Economia

O dinheiro fala

Animados com o enfraquecimento político da presidente Dilma Rousseff, investidores internacionais trazem capital ao mercado, derrubando o dólar e turbinando as ações

O dinheiro fala

Ajuste do dólar Casa de câmbio no Rio de Janeiro, na manhã da quinta-feira 17: entrada de recursos externos devido à crise derrubou cotações (foto: Foto: divulgação)

Contra o fluxo de dinheiro não há argumentos. A turbulência política que se agravou durante a semana movimentou o mercado. Além do impacto natural das notícias, a perspectiva de enfraquecimento do governo atraiu bilhões em investimentos estrangeiros. Em março, até a terça-feira 15, o saldo de aplicações vindas de fora do País foi de R$ 5,97 bilhões, maior volume desde abril do ano passado. Na primeira quinzena do mês, os estrangeiros compraram R$ 65,5 bilhões em ações e venderam R$ 59,6 bilhões. “Em duas semanas eles trouxeram o triplo do que aplicaram no primeiro bimestre, quando entraram pouco mais de R$ 2 bilhões no País”, afirma Pablo Spyer, diretor da gestora coreana Mirae Asset Securities. “O fluxo de dólares fez ações como Petrobras dobrarem de valor.”

O interesse tem duas causas. Uma é aritmética. Com o dólar ao redor de R$ 3,62 na manhã da sexta-feira 18, as ações brasileiras estão baratas. Basta US$ 1 para colocar uma ação da siderúrgica Gerdau na carteira. A segunda está nas ruas. A política entrou de vez na equação que mede risco e retorno. As muitas notícias ruins para Dilma Rousseff permitem elevar as apostas em uma troca de comando em Brasília, o que aguça o apetite do mercado.

Um bom exemplo foi o movimento da quinta-feira 17, data da posse do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva como ministro-chefe da Casa Civil. O  cenário estava tumultuado pelo vazamento das ligações telefônicas na quarta-feira 16. Só isso já fazia prever um dia atípico. Tanto que, três horas antes da posse de Lula, Edemir Pinto, presidente da BM&FBovespa, cancelou os compromissos do dia, para acompanhar o pregão. Ninguém poderia prever, porém. que a posse seria travada por uma liminar e que mais de 20 decisões judiciais semelhantes se seguiriam. Até o meio-dia da sexta-feira 18, a decisão permanecia em suspenso. Mesmo assim, R$ 12,87 bilhões foram negociados, em um único dia, na quinta-feira  17, o dobro da média diária de fevereiro. O índice subiu 6,6% para 50.913 pontos, maior alta diária desde janeiro de 2009, e atingiu o maior nível desde julho de 2015. Ao fim da manhã da sexta-feira, o índice recuava 0,8%. Procurada, a BM&FBovespa não comentou.

Para os especialistas, o dinheiro que entrou veio de brasileiros que investem no Exterior. Os investidores internacionais não retornaram. “Eles ainda estão preocupados com a crise política e seus efeitos ruins sobre a economia, como a perda do grau de investimento, o crescimento baixo e o desequilíbrio das contas públicas”, diz Miguel de Oliveira, diretor executivo de pesquisas econômicas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac). Segundo Oliveira, os estrangeiros temem a influência de Lula sobre a formulação de políticas pela Fazenda e pelo Banco Central (leia reportagem na página 30). “Se houver um impeachment,esse cenário muda”, diz ele.

Além de uma solução política, o que os estrangeiros realmente querem ver são sinais de que a economia brasileira voltou a crescer, avalia o carioca Marco Maciel, economista para Brasil e América Latina da Bloomberg Intelligence, centro de pesquisas da empresa de notícias e cotações. Maciel avalia que há um lado positivo na conjuntura atual. Para ele, as altas provocadas pelas notícias mostram que a base institucional brasileira é mais forte que as de seus concorrentes no mercado internacional. “Está havendo uma normalização do Brasil, o Judiciário está se sobrepondo ao sistema político e está punindo os malfeitos”, diz ele. “Isso indica uma situação institucional melhor que a da Rússia ou mesmo que a da China, por exemplo.” O que falta para trazer os estrangeiros de volta, diz ele, são indicações convincentes de que o Brasil superou a recessão e os resultados das empresas vão melhorar. “Isso vai destravar a volta do dinheiro ao mercado local”, diz ele.

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