Sucessão de espantos no Amazonas

O banho de sangue em Manaus foi também uma disputa empresarial, com direito a “cela de comando” no presídio

06/01/2017 20:00

  • // Por: Cláudio Gradilone

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As palavras são insuficientes para comentar as cenas registradas, na madrugada da segunda-feira 2, pelas câmeras do Complexo Penitenciário Anísio Jobim, na periferia de Manaus. Rebelados, detentos integrantes da facção criminosa Família do Norte (FDN) chacinaram 56 membros do Primeiro Comando da Capital (PCC). Há aqui vários espantos. Um deles é os participantes não terem destruído as câmeras de segurança, nem terem se preocupado em esconder seus rostos. Outro é a libertação, sem danos, dos 12 agentes penitenciários tomados como reféns. Mas os maiores espantos são a gênese e as motivações dessa rebelião.

Para entender a tragédia vergonhosa de Manaus, é preciso lembrar que rebeliões fazem parte da paisagem do sistema penitenciário brasileiro, adequadamente descrito como “medieval” pelo ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo. Em geral, os detentos se revoltam por não ter condições mínimas de sobrevivência. Faltam comida e remédios, falta apoio jurídico, faltam atividades que favoreçam a ressocialização, falta zelo com o dinheiro público.

A violência e a corrupção penitenciária oriundas das facções criminosas não são fatos isolados, mas apenas reproduzem o que se passa do lado de fora dos muros. Porém, o que ocorreu no Anísio Jobim não foi só uma revolta. O banho de sangue em Manaus foi uma disputa empresarial. As facções criminosas operam os grandes corredores logísticos internacionais da droga. O Brasil é um dos trechos mais importantes. Por ele a cocaína produzida na Colômbia, Peru ou Bolívia chega à Europa. Ao tentar tomar os corredores de droga do Norte do País, o PCC incomodou a FDN. O massacre foi uma retaliação. Não foi a primeira.

O ataque na virada do ano havia sido precedido por outro, em julho passado. No chamado “fim de semana sangrento”, 38 membros do PCC foram assassinados nas ruas em Manaus. Mais aterrador foi o fato de que, após as mortes, o traficante José Roberto Fernandes Barbosa, líder da FDN conhecido como “Z” ou “Pertubado” (SIC), ter se reunido com o ex-secretário de administração penitenciária do Amazonas para dar um basta no massacre. Mais espantoso, ainda: segundo o jornal “El País”, mensagens interceptadas pela Polícia Federal mostram que a reunião foi pedida pelo próprio secretário.

Releia a frase anterior, e pense nas consequências. Ninguém na área de segurança pública ignora que as cadeias são, na prática, controladas pelos presos. A FDN possui até uma “cela de comando” no Anísio Jobim, com logotipo e tudo. Quem visita uma comunidade no Rio de Janeiro ou em São Paulo percebe logo que a coexistência entre o crime e o Estado, representado apenas pelas forças policiais, é simbiótica e, na maior parte do tempo, pacífica. No entanto, o fracasso do poder público em transformar em cidadãos os brasileiros de baixa renda, e o enriquecimento do tráfico colocaram essa relação de cabeça para baixo. 

A autópsia do ocorrido em Manaus mostra isso. Bem armado, rico e estruturado, o tráfico se torna cada vez mais capaz de corromper, aparelhar ou coagir a estrutura estatal, colocando simpatizantes em cargos públicos, financiando eleições e patrocinando a prestação de concursos públicos. E quando já não é possível dizer, à primeira vista, quem são os bandidos e quem é a polícia, o risco para a sociedade e para o ambiente de negócios aumenta. Espantosamente.

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