Economia

O Brasil pós-Dilma

Com probabilidade de 70% de ocorrer um impeachment, economistas traçam cenário mais otimista para a atividade em 2017

O Brasil pós-Dilma

Um olhar adiante:analistas tentam antecipar efeitos de um eventual governo Temer para a economia (foto: Foto: Alan Marques (Folhapress))

Num relatório enviado a clientes na quinta-feira 17, analistas da consultoria Rosenberg Associados mergulharam na ficção para descrever a turbulência que tomou o país: “House of Cards brasileiro”, dizia o título da análise. A série americana retrata a vida de Frank Underwood, um congressista traído pelo presidente que ele ajudou a eleger e detalha as estratégias do parlamentar para minar adversários e tomar o principal posto eletivo do país. O paralelo entre televisão e realidade tornou-se frequente entre internautas brasileiros diante das cartadas recentes da oposição e do governo na disputa pelo Planalto.

Nas previsões do relatório, a Rosenberg menciona os grampos da Polícia Federal no telefone do ex-presidente Lula para justificar a elevação, de 45% para 85%, das chances de uma saída antecipada de Dilma Rousseff. O tom despojado do texto encampa informações preciosas aos clientes da consultoria. Sem Dilma, a economia muda. Arrefece o temor de guinadas populistas e retoma-se a discussão de medidas estruturais. A confiança melhora e leva a uma retomada  do PIB de 1% em 2017, e não uma nova retração de 0,5%, como no cenário traçado com a atual presidente.

Consultorias econômicas tentam antecipar a mudança de tendência para nortear as decisões de seus clientes, mas são reféns da velocidade dos fatos. Na última semana, várias das casas de análise que trabalham com probabilidades de impeachment atualizaram seus números incorporando interpretações sobre as manifestações do domingo 13, o episódio dos grampos revelados pelo juiz Sérgio Moro e o ingresso de Lula no governo. Na média dos cálculos de oito analistas consultados pela DINHEIRO, o placar passou para 70% de chance de impeachment .

Como o cenário mais provável é o de um novo governo, o mais importante é saber como será a nova composição política. Se consagrado o impeachment, assume o vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP), que deve se nortear pelo recente programa econômico elaborado pelo partido. 

A “Ponte para o futuro”, como foi intitulado, contém diretrizes liberais para dar maior participação à iniciativa privada, melhorar a estrutura do orçamento público, adotar idade mínima da previdência, entre outros. Para que isso aconteça, será preciso construir apoio relevante no Congresso e há dúvidas, entre os analistas, se o novo governo será capaz de reunir quórum necessário. No início, o próprio processo de impeachment deve ajudar, trazendo a oposição para o mesmo lado. “À medida que for chegando 2018, essa aglutinação em torno do Temer ficará mais difícil de se manter”, afirma Ricardo Ribeiro, da MCM Consultores.

Num cenário em que o vice-presidente consegue reunir apoio no Legislativo para aprovar reformas, haveria um efeito positivo para a economia. Nas previsões da Tendências Consultorias, o PIB poderia crescer 2% em 2017. “Estamos falando principalmente de reformas da Previdência, trabalhista, e de promover a abertura comercial”, afirma Alessandra Ribeiro, economista da consultoria. Para ela, porém, o mais provável é que o atual vice continue a enfrentar resistências políticas, obtendo um desempenho mais tímido, com um PIB de 1,2% no ano que vem, beneficiado por uma melhora da confiança gerada pela troca de governo. No emaranhado de cenários econômicos, a política é quem dá hoje as cartas, num vaivém esquizofrênico que mimetiza as tramóias do seriado americano. Como a brincadeira que circulou entre os fãs do House of Cards nos últimos dias: um estágio dos roteiristas no Brasil seria fonte inesgotável de inspiração para os próximos episódios.

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