Força estrangeira

18/06/2010

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O britânico Christopher Willott trocou Londres por São Paulo no fim do ano passado e, desde então, toma aulas de português para não perder negócios no Brasil. Advogado do escritório Linklaters, especializado em grandes fusões, Willott faz parte de um batalhão de estrangeiros que deixou a terra natal na esperança de colher os frutos de uma economia em ebulição.
 

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Arigatô, Petrobras: encomenda de 22 navios para a Transpetro trouxe de volta
ao Brasil 120 dekasseguis que trabalhavam em indústrias japonesas

 

?Estamos de olho no pré-sal, nos leilões de energia e em projetos como o trem de alta velocidade, o rodoanel e a Copa do Mundo 2014?, resume o advogado, que, só no primeiro trimestre deste ano, recebeu a companhia de mais 11.530 profissionais estrangeiros que vieram ao Brasil atrás de bons negócios, para suprir a carência de mão de obra especializada ou ajudar na instalação de equipamentos importados.

Números do Ministério do Trabalho, que concede os vistos de trabalho a estrangeiros, mostram um aumento de 13,6% em relação ao primeiro trimestre do ano passado. ?No ano passado, o setor de petróleo e gás sustentou sozinho o número de concessões. Neste ano, não é apenas o setor de petróleo que vai crescer?, disse à DINHEIRO o coordenador-geral de imigração do MTE, Paulo Sérgio de Moreira. Este ano, ele prevê ainda aumento das contratações de estrangeiros nas áreas de siderurgia, telecomunicações e petroquímica.
 

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Christopher Willott: o advogado britânico trocou a terra da rainha pelo Brasil
em busca de bons salários e oportunidades

 

A ?importação? de trabalhadores deu um salto em 2008, quando foram concedidas 43.993 autorizações temporárias, 33% a mais que em 2007. São técnicos que acompanham novas tecnologias ou executivos que inauguram sedes de empresas estrangeiras no País. Mas parte desse contingente é composta por profissionais que simplesmente não existem por aqui, como os 400 espanhóis e norte-americanos que trabalharam na proteção radiológica da usina de Angra 1 durante a troca dos geradores de vapor da usina, no ano passado.

?Nem sempre temos a quantidade necessária de pessoas. O programa nuclear brasileiro tem intervalos muito grandes?, explica José Eduardo Costa Mattos, chefe do escritório de obras da Eletronuclear. ?O investimento do governo em grandes obras ficou parado durante muito tempo. Por isso, também foi diminuindo a procura pelas áreas da engenharia?, emenda Cynthia Attiê, gerente do Crea-RJ (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura-RJ.).
 

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Susana Carvalho: a executiva portuguesa ficou nove meses como turista por falhas no processo de imigração
 

Diretor da Aneinfra, o engenheiro Renato Angelim teme um colapso, caso não seja incentivada a formação de profissionais nessas áreas. ?Países como Coreia do Sul e China formam 15 vezes mais engenheiros do que o Brasil?, compara. Enquanto isso, empresas com projetos grandes e sem tempo de esperar os novos profissionais brasileiros se formarem têm que continuar contando com os estrangeiros. A usina nuclear de Angra 3 começa a ser construída neste ano.

O mercado está tão bom que até brasileiros que tinham deixado a pátria atrás de oportunidades estão voltando. ?Os salários no Brasil se tornaram, em média, maiores do que em boa parte do mundo?, avalia Marcelo De Lucca, diretor da empresa de recrutamento Michael Page. São pessoas como a soldadora Márcia Mitiko, que deixou o Brasil com 20 anos para tentar a sorte no Japão e, depois de trabalhar como intérprete, arriscou-se na função de soldadora do ramo naval.

Foi a capacitação adquirida nos cinco anos de serviço no setor que garantiu a ela e a outros 119 dekasseguis o planejado retorno ao País, direto para o Estaleiro Atlântico Sul (EAS), no Porto de Suape (PE). ?Não há ninguém com a nossa experiência por aqui?, constata Márcia, hoje com 29 anos. ?Treinamos três mil pessoas para o serviço, mas essa formação leva oito meses. Precisamos entregar 22 navios à Transpetro até 2014 e ainda estamos construindo o segundo?, disse à DINHEIRO o presidente do EAS, Ângelo Bellelis. Sem profissionais disponíveis no Brasil, ele planeja ?importar? outros dekasseguis para dar conta das encomendas.

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Preocupado com uma possível substituição da mão de obra nacional, o Ministério do Trabalho monitora o cumprimento das rígidas leis trabalhistas brasileiras. ?Depois de certo tempo de operação no Brasil, os funcionários de plataformas de petróleo, por exemplo, devem ser gradativamente substituídos por brasileiros?, explica o coordenador de imigração Paulo Moreira. A legislação, revisada em 2004, também prevê o treinamento dos trabalhadores locais por quem vem de fora.

A executiva portuguesa Susana Carvalho descobriu essas deficiências da pior forma possível. Promovida para ocupar a direção-geral da espanhola Fertiberia-Brasil, Susana levou nove meses para regularizar sua situação no País. ?Passei esse tempo como se fosse turista, sem direito a contratar seguro de saúde ou abrir conta bancária.

Eu só podia sacar R$ 600 por dia e meus móveis ficaram retidos no porto de Santos?, lembra a executiva, que chegou ao Brasil em julho do ano passado e só assumiu o cargo plenamente na semana passada. Durante esse período, Susana deu o azar de pegar uma greve no Ministério do Trabalho e sua documentação teve de ser toda revista em três momentos, uma para cada vez em que os funcionários brasileiros redigiram seu nome errado. Se o Brasil não qualificar sua mão de obra, pelo menos o aumento das concessões de trabalho deve dar conta de ensinar aos funcionários da imigração a redigir nomes estrangeiros.

 

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