo que ainda existam coisas para acertar, vai ajudar muito a recuperação.”

O Brasil é um mercado estratégico para a maioria das montadoras. No auge da euforia, em 2012, era o quarto maior consumidor de carros do mundo, atrás somente de China, Estados Unidos e Japão. Agora, diante da crise, caiu para a décima colocação (leia quadro acima). Ainda assim, o País acumulará R$ 85 bilhões em investimentos no setor entre 2012 e 2018, e nenhuma empresa quer perder dinheiro nem desperdiçar oportunidades. “O mercado não ficará em baixa para sempre”, afirma Koji Kondo, presidente da Toyota no Brasil. “Por isso, nos últimos dois anos, investimos na nossa área de engenharia, que hoje conta com 150 profissionais, e criamos um centro de design no País. O objetivo é fazer carros cada vez mais brasileiros.”

Outra aposta do setor é a exportação, que já acumula expansão de 20% em volume neste ano. A principal ajuda externa pode vir da Argentina, que ainda é o principal cliente, com participação de 66% nas vendas de veículos do Brasil ao exterior. Os dois países renovaram, em junho, o acordo automotivo até 2020. Se o presidente Mauricio Macri conseguir recolocar a economia nos trilhos, haverá uma tendência natural de crescimento das exportações brasileiras para o país vizinho. Além disso, a alta do dólar e o fechamento de acordos comerciais com Uruguai, México, Colômbia e Peru contribuem com o resultado. “É fundamental que o dólar não fique abaixo de R$ 3,50, patamar que dá competitividade ao produto brasileiro”, diz Milad Kalume Neto, gerente de desenvolvimento de negócios da consultoria Jato Dynamics. Na semana passada, a moeda americana se aproximou dos R$ 3,10, para alegria dos importadores. “Acredito que a economia começará a se recuperar a partir de agora e esses indicadores de dólar em queda e perspectiva de troca de governo nos criam um horizonte de mais otimismo”, diz José Luiz Gandini, presidente da Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa) e da Kia Motors do Brasil.

Dentro da indústria automotiva, há um segmento em que tudo está mais difícil. Com ociosidade superior a 70% ante a média de 50% do setor, as fabricantes de caminhões viram os seus resultados sucumbir à retração de 7% do PIB estimada para o biênio 2015-2016. “Sem PIB não há venda de caminhões”, diz Marco Antonio Saltini, vice-presidente da Anfavea e executivo da MAN Latin America. “Aguardamos a definição política para tirar a economia do compasso de espera.” Após décadas de serviços prestados a diversas montadoras, o consultor Merluzzi prefere avaliar com cautela a recuperação do segmento de caminhões, que atingiu o pico de 173 mil unidades vendidas em 2011. Atualmente, comercializa-se menos de um terço deste montante. “Como havia financiamento do BNDES com juros reais negativos, muita gente comprou caminhões como investimento”, diz Merluzzi. “Agora temos uma enorme frota ociosa que tem servido até para armazenar grãos.”

Empresários e consultores concordam que a virada de jogo da indústria automotiva dependerá principalmente da disposição dos brasileiros em voltar a consumir. Há a convicção de que o desejo do brasileiro de trocar de carro nunca desapareceu, apenas está temporariamente reprimido. Uma prova disso é que as vendas do segmento de seminovos, com até três anos de uso, estão crescendo 22% neste ano, em relação ao mesmo período de 2015. “As pessoas deixaram de comprar o carro zero e foram para os usados porque o valor cabe no bolso”, diz Milad, da Jato. As montadoras apostam que, se o mundo político não atrapalhar a economia, a renda das famílias voltará a crescer e, por tabela, a procura por carros novos.

ENTREVISTA

“Os bancos precisam ser mais tolerantes ao risco”
Antonio Megale, presidente da Anfavea

O desempenho do mercado automotivo já melhorou?
Estamos num período de estabilização com viés positivo. Nós superamos em julho, pela primeira vez neste ano, a marca mensal de 180 mil carros vendidos. Quem sabe em agosto não tenhamos uma surpresa positiva.

Quais fatores determinarão o ritmo de retomada do setor em 2017?
O primeiro fator é a estabilidade política. Passado o impeachment, haverá uma certa tranquilidade no País. O segundo fator é a efetividade das medidas econômicas. O governo terá de avançar nas reformas no Congresso para que o investidor tenha a visão de que a situação estará sob controle no longo prazo. Isso melhora o humor do investidor e reduz o risco país.

O investidor estrangeiro quer investir no Brasil?
Há muita liquidez no mundo e esse capital está esperando para entrar aqui. É importante também a retomada dos investimentos em infraestrutura. À medida em que tudo isso acontece, os trabalhadores começam a ter menos medo de perder o emprego e, consequentemente, voltam a consumir.

Mas os economistas projetam uma piora do desemprego até meados de 2017…
O desemprego pode diminuir a velocidade da recuperação do mercado, que será mais intensa no segundo semestre do ano que vem.

Falta crédito ao consumidor?
Sim, a participação do crédito nas vendas está em apenas 53,2% ante um patamar tradicional de 60% a 65%. Estamos conversando com os bancos, que precisam ser mais tolerantes ao risco.

Qual é a expectativa em relação à queda dos juros pelo Banco Central?
A nova equipe do Banco Central é competente e unida. O foco deles é muito claro: a inflação. Assim que a inflação convergir para o centro da meta, haverá espaço para reduzir os juros. Na nossa visão, a manutenção dos juros altos agora permite uma redução mais acelerada no futuro. É melhor do que reduzi-los gradualmente.

Devido à forte queda na produção, os estoques caíram de 55 dias de vendas em outubro de 2015 para 37 dias. Qual é o patamar ideal?
O ideal é ter um volume de veículos equivalente a 30 dias de vendas. Se atingirem esse patamar, as fábricas têm de produzir para não perder vendas.