Economia

O dono da pauta econômica

Em mandato tampão, Rodrigo Maia (DEM-RJ), eleito presidente da Câmara, terá o desafio de comandar votações do ajuste do governo Temer. Conseguirá?

O dono da pauta econômica

Discurso afinado: Na posse, Maia (centro) indicou a economia como tema prioritário e reforçou a necessidade de avanço em temas impopulares (foto: Jorge William /Agência O Globo)

Numa rara madrugada de sessão no Congresso, um grupo de deputados se empolgou num coro “Fora Cunha” semelhante ao que podia ser ouvido em protestos de rua meses antes. O grito que ecoava no plenário nas primeiras horas da quinta-feira 14, porém, era mais do que uma simples manifestação contra o peemedebista. Representava a comemoração pelo fim da turbulenta “Era Cunha”. A eleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) para a presidência da Câmara escancarou a perda de influência do ex-comandante da Casa e deu início à formação de um novo desenho das forças de poder do País.

Desde as eleições presidenciais de 2014, movimentos de Brasília são acompanhados de perto por analistas econômicos e desta vez não foi diferente. Afinal, a retomada da atividade passa pelo Legislativo, por onde transitarão as medidas de ajuste capazes de resgatar de vez a confiança de investidores e empresários. Formado em economia e filho do ex-prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, o parlamentar começou na política aos 26 anos como secretário da capital fluminense. Aos 46 anos, está em seu quinto período na Câmara.

Ele assume um mandato tampão, com duração de pouco mais de sete meses e será peça-chave para a costura política em torno das reformas. A prioridade é aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que cria um limite para os gastos públicos. Não se trata de uma batalha simples, pois requer maioria qualificada (3/5), com votação em dois turnos, na Câmara e no Senado. Pela Casa, também deve tramitar a reforma da Previdência. No discurso de posse, Maia indicou que priorizará os projetos econômicos, como a renegociação da dívida dos Estados, e reforçou a necessidade de avançar sobre temas impopulares.

“Os deputados não estão aqui só para aumentar despesas e serem aplaudidos.” O discurso afinado com o Planalto veio com uma ressalva: “Tem pautas do governo, mas também tem demandas da sociedade.” Maia não era o favorito do Planalto. As articulações iniciais do governo pendiam mais para Rogério Rosso (PSD-DF), visto como um representante da turma de Eduardo Cunha. Num processo de votação embaralhado, com 14 candidatos, o PT tentou esvaziar os candidatos alinhados a Temer apoiando um dissidente do PMDB, Marcelo Castro, ex-ministro de Dilma.

Quando a disputa em segundo turno ficou entre Rosso e Maia, parte da esquerda se juntou ao PSDB em torno do deputado do DEM, em retaliação ao candidato de Cunha, como Rosso ficou identificado. Maia venceu por 258 votos, contra 170 do adversário. O pleito permite algumas leituras sobre a relação entre o Executivo e o Legislativo. Primeiro: foi uma derrota de Cunha e do “centrão” – grupo de cerca de 200 deputados de partidos com menor expressão e sobre o qual ele exercia influencia. Não é possível saber a reação desses parlamentares, se ficarão fragmentados apenas ou se haverá retaliação.

Segundo: o grande número de candidatos mostra o desafio que Temer enfrentará com dissidências e deputados em busca de barganhas. No pleito de 2015, foram quatro pretendentes. Terceiro: como representante da direita tradicional, Maia tem se identifica com a pauta liberal do governo, mas não há garantia de fidelidade como poderia se dar com Rosso. “Há um receio do Planalto de que, em alguns temas pontuais, ele possa ser uma pedra no sapato”, diz o cientista político e professor da PUC-SP, Pedro Arruda. Foi na eleição que elegeu Cunha, no ano passado, que o desgaste do governo Dilma com o Congresso começou a se acentuar desenfreadamente, até culminar no impeachment.

O peemedebista está mais próximo de ser cassado, após a rejeição de novo recurso da defesa, na quinta-feira 14 – a decisão final será votada em plenário após o recesso. Sua habilidade em usar o cargo para tumultuar a relação com o Executivo, em episódios como a pauta-bomba e o impeachment, deixa uma lição. A prerrogativa do presidente da Câmara em decidir a pauta e coordenar as reuniões com as lideranças tem um custo alto demais para ser ignorada. Temer, que comandou a Casa por três vezes, sabe disso e tratou de receber Maia com rapidez. “Teremos uma harmonia muito maior, que será útil ao Executivo”, afirmou Temer.