A executiva mais poderosa do Brasil

27/01/2012

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Saiba quem é Graça Foster e quais os planos de Eike Batista para a OGX com o editor e o subeditor de negócios da Dinheiro Ralphe Manzoni Jr. (à dir.) e Rosenildo Gomes Ferreira:

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Ela cresceu no Morro do Adeus, que hoje faz parte do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, ocupado pela polícia em 2010. Aos oito anos, começou a trabalhar como catadora de papel, garrafas e latas para ajudar a família e para comprar material escolar. Sem descuidar dos estudos, formou-se em engenharia química, fez mestrado, pós-graduação em engenharia nuclear e MBA em economia. Essa ex-catadora de papel fará história no dia 13 de fevereiro. Neste dia, a mineira Maria das Graças Silva Foster, 58 anos, ou simplesmente Graça Foster, será empossada como presidente da Petrobras, na qual começou a trabalhar há 32 anos como estagiária, substituindo José Sérgio Gabrielli. Ela, que era diretora de gás e óleo desde 2007, será a primeira mulher a comandar a maior empresa do Brasil e a quinta maior petrolífera do mundo, com receita líquida de R$ 213 bilhões em 2010 e de R$ 180,4 bilhões até setembro do ano passado. 

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Graça Foster: "A necessidade de superar a mim mesma me trouxe
muita força e coragem".

No Brasil, a estatal é uma gigante. Os números falam por si: é quase três vezes maior do que a segunda do ranking, a Vale, e equivale a dez BR Foods em faturamento. Casada, com dois filhos e uma neta, Graça terá pela frente um de seus maiores desafios profissionais: tirar do papel o maior plano de investimentos do mundo. Do ano passado até 2015, a Petrobras vai gastar US$ 224,7 bilhões para explorar novos poços, extrair petróleo em águas profundas e no pré-sal, tirar gás e produzir etanol e fertilizantes. O Brasil vai receber 95% desses investimentos. Equipamentos, como sondas, plataformas e navios, terão de ser produzidos majoritariamente pela indústria brasileira. Somente nos primeiros nove meses de 2011, a companhia já investiu R$ 50,8 bilhões. 

Graça assume o comando da empresa no dia 13, numa cerimônia no 24º andar da imponente sede da empresa, na avenida Chile, no Rio de Janeiro, com a presença da presidenta Dilma Rousseff, com quem tem grande afinidade e que a escolheu para suceder Gabrielli. 
Quando o nome de Graça foi confirmado em um comunicado do ministro da Fazenda e presidente do conselho de administração da Petrobras, Guido Mantega, na segunda-feira 23, o mercado reagiu bem. Nesse dia, as ações com direito a voto da estatal valorizaram-se 3,6%. Os papéis preferenciais acompanharam a euforia com o nome da nova presidente e, no acumulado de quatro dias, subiram 2,9%. Em 2012, a alta é de 17%. Uma virada muito bem-vinda, depois de uma queda de 23% em 2010 e de 18,3% no ano passado. 
 
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?O mercado gostou porque, apesar da proximidade com o Planalto, Graça é uma pessoa técnica, de pulso firme e funcionária de carreira?, afirma Erick Scott, analista de petróleo da corretora SLW. ?Ela pode vencer o desafio de uma gestão mais equilibrada entre o lado técnico e o lado político?, diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). A mudança no comando da maior empresa brasileira foi decidida diretamente pela presidenta Dilma, sem conversar com partidos ou aliados políticos. As duas se conhecem desde o fim dos anos 1990, quando Graça era responsável pela parte brasileira do gasoduto Brasil-Bolívia e Dilma, secretária de Energia do governo do Rio Grande do Sul. O desejo de Dilma de substituir José Sérgio Gabrielli, que pretende se candidatar a governador da Bahia em 2014, já era conhecido. 
 
Desafetos de Graça, no entanto, tentaram minar sua indicação com a denúncia de favorecimento da empresa C. Foster, de seu atual marido, Colin Foster. As suspeitas referem-se a 42 contratos, 20 sem licitação para a compra de componentes eletrônicos desde que a futura presidente assumiu a diretoria da estatal. Segundo a Petrobras, nenhum deles foi assinado na área comandada por Graça. Dilma manteve a preferência por ela, mas ninguém sabia quando exatamente a mudança seria feita. A presidenta tomou a decisão de substituição durante as férias na Bahia e comunicou o governador Jaques Wagner no dia 4 de janeiro. O governador confirmou que convidaria Gabrielli para um cargo no primeiro escalão do governo. Na noite de 20 janeiro, Dilma chamou Graça e Gabrielli ao Palácio do Planalto e comunicou a mudança. 
 
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A notícia vazou no fim de semana. Gabrielli sai com elogios do governo. Nos seis anos em que comandou a empresa, o faturamento quase dobrou, passando de R$ 136 bilhões, em 2005, para R$ 213 bilhões em 2010. ?Já vinha conversando sobre isso há algum tempo?, afirmou Gabrielli, em entrevista à DINHEIRO (leia mais ao final da reportagem). ?Agora chegou a hora.? Além de Gabrielli, deve deixar o cargo o diretor de exploração e produção, Guilherme Estrela. A empresa deve criar também a diretoria corporativa, com a nomeação de José Eduardo Dutra, que já foi presidente da estatal, deixou o cargo para disputar uma eleição e foi um dos coordenadores da campanha de Dilma em 2010. Atualmente, Dutra é consultor de relações institucionais de Gabrielli. 
 
Mesmo com os boatos de outras substituições na semana passada ? entre elas do diretor financeiro, Almir Barbassa, e do presidente da Transpetro, Sérgio Machado ?, Graça já conversou com os diretores e a equipe de assessores de Gabrielli e pediu a todos que permanecessem nos seus cargos. A única indefinição é a permanência do diretor da área internacional, Jorge Luiz Zelada. Apesar de filiada ao PT e das três estrelas tatuadas no antebraço ? duas delas vermelhas, sua cor preferida ?, Graça é uma técnica extremamente qualificada e dedicada à companhia. Já se declarou apaixonada pela Petrobras e diz que morreria por ela. Talvez por isso, não considere sacrifício o ritmo de trabalho que mantém. Começa o dia às 7 horas da manhã ? mas já marcou reunião com a equipe às 6h30. Não deixa sua sala no 23º do edifício-sede antes das 21 horas. 
 
Vai para casa carregando uma pasta cheia de documentos e relatórios, que gosta de ler para se preparar para o dia seguinte. Nas reuniões, cobra resultados e faz questão de verificar tudo pessoalmente, não apenas checando informações e cálculos. Também visita obras, geralmente aos sábados. Graça não tira férias há cinco anos. No dia a dia, é considerada centralizadora: nenhum gerente faz nada sem sua autorização expressa. Além disso, pessoas próximas à executiva dizem que ela é detalhista e organizada. Mantém planilhas e calendários para acompanhar o andamento de cada ordem que deu. ?É a forma mais primitiva de gestão, a mais simples, você saber o que tem que fazer?, disse Graça, em entrevista ao jornal Valor, no ano passado. 
 
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Em alto-mar: primeiro navio-plataforma da Petrobras para exploração da camada pré-sal.
 
Procurada por DINHEIRO, a nova presidente da Petrobras disse que só vai se pronunciar depois de assumir a empresa. Os subordinados a chamam de rigorosa, o que lhe vale também a fama de autoritária. Mas nem todos os colegas consideram isso um defeito. ?Eu também sou chamado de autoritário. Isso é da personalidade de cada um?, diz Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ, que foi professor de Graça na pós-graduação em engenharia nuclear. ?O importante é a competência e ela é excelente.? Por outro lado, Rosa ressalta a grande capacidade de decisão da ex-aluna, com quem mantém um diálogo intenso na busca de soluções para incrementar a cadeia produtiva brasileira do setor. ?Falta engenharia no Brasil e falta industrialização. 
 
E a Petrobras tem um papel importante para mudar isso?, afirma Rosa. Assim como Dilma, que gosta de artes plásticas e mantém uma galeria de fotos de obras de arte em seu computador pessoal, Graça trabalha muito, mas também cultiva outros interesses. É fã dos Beatles ? tem todos os discos da banda britânica ? e da inglesa Amy Winehouse, que morreu no ano passado. Gosta de vinho e de futebol. É torcedora fanática do Botafogo e chega a ir ao estádio para assistir aos jogos de seu time. A semelhança de estilo com a presidenta da República já lhe valeu o apelido de ?a Dilma da Dilma?. Uma é ex-guerrilheira, a outra é ex-favelada. Ambas, atualmente, são as mulheres mais poderosas do Brasil. Mas não se trata de uma cópia. ?Elas pensam do mesmo jeito?, diz uma fonte do Planalto. 
 
Dilma também não se incomoda com o jeito centralizador de Graça. Acha que é justamente disso que uma empresa desse porte precisa para ganhar agilidade. É exatamente essa a missão e o desafio da nova presidente da Petrobras. Dilma não estava necessariamente insatisfeita com a gestão de Gabrielli, que, além de expandir os investimentos no Brasil, estimulou a indústria nacional de sondas, plataformas e navios. O que Dilma quer é mais velocidade para tirar os investimentos do papel e aumentar rapidamente a produção brasileira, especialmente no pré-sal. A presidenta considera pouco ambiciosa a meta de triplicar a produção para 6,4 milhões de barris por dia em 2020. No ano passado, a produção de 2,02 bilhões de barris ao dia ficou 3,7% abaixo da meta, prejudicada pela dificuldade em contratar equipamentos. 
 
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A discussão que havia dentro da Petrobras sobre flexibilizar a regra de conteúdo nacional para facilitar a contratação de equipamentos fica encerrada, já que a nova presidente é contra. ?Ela tem comprometimento com a indústria brasileira?, diz o diretor-geral da Organização Nacional da Indústria de Petróleo (Onip), Eloi Fernández y Fernández. A entidade calcula que a Petrobras responde por 80% dos investimentos brasileiros no setor do petróleo, que podem chegar a US$ 400 bilhões até 2020. O governo também quer mais velocidade na exploração do pré-sal. O plano de negócios prevê que a participação do pré-sal na produção total de petróleo deve passar dos atuais 2% para 18% em 2015 e 40,5% em 2020. 
 
?O pré-sal muda o patamar da produção de petróleo brasileiro?, diz o professor Segen Estefen, diretor de tecnologia e inovação da Coppe/UFRJ. A Petrobras, afirma ele, é quem vai se beneficiar das imensas reservas encontradas no pré-sal. A descoberta, anunciada em 2007, dobrou as reservas do Brasil para 15,2 bilhões de barris confirmados, mas o potencial pode ser de 60 bilhões a 90 bilhões de barris. Agora, todo esse patrimônio será administrado por Graça Foster, uma superexecutiva que não tem medo de cara feia e de grandes desafios, segundo suas próprias palavras. ?A necessidade que tive de superar a mim mesma desde a minha infância me trouxe muita força, coragem e confiança.?
 
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?A baianidade falou mais alto?
 
O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, deixa a companhia no dia 9 de fevereiro, depois de seis anos e sete meses no cargo, o mais longevo presidente da petroleira. Em entrevista à DINHEIRO, quando estava a caminho de Davos, na Suíça, onde representaria a empresa em conversas com investidores, clientes e fornecedores no Fórum Econômico Mundial, ele conta seus planos para o futuro e faz um balanço do período em que esteve à frente da empresa:
 
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Por que o sr. vai sair da Petrobras?
Isso já vinha sendo conversado há algum tempo com o governador Jaques Wagner sobre a minha ida para ajudar no governo dele. Para mim é uma honra voltar para a Bahia. Agora chegou a hora, porque ele está fazendo uma reformulação no governo. A baianidade falou mais alto.
 
O que muda com a sua saída?
Não muda, é uma política de continuidade. A Graça Foster é uma profissional de altíssima qualidade. Ela foi parte da diretoria nos últimos quatro anos e fez parte das decisões. Saio sem nenhum conflito com a presidenta Dilma e com os outros diretores da companhia.
 
O sr. vinha sempre reclamando com o governo da não autorização do reajuste no preço dos combustíveis, mesmo com o aumento do preço do petróleo.
A política de preços pode sofrer oscilações e ficar defasada no curto prazo, mas ela se estabiliza no longo prazo. 
 
Como avalia o período à frente da empresa?
Promovemos um fortalecimento do Sistema Petrobras, que inclui todas as empresas do grupo, em oposição à pulverização que existia no período anterior. Fizemos uma gestão de processo e de resultado, com o objetivo de integrar a companhia. Realizamos uma renovação dos quadros da Petrobras e hoje mais de 50% dos funcionários concursados têm menos de dez anos de casa. Fizemos também uma política de integração com a cadeia de fornecedores, com identificação de gargalos, montagem de sistema integrados. Desenvolvemos uma relação contínua com os fornecedores para desenvolver a indústria nacional.
 
Há boatos de que a Petrobras estava tentando convencer o governo a flexibilizar a exigência de conteúdo mínimo, porque tinha dificuldade em receber equipamentos no prazo.
É puro boato. Como toda indústria nascente, essa tem o seu ritmo. Mas os problemas que tivemos em 2011, de atraso na entrega de equipamentos, não têm a ver com fornecedores nacionais, mas internacionais.
 
 

 

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