Economia

Mãos à obra no campo

Em encontro com empresários, candidatos da oposição prometem fortalecer o Ministério da Agricultura, enquanto Dilma Rousseff faz balanço das Ações do governo

Mãos à obra no campo

Discurso afinado: a presidenta Dilma Rousseff e os candidatos Aécio Neves (centro) e Eduardo Campos, em sabatina na Confederação Nacional da Agricultura (CNA), em Brasília (foto: Beto Barata)

O agronegócio produz 23% do PIB brasileiro e, no primeiro semestre deste ano, foi responsável por 44% de todas as exportações do País, nada menos do que US$ 49,7 bilhões, segundo a Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Ainda assim, os empresários do setor, que nos últimos anos vem crescendo bem acima da média da economia, estão descontentes com o tratamento que recebem do Planalto. Querem ser ouvidos na nomeação do ministro da Agricultura e, mais ainda, reivindicam uma pasta forte, que participe de assuntos como a demarcação de terras indígenas e tenha prevalência nos embates com a área ambiental do governo.

Pela primeira vez numa eleição, a CNA conseguiu reunir, no mesmo dia, os três principais candidatos à Presidência. Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) participaram de encontro com cerca de 600 empresários do agronegócio na quarta-feira 6, em Brasília. Em 2010, apenas o candidato tucano, José Serra, aceitou o convite dos ruralistas. O entusiasmo dos empresários do setor, que lotaram o auditório da CNA, pode ser medido pelos aplausos que cada candidato recebeu.

Tanto Aécio quanto Campos foram interrompidos várias vezes durante o discurso, especialmente quando faziam críticas à política atual ou prometiam mudanças. Ao final, o candidato tucano ainda foi ovacionado, em pé. A presidenta Dilma, a última a falar, fez um balanço de suas ações em prol do agronegócio nos últimos anos e apresentou números do seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. Não detalhou nenhuma proposta, nem fez questão de ser simpática – como havia sido na semana anterior, em fala aos industriais –, e encerrou o discurso sem ocupar todo o tempo disponível.

Foi aplaudida brevemente, apenas de forma protocolar. Com um discurso conciliador, prometendo diálogo, Campos conseguiu reduzir a resistência dos ruralistas à sua vice, Marina Silva, que foi ministra do Meio Ambiente do governo Lula e angariou o ódio dos produtores rurais por sua postura de proteção ambiental. Ao responder a uma pergunta sobre o Ministério do Trabalho que incluía uma crítica a Marina, o pessebista defendeu a companheira, argumentando que foi necessário ser mais radical no início para consolidar o Ministério do Meio Ambiente e que agora o momento é outro.

“Vamos fortalecer o Ministério da Agricultura e tirá-lo do balcão político”, afirmou. E agradou. “Eduardo surpreendeu os produtores rurais”, disse João Martins da Silva Junior, presidente da CNA. “Eles ainda ficam muito preocupados com a interferência de Marina, mas o discurso foi muito bom.” Mas se Eduardo Campos teve que enfrentar a barreira inicial da desconfiança, Aécio Neves já subiu ao palco como o candidato preferido do agronegócio. Vários empresários avaliaram suas propostas como as mais consistentes.

O tucano prometeu criar um Superministério da Agricultura, com poder para conversar em pé de igualdade com as pastas da Fazenda e do Planejamento. Disse ainda que vai dar um choque de infraestrutura no País e ampliar a cobertura do seguro rural dos atuais 9% para 60% da área plantada. “O Superministério da Agricultura será estratégico para o destravamento da infraestrutura”, afirmou. Assim como Campos, Aécio prometeu ajudar o setor de etanol, que vive uma crise com o controle de preços da gasolina pelo governo.

De acordo com a CNA, 44 usinas foram fechadas nos últimos cinco anos, o equivalente a 10% do total, e outras 12 podem parar de moer cana na safra 2014/2015. Apesar da crise, o setor faturou R$ 70 bilhões no ano passado, com exportações de US$ 15 bilhões. Dilma lembrou que o governo vem ampliando o volume de recursos para o financiamento da safra, além do subsídio ao seguro rural. Ela lembrou que a ampliação de armazéns, pedida pelos empresários, já teve R$ 3,5 bilhões liberados nos últimos dois anos. “Aprovamos o Código Florestal e hoje temos uma legislação que garante a segurança jurídica”, afirmou.

Para os empresários, faltou detalhamento do que Dilma faria num segundo mandato. “Ela fica o tempo todo fazendo menção às suas conquistas”, disse Haroldo Rodrigues da Cunha, presidente-executivo do Instituto Brasileiro do Algodão. “Mas não é esse o sentimento que temos no campo”, disse. Elizabeth Farina, presidenta da Unica, entidade que reúne os produtores de açúcar e álcool, lamentou que Dilma não tenha mencionado o etanol. “Ficou devendo propostas.” O que o agronegócio busca, no próximo governo, é uma influência proporcional à sua importância econômica.

Colaborou: Carolina Oms