Como unir um país dividido

A presidenta Dilma Rousseff precisa se reaproximar de empresários, investidores e de parte da classe média, após uma agressiva campanha que colocou o País em pé de guerra

27/10/2014 00:00

  • // Por: Márcio Juliboni

Compartilhe:

Imprimir:

Brasil pobre: o PT de Lula e Dilma diz que governa para os pobres, como os nordestinos, mas precisa estabelecer também diálogo com todos os setores da sociedade
Brasil pobre: o PT de Lula e Dilma diz que governa para os pobres, como os nordestinos, mas precisa estabelecer também diálogo com todos os setores da sociedade ( foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

Um dos maiores líderes do século XX, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill (1874-1965) afirmou, certa vez, que a política é quase tão excitante quanto a guerra, e não menos mortal. Trata-se de um alerta para a presidenta Dilma Rousseff, reeleita para presidir o País por mais quatro anos, ao final da mais acirrada disputa desde o restabelecimento das eleições diretas, em 1989. A difícil vitória sobre o senador tucano Aécio Neves mostra como os brasileiros saíram divididos das urnas.

Se não quiser ser refém de uma sociedade polarizada que pode paralisar seu governo, Dilma precisa retomar, rapidamente, o diálogo com os setores que atacou em sua campanha, cuja estratégia foi reforçar o antagonismo do “nós contra eles”, que opôs as camadas de menor renda e beneficiários de programas sociais, sua maior base de apoio, ao mercado e parcela da classe média urbana. “Dilma satanizou os empresários e os investidores na campanha”, afirma o cientista político Moisés da Silva Marques, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

“Agora, precisará fazer um esforço imenso para reconquistá-los.” A reaproximação, porém, deve conter gestos concretos da presidenta. O primeiro seria montar uma equipe econômica com credibilidade junto aos investidores, já que Dilma anunciou, em meio à campanha, que o atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, não permanecerá no governo no segundo mandato. “Sem a confiança do mercado, a equipe de Dilma vai enxugar gelo com toalha quente”, diz o professor de ética da Unicamp Roberto Romano. O desgaste de Mantega, após quatro anos de baixo crescimento e inflação alta, é uma dica do que se espera de um novo governo Dilma: mais ortodoxia econômica, expressa, entre outras, por medidas imediatas de combate à inflação.

“Quanto mais forte for o choque, mais curto e menos oneroso será para todos”, diz o economista Roberto Luís Troster, da consultoria Troster e Associados. As medidas desejáveis passam pelo reajuste de tarifas públicas defasadas, como a da energia, e pelo fim das intervenções no câmbio. A parte mais difícil, porém, é reequilibrar as contas do governo, pois equivale à escolha entre cortar gastos públicos ou aumentar a carga tributária. “Ou você reduz os recursos direcionados a alguém ou cobra a conta de outra pessoa”, afirma Troster.

O problema é que nenhuma dessas opções agrada à classe média urbana, outra camada da sociedade que se exasperou com a campanha petista. Endividada e com a renda corroída pela alta de preços, essa parcela da população não tolera mais impostos e se ressente com a má qualidade dos serviços públicos. “Dilma queimou muitas pontes com o eleitor urbano médio”, afirma o sociólogo e cientista político Paulo Baía, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para reconstruí-las, a presidenta poderia, por exemplo, ampliar os investimentos em saúde, educação e segurança, áreas essenciais para a classe média.

A distensão também passa pelas relações com o Congresso que será empossado em 2015, considerado o mais conservador desde 1964. O diálogo com os parlamentares, porém, não será fácil. “Dilma não terá lua de mel”, afirma Baía, referindo-se ao voto de confiança que a sociedade costuma dar, nos primeiros meses, a quem assume o Palácio do Planalto. “Seu próximo mandato começa já em 27 de outubro.” Segundo ele, durante a campanha, sua base de apoio rachou e flertou com Aécio Neves.

Para reparar as trincas, a presidenta poderia antecipar a nomeação dos novos ministros, sem esperar pela posse formal, em 1º de janeiro. Nos próximos quatro anos, seria bom, também, se Dilma conversasse com um ator fundamental, que ignorou no primeiro mandato: a oposição. “Ela ganhou uma eleição, não o título de monarca”, afirma o cientista político Carlos Melo, do Insper. “Não dá para governar um País tão dividido.” Dialogar com todos os segmentos da sociedade é uma premissa básica da democracia. “Quem ganhar será responsável por restabelecer o clima amistoso entre os brasileiros”, afirmou o ex-presidente FHC no domingo 26.

--------

Confira o "Especial Eleição 2014":

Avalie esta notícia:  starstarstarstarstar

Compartilhe:

Imprimir:

Deixe um comentário

(O comentário não pode exceder 500 caracteres)