Macri rouba a cena

Com medidas pragmáticas, novo presidente conquista confiança de empresários e investidores, e se destaca entre lideranças regionais

15/01/2016 20:00

  • // Por: Gabriel Baldocchi

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Para o filho de um magnata industrial, ex-chefe de empresas e de um grande time de futebol, nada mais natural do que recorrer ao mundo corporativo para preencher as vagas de gestores que têm disponíveis. Maurício Macri, recém-empossado presidente da Argentina, escalou um ex-executivo do banco JP Morgan para o Ministério da Economia, um ex-presidente da Shell para a Energia, um executivo com passagem pelo Deutsche Bank para a pasta de Finanças e uma funcionária da IBM para a Chancelaria.

No comando da Casa Rosada, Macri é visto como um grande aliado da iniciativa privada que terá a tarefa de reavaliar as medidas populistas que conturbaram o ambiente de negócios do país nos últimos anos. Sua maior aposta é abrir espaço para uma onda de investimentos privados, que possam reconduzir a economia ao crescimento ao mesmo tempo em que se acertam os desajustes do passado. Em pouco mais de um mês no poder, seu ritmo veloz de decisões deflagrou uma espiral de confiança inédita entre países da América do Sul e o colocou numa posição de destaque na região, construindo um papel de protagonista.

Engenheiro de formação e homem de negócios por criação, Macri entrou para a política por meio do futebol, após comandar uma gestão vitoriosa no Boca Juniors, onde conquistou 17 títulos. O cargo serviu de vitrine para se eleger deputado, posição que deixou para assumir a administração da cidade de Buenos Aires. Em dois mandatos como prefeito, o empresário adquiriu credibilidade e experiência para buscar a Presidência, em 2015. Venceu com uma margem apertada de votos e graças ao apoio de parte dos insatisfeitos com a decadência do kirchneirismo.

Apesar da sua trajetória pública, Macri não é considerado um político tradicional. Seu perfil sempre esteve muito mais associado ao universo privado, um alento para investidores e empresários acostumados com as duras quedas de braço com o governo de Cristina Kirchner. Mais do que sua biografia, o que tem contribuído para nutrir a onda de otimismo em relação à Argentina é a perspectiva de uma postura mais pragmática na economia, menos sujeita a ideologias e decisões discricionárias.

Macri simboliza, na prática, o reconhecimento de que, num cenário de baixa de preços de commodities, reduziu-se o espaço para experimentos econômicos e ampliou-se a importância do apoio privado. “O modelo econômico está voltando à normalidade”, afirma o ex-secretário de Indústria Dante Sica, diretor da consultoria Abeceb. “É importante notar que ele quer marcar a diferença na região num momento em que a conjuntura mudou.”

Três mudanças centrais foram anunciadas nas primeiras semanas da nova gestão: o fim das barreiras para importação e exportação, a liberação do câmbio (o dólar saltou 38%, de nove para 13 pesos) e a retomada das negociações com os credores da dívida. Há ainda desafios importantes pela frente, como a redução do déficit fiscal, o retorno ao mercado financeiro internacional e a elevadíssima inflação.

De qualquer forma, a velocidade das decisões surpreendeu os investidores e alimentou esperança de dias melhores. A previsão é que os primeiros sinais de avanço na atividade possam ser observados no quarto trimestre. No ano, porém, a previsão ainda é de uma queda de 0,5% do PIB, menor, portanto, do que a brasileira, cuja previsão é de recuo de 3%. Por conta da perspectiva de saída da crise e do otimismo reinante, a Argentina passou a ser considerada uma antítese do Brasil atual.

“Eles estão vivendo exatamente o contrário”, afirma Christophe Malik Akli, presidente da fabricante brasileira de cobre Paranapanema, que tem os vizinhos como segundo maior mercado. “Por lá, todos dizem que a situação vai melhorar e a psicologia nesse sentido ajuda a alavancar negócios.” No Fórum Econômico Mundial, em Davos, que começa no dia 20 de janeiro, Macri deve ser a principal voz da região, sobretudo diante do cancelamento da participação da presidente Dilma Rousseff.

Cerca de 40 dirigentes de grandes empresas sinalizaram interesse em se reunir com os representantes argentinos. O novo governo pretende usar a oportunidade para reforçar a mensagem de mudança. “A ideia é mostrar ao mundo que haverá regras claras”, afirmou o presidente ao anunciar sua ida para a Suíça. Além da Paranapanema, que fatura R$ 1,5 bilhão no trimestre e espera um crescimento da operação argentina dos atuais 15% para até 20%, outras empresas brasileiras esfregam as mãos.

Para a BRF, que constituiu na Argentina uma plataforma de exportações, a abertura promovida pelo governo Macri vai permitir mais eficiência nas decisões de produção. O gerente geral para América Latina da BRF, Alexandre Borges, destaca a mudança de postura na Casa Rosada. “Em termos institucionais, o novo governo traz um diálogo mais aberto”, diz Borges. “Ele é muito bem conectado com a comunidade de negócios.” A Marcopolo espera retomar os volumes do período anterior aos de Cristina Kirchner, quando eram exportados cerca de 300 ônibus anualmente, ante uma média de 70 unidades nos últimos anos.

“Talvez o fator mais positivo da mudança tenha sido dar esse ânimo para os empresários”, diz Ricardo Portolan, gerente de exportações da fabricante. A face oculta do otimismo argentino é a política. Macri terá de ser habilidoso para enfrentar a oposição no Congresso e costurar alianças para levar adiante o plano de reformas. A própria seara econômica é motivo de atenção.

“Se o ajuste for feito de forma desordenada, soltando tudo de uma forma abrupta, a situação pode ser a de uma crise mais séria”, diz Gabriel Palma, professor de Cambridge especializado em economia latino-americana e que participou de fórum na FGV, na quarta-feira 13. “As tarefas são faraônicas.” Ele avalia, porém, que em caso de êxito, haverá ganho para toda a região. O empresário Akli concorda: “Macri é uma ruptura, veio para dizer que aqui tem vida e gente que saber pensar politicamente.”, diz Akli. “Ainda bem que em tempos de crise aparecem renovações. O modelo do Mercosul está muito desgastado.” Macri, na prática, roubou a cena do governo Dilma.

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