Economia

O plano mascarado de Lula

Três semanas após o PT divulgar um plano econômico populista e irresponsável, Dilma nomeia Lula para a Casa Civil. Em vez de salvar, ele pode quebrar o Brasil

O plano mascarado de Lula

DESVENDANDO O SUPER-MINISTRO: se vencer a batalha jurídica, Lula vai despachar no quarto andar do Palácio do Planalto (foto: Ilustração: Evandro Rodrigues)

Não há nada mais indigesto para empresários e investidores do que um prato recheado de incógnitas. Ao cardápio brasileiro de incertezas, acaba de ser incorporado o “risco Lula”, que reflete as dúvidas sobre os rumos que o ex-presidente da República dará ao País a partir da Casa Civil, se tiver a posse confirmada pela Justiça. Para a maioria dos analistas, a chegada do cacique petista ao Palácio do Planalto sepultou o segundo mandato de Dilma Rousseff e deu o início ao terceiro governo de Lula. Com amplos poderes, o super-ministro dará as cartas na política e na economia, que pode sofrer uma perigosa guinada à esquerda. Se seguir à risca a cartilha irresponsável do PT, como pretende, Lula jogará o País num profundo lamaçal, dobrando a aposta no fracasso dos últimos anos do governo Dilma. Diante do agravamento da crise política e da estratégia de “tudo ou nada” adotada pelos líderes petistas, são remotas as chances de Lula abraçar o bom senso e repetir a política econômica prudente do seu primeiro mandato, quando seguiu os princípios de responsabilidade da Carta aos Brasileiros e nomeou o conservador Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central. Sem o apoio popular e empresarial daqueles tempos e agarrando-se à militância petista para se manter no poder, o ex-presidente não tem hoje condições de vestir a máscara de “Lulinha paz e amor”, nem de comandar as reformas de que o Brasil precisa. Se insistir na saída populista, com incentivos ao consumo irresponsável e à produção subsidiada artificialmente, Lula e o PT podem agravar ainda mais a pior recessão da história do País, medida por uma queda estimada de 8% do PIB no biênio 2015-2016.

Acuado pelas investigações da operação Lava Jato e pela divulgação de grampos telefônicos, o ex-presidente Lula terá como prioridade imediata a defesa do governo no processo de impeachment de Dilma no Congresso. O líder petista seria o último coelho da cartola da presidente para conquistar o apoio político, incluindo do PMDB, que está desembarcando do governo. Porém, as chances de aprovação do impeachment cresceram para 70%. Para Lula, gerar boas notícias na economia pode ser a melhor estratégia para ganhar popularidade – e é aí que mora o perigo. “O problema é que ninguém faz milagres da noite para o dia”, afirma o professor da USP Gaudêncio Torquato, presidente da GT Marketing e Comunicação. “O Lula que está inaugurando o seu terceiro mandato vai forçar a barra para mexer na equipe econômica.”

Ao longo dos dias que antecederam a nomeação de Lula, houve muitas especulações de que o super-ministro teria autonomia total para trocar a cúpula econômica. A cadeira de Alexandre Tombini, presidente do Banco Central (BC), estaria apenas à espera de um substituto. “Seria indesejável qualquer interrupção no plano de voo do BC atualmente”, diz Octavio de Barros, economista-chefe do Bradesco. Para o lugar de Tombini, foi aventado o nome de Henrique Meirelles, que comandou o BC nos oitos anos do governo Lula. Presidente da J&F Investimentos, Meirelles já descartou essa possibilidade. Por ora, o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, permanece no cargo, mas terá de desistir da sua principal bandeira, a reforma da previdência. Nem o ministro Nelson Barbosa nem o presidente do BC Tombini vão sair do governo, afirmou Dilma, na quarta-feira 16. “Pelo contrário, eles estão mais dentro do que nunca.” No dia seguinte, apenas Barbosa compareceu à cerimônia de posse de Lula, no Palácio do Planalto, o que fomentou mais especulações sobre o futuro de Tombini.

Embora a presidente Dilma tenha garantido que não haverá mudanças na política econômica, os investidores aguardam desconfiados os primeiros dias do super-ministro. Afinal, Dilma tem no seu currículo o estelionato eleitoral. Tudo o que falou na eleição, em 2014, não era verdade. Se vencer a batalha jurídica, o ex-presidente vai despachar no quarto andar do Palácio do Planalto, um andar acima do gabinete presidencial. “As falas do Lula serão mais ouvidas que as da Dilma”, diz um experiente operador de mercado. O “risco-Lula” pode aumentar se ele desengavetar a cartilha do PT, divulgada no fim do mês passado, em comemoração ao aniversário de 36 anos do partido. Na ocasião, Lula foi o personagem principal da festa e cortou o bolo ao lado do presidente da sigla, Rui Falcão.

Intitulado “Programa Nacional de Emergência”, o documento elenca 22 medidas para recolocar o País nos trilhos do crescimento, mas que, na prática, repetem os erros do passado (leia quadro abaixo). A principal delas é reduzir os juros, na marra, para estimular o consumo. “Restaurar o crescimento econômico via crédito é bobagem”, diz Manuel Enriquez Garcia, presidente da Ordem dos Economistas do Brasil (OEB). “O problema da economia é a falta de confiança no governo.” Se forçar a mão, como Dilma fez em seu primeiro mandato, Lula pode causar imensos prejuízos ao Banco do Brasil e à Caixa. Outra proposta absurda envolve a venda de parte das reservas internacionais, de US$ 357 bilhões, para focar em obras de infraestrutura. Dilma negou que vá fazer isso, mas quem acredita nela atualmente? “Se o governo vender US$ 100 bilhões e transformar em reais, a cotação cai para R$ 2,00 e mata a indústria mais uma vez”, alerta o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto.

Eufórico com as novidades no Palácio do Planalto, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, ressaltou que o ex-presidente não pode ser “apenas mais um ministro”. “A presença do presidente Lula vai mudar radicalmente e dar uma guinada à esquerda no governo”, disse Freitas, relegando ao segundo plano o ajuste fiscal. “A reforma da previdência é a pauta mais tresloucada que o governo Dilma poderia ter trazido nesse momento, com o governo tendo baixíssima credibilidade e sendo atacado por todos os lados.” Tais declarações causam calafrios no mercado financeiro. As centrais sindicais também vão pressionar o super-ministro a autorizar um reajuste de 20% nos pagamentos do Bolsa Família, o que favoreceria 14 milhões de famílias, num total de 50 milhões de pessoas. Para contornar a falta de recursos, já que os cofres públicos estão no vermelho desde 2014, o PT defende a recriação da famigerada CPMF, hipótese rechaçada pelos empresários.

Ninguém espera que Lula deixe de lado o plano mascarado do PT para a economia, mas ele pode evitar o pior, se quiser. Para consolidar sua fama histórica de conciliador, o ex-presidente teria de convencer sua base de apoio da necessidade de dar um choque de otimismo nos mercados. Enquanto aguarda o desfecho do processo de impeachment no Congresso Nacional, previsto para maio, e as investigações da Lava Jato, que podem levá-lo à cadeia, o ex-metalúrgico sabe que não há margem para milagres, como a redução do tsunami econômico global de 2008 a uma “marolinha”.  Milagre seria se ele aderisse às propostas do maior aliado do PT até hoje, o PMDB. Uma boa sugestão de leitura para o super-ministro é o documento de 19 páginas intitulado “Uma ponte para o futuro”, divulgado em novembro do ano passado. Com a liderança do vice-presidente da República, Michel Temer, e a chancela da Fundação Ulisses Guimarães, o documento propõe “atacar o desequilibro fiscal”, o oposto do que pensam os petistas. O PMDB defende a adoção de idade mínima para aposentadoria e estabelecer limites às despesas de custeio em relação ao crescimento do PIB. A cartilha de Temer prega o protagonismo da iniciativa privada na economia e a implementação de governança corporativa nas estatais.

Desde a sua posse, na quinta-feira 17, Lula  não deu declarações sobre a economia, dando margem a especulações. Sabe-se, entretanto, que uma de suas missões é destravar as concessões de portos, aeroportos, rodovias e ferrovias. O governo Dilma vem adiando sistematicamente esses leilões diante da evidente falta de apetite dos investidores, que anseiam por regras mais claras e uma participação maior do BNDES nas grandes obras. Imaginar que existe espaço fiscal para o Tesouro Nacional turbinar o BNDES, como ocorreu no primeiro mandato de Dilma, é pura utopia. “Não tenho nenhuma expectativa de que o Lula consiga construir uma agenda mínima razoável”, diz Clemens Nunes, professor de Economia da FGV. A máscara, como se sabe, já caiu.

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“O programa do PT é produto do pensamento mágico”

O ex-ministro da Fazenda Antonio Delfim Netto diz que ou o governo da presidente Dilma Rousseff assume o seu protagonismo ou deve ir embora:

O plano econômico do PT e o programa do ministro Barbosa, são bem divergentes. Com qual o governo deve ficar?
A decisão certa é dar apoio ao programa do Nelson Barbosa, que sabe que precisa fazer, simultaneamente, as reformas estruturais e controlar as despesas. O programa do PT é produto do pensamento mágico. Aquele pensamento que acha que dois mais dois, se você ajoelhar e for politicamente forte, vira seis.

O PT defende a utilização de reservas internacionais para obras…
É um absurdo. Se o governo vender US$ 100 bilhões e transformar em reais, a cotação cai para R$ 2,00 e mata a indústria mais uma vez. Além disso, os reais que poderiam ir para o consumo iriam para a compra dos dólares, derrubando ainda mais o PIB.

O PT também defende a queda imediata dos juros. Há espaço?
O crédito não existe porque não há demanda dos consumidores. Então, você pode levar o burro até a fonte de água, mas se ele não tiver com sede, ele não vai beber. É sonho.

Mas dá para reduzir os juros?
Não pode reduzir os juros arbitrariamente. Nós já cometemos esse erro em 2012.

Como o sr. avalia a Lava Jato?
É um ponto de inflexão na História do Brasil.

O atual governo acabou?
Nós temos um presidencialismo de coalizão que nem ‘presidencializa’ nem ‘coaliza’. Ou o governo assume o seu protagonismo ou vai embora. Nós não temos competência para impedir o Brasil de crescer.

O setor produtivo diz basta
O dinheiro fala
O Brasil pós – Dilma