Economia

Quem fica com a Light

De todas as privatizações já realizadas no Brasil, as que envolveram empresas de energia foram as mais problemáticas. E poucas causaram tantos transtornos quando a da Light, maior distribuidora de eletricidade do Rio de Janeiro que foi uma espécie de patinho feio do processo de desestatização. Leiloada em maio de 1996, a empresa foi vendida pelo preço mínimo, de
US$ 2,7 bilhões, e acabou arrematada por outra estatal, a francesa EDF. Só isso já fez da venda uma privatização pela metade. Com problemas de gestão e investimento escasso, a Light, que tem hoje 3,4 milhões de clientes, acabou acumulando prejuízos bilionários ao longo dos anos. Para piorar, a companhia foi também a que mais sofreu com as perdas de energia. São os chamados ?gatos? que, na Light, representam cerca de 25% de toda energia produzida. Resultado: um mês atrás, os franceses acabaram desistindo de gerir a Light e contrataram o banco Goldman Sachs em busca de um novo sócio controlador.

Essa segunda tentativa de privatizar a Light agora entrou na reta final e, na quarta-feira 17, cinco consórcios apresentaram propostas firmes de compra: o grupo liderado pela Cemig, a estatal de energia de Minas Gerais, o da Companhia Paulista de Força e Luz, presidida pelo executivo Wilson Ferreira, o da GP Investimentos, gestora de fundos de Antônio Bonchristiano, o da família Gouvêa Vieira, que controla a Ipiranga, e o da Tractebel, empresa belga que adquiriu a Eletrosul. ?A Light é uma empresa com imenso potencial de valorização?, garante Wilson Brumer, secretário de Desenvolvimento de Minas Gerais e presidente do conselho da Cemig. No seu consórcio, ainda estão a construtora Andrade Gutierrez e um grupo de fundos de investimento capitaneados por José Luiz Alquéres, ex-presidente da Eletrobrás ? todos com um terço do capital. Ao que tudo indica, é este grupo o que conta com maior simpatia do governo federal.

O processo de venda da Light é também uma contagem regressiva. Isso porque ele corre em paralelo com a abertura de capital da EDF na Europa, que irá acontecer no início de 2006. E uma das exigências dos banqueiros que coordenam a emissão de ações por lá foi de que a EDF se desfizesse de ativos problemáticos em outros países. De acordo com estimativas de vários analistas de mercado, a empresa será vendida por um valor próximo a R$ 1,2 bilhão, bem menos do que os franceses pagaram na privatização. ?A EDF, que tinha uma cultura estatal, não foi capaz de solucionar os problemas de gestão e de agregar valor à companhia?, avalia Marcelo Mesquita, do banco suíço UBS. Agora, com um novo modelo implantado no setor elétrico, os grupos privados estão otimistas.

Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, que é também presidente da Federação das Indústrias do Rio
de Janeiro, montou seu consórcio em parceria com o fundo de investimentos inglês Millenium e pretende usar o peso da Firjan para emplacar uma proposta que traga de volta o controle da Light a um grupo fluminense. Este critério,
porém, não é determinante para o governo do Rio de Janeiro. ?O que importa é que o vencedor seja um grupo empresarial sólido e com know-how na área de energia?, diz Wagner Victer, secretário de Energia de Rosinha Garotinho. Uma possível vitória da Cemig não o preocupa. ?Mesmo neste caso, o centro de decisão da Light continuará no Rio?.

Quem corre por fora na disputa é o grupo GP, que no início do ano passado fez sua primeira incursão na área de energia ao comprar a Cemar, a distribuidora maranhense, e vem sendo assessorado por Firmino Sampaio, um ex-presidente da Eletrobrás. A expectativa dos pretendentes à Light é que, no início de dezembro, a Goldman Sachs divulgue uma espécie de lista reduzida, com apenas dois ou três compradores. Estes receberiam acesso mais detalhado aos números da Light e teriam mais uma ou duas semanas para formalizar uma proposta definitiva. Ao que tudo indica, até o começo do ano que vem, a empresa já terá um novo dono.

Perfil da empresa

Clientes 3,4 milhões
Índice de perdas 25%
Receita líquida R$ 3,6 bilhões de janeiro a setembro de 2005
Lucro no período R$ 89,4 milhões
Endividamento US$ 1,5 bilhão, dos quais R$ 660 mi renegociados