OS NEGÓCIOS SECRETOS (E OS NEM TANTO) DO BRASIL COM O IRAQUE

23/09/2002 07:00

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Em 14 de setembro de 1982, saiu do Palácio do Planalto, em Brasília, uma carta endereçada ao ?grande e bom amigo? Saddam Hussein. Assinada pelo ex-presidente João Figueiredo, a mensagem tratava das relações comerciais e políticas entre Brasil e Iraque. No documento, agora revelado pela DINHEIRO, Figueiredo pedia novos contratos para empresas brasileiras, despedia-se assinando como ?leal e bom amigo? e fazia votos pela felicidade pessoal do ditador iraquiano. Os tempos eram muito diferentes dos atuais. Tivesse sido escrita há duas ou três semanas por um mandatário de qualquer nação, certamente colocaria tal país no grupo qualificado pelo presidente americano George W. Bush como o ?eixo do mal?. As relações carnais entre o Brasil e o Iraque já pareciam encobertas pela poeira do tempo. Mas voltaram à tona na última semana, depois que um cientista iraquiano, Khidir Hamza, afirmou que Saddam Hussein poderia rapidamente produzir uma bomba atômica, utilizando urânio brasileiro. DINHEIRO reconstituiu esse passado remoto, ouvindo autoridades que decidiam os rumos do País.

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Nos braços do povo No Iraque, não sobraram dissidentes

O resultado é surpreendente. O Iraque chegou a ser um dos maiores importadores de produtos e serviços brasileiros e, entre 1976 e 1990, o fluxo de comércio entre os dois países superou US$ 30 bilhões ? volume maior do que o realizado com qualquer país europeu. ?O Iraque era o nosso parceiro ideal?, recorda o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, que foi o grande arquiteto da aproximação entre os dois países e chefiou diversas missões comerciais que foram a Bagdá. Por duas vezes, ele esteve cara a cara com Saddam Hussein. Numa dessas ocasiões, chegou até a dar de presente um revólver Taurus, de fabricação nacional, ao presidente iraquiano. ?O comércio com o Iraque foi nosso único exemplo de reciclagem dos petrodólares, pois eles nos exportavam o petróleo em condições especiais e ainda compravam tudo que vinha do Brasil?, diz Flecha de Lima. O Brasil vendia automóveis, carnes, frangos, tratores e ainda construía as principais obras de infra-estrutura do Iraque.

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Murillo Mendes: Empreiteiro fez estradas, ferrovias e bombeou a água dos rios Tigre e Eufrates. Resultado: vendeu US$ 3 bilhões ao governo de Saddam

 

A amizade com Saddam Hussein, porém, não ficou restrita ao campo comercial. O lado secreto da história, conduzido por generais de altíssima patente, foi muito mais ambicioso. ?O projeto comum dos dois países era construir a bomba atômica?, revela o deputado e ex-ministro Delfim Netto, que comandou a economia brasileira durante grande parte do regime militar. Uma das mais sigilosas operações entre os governos do general Figueiredo e de Saddam Hussein aconteceu no dia 14 de janeiro de 1981. Foi quando dois aviões iraquianos decolaram das pistas do Centro Tecnológico Aeroespacial, de São José dos Campos. Voaram em direção a Bagdá, carregados com o urânio que vinha das minas de Poços de Caldas. No centro de tudo isso, estava o brigadeiro Hugo de Oliveira Piva, um dos melhores alunos do ITA que, em 1989, chegou até a trabalhar no Iraque, coordenando 27 pesquisadores brasileiros. Piva tratava das remessas de massa de urânio ? o yellow cake ? para o Iraque diretamente com o ministro da Indústria Bélica de Saddam, Ahmed Hubadj. Em Bagdá, Piva abriu a empresa Benford Holding Corporation, com sede no Panamá, gerência na Libéria e conta bancária em Luxemburgo, três paraísos fiscais. ?Tudo que ele fez teve o conhecimento das autoridades brasileiras?, disse o brigadeiro
Sérgio Ferolla, ministro do Superior Tribunal Militar, ao editor Hugo Studart. ?Mas o Brasil nunca chegou a dominar a tecnologia da bomba.? Na época dos acontecimentos,
Ferolla chefiava o Centro de Tecnologia Aeroespacial de São José dos Campos. Hoje, ele diz que toda essa história vem sendo usada como pretexto para que Bush faça a guerra. O brigadeiro Piva, aposentado, vive recluso e evita entrevistas.

QG iraquiano. A cidade de São José dos Campos, berço do ITA, da Embraer e da engenharia aeronáutica brasileira, funcionava como uma espécie de QG iraquiano no Brasil. Foi lá que se produziu grande parte dos armamentos exportados pelo País ao Iraque. A Avibrás, que fabrica os lançadores de foguetes da linha Astros, chegou a vender mais de US$ 1 bilhão ao governo de Saddam e os equipamentos foram usados na guerra contra o Irã, que durou
oito anos, de 1980 a 1988. ?O Iraque foi o nosso maior cliente?, admite João Brasil, diretor da empresa. Na década de 80, as relações diplomáticas do Brasil
com Saddam Hussein, embora não fossem incentivadas, eram toleradas pelo governo americano ? vinte anos atrás, o grande inimigo dos Estados Unidos no Oriente Médio era o Aiatolá
Khomeini, do Irã, e não Saddam Hussein, que chegou até a comprar armas e artefatos biológicos dos americanos. Além da Avibrás, a Engesa, da família Whitaker, exportou dezenas de tanques aos iraquianos, embora boa parte disso fosse feita em segredo. As exportações de armas eram registradas nos livros do Banco Central como vendas de ?bens de capital?.

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Luiz Furlan: A Sadia, que hoje vende US$ 150 milhões por ano ao Oriente Médio, começou a conquistar o paladar dos árabes e persas em Bagdá



 

 

 

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Wolfgang Sauer: Ex-chefão da Volks fechou com Saddam Hussein o maior contrato de exportação de carros já feito por uma montadora brasileira em toda a história

Para algumas grandes empresas, a experiência no Iraque ? a antiga Mesopotâmia, onde nasceu a civilização ? foi uma verdadeira odisséia. ?Ninguém trabalhou tanto no Iraque quanto a Mendes Júnior?, recorda o empreiteiro Murillo Mendes, que chegou a empregar mais de 30 mil pessoas no Oriente Médio. Sua empresa executou três grandes obras: a ferrovia Bagdá-Akashat, um trecho da rodovia Expressway e o projeto Sifão, que bombeava a água dos rios Tigre e Eufrates para a irrigação. Os contratos, pelos valores da época, foram de US$ 3 bilhões. Hoje, seriam próximos a US$ 10 bilhões. A ferrovia chegava à fronteira com a Síria, que Saddam sonhava anexar ao Iraque, e às reservas de fosfato do país ? um dos locais onde havia suspeitas de produção de armas químicas. Todos esses projetos de engenharia serviam para reduzir o déficit comercial do Brasil, que vivia uma grave crise cambial desde 1982, o ano da moratória da dívida externa. ?O Iraque era o único país disposto a vender petróleo ao Brasil sem fazer maiores exigências?, lembra Flecha de Lima. Juntamente com o empresário Wolfgang Sauer, que presidiu a Volkswagen e a Anfavea, a associação da indústria automobilística, ele conseguiu fechar o maior contrato de exportação já feito por uma montadora brasileira. ?Vendemos mais de 100 mil Passats aos iraquianos?, diz Wolfgang Sauer. A Sadia, que hoje exporta cerca de US$ 150 milhões anuais para o Oriente Médio, também começou a desenvolver esse mercado atuando no Iraque.

 

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João Verdi: Dono da Avibrás, de São José dos Campos, exportou US$ 1 bilhão em lançadores de foguetes e equipamentos militares ao Iraque

Todas as relações comerciais entre os dois países começaram a ser congeladas a partir de 1990. Foi quando o Brasil, atendendo a uma resolução das Nações Unidas, aderiu ao embargo econômico contra o Iraque. Porém, aos poucos, as exportações brasileiras começam a ser retomadas. Neste ano, a Massey Fergusson exportou 350 tratores e 100 colheitadeiras. Tudo é feito de acordo com as regras da ONU por meio do programa Oil for Food ? as receitas do petróleo iraquiano só podem ser usadas para a compra de produtos ligados à alimentação do seu povo. ?É um mercado importante porque eles produzem muitos cereais e podem voltar a ser um grande comprador de máquinas?, avalia André Rorato, diretor de exportação da empresa. O embaixador iraquiano em Brasília, Jarallah Alobaidy, também aposta no futuro. Nas últimas semanas, ele vinha tentando atrair empresas brasileiras para a Feira Internacional de Bagdá, marcada para novembro: ?Comprávamos de vocês automóveis, café, açúcar, alimentos e quase toda a nossa infra-estrutura foi construída por empresas brasileiras. Por que não resgatamos esse passado, que foi bom para nossos dois países??

Com reportagem de Marco Damiani e Cláudia Bredarioli

 

Apelo a alá Homens iraquianos rezam numa mesquita para evitar a guerra

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