Cautela é qualidade ou defeito?

Nesse momento de profundos ajustes na economia, a cautela não é um defeito. Mais vale um Ilan Goldfajn (na foto, à esq.) cauteloso do que um Alexandre Tombini leniente

21/10/2016 20:00

  • // Por: Luís Artur Nogueira

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O título proposto nesse artigo daria um ótimo debate em qualquer circunstância de nossas vidas, mas o tema em questão é a política de juros do Banco Central (BC). Na noite da quarta-feira 19, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, por unanimidade, sem viés, reduzir a taxa básica de juros (Selic) de 14,25% para 14% ao ano. Parte do mercado financeiro apostava neste tamanho de corte (0,25 ponto percentual) e outra parte defendia uma tesourada maior, de 0,5 ponto. Afinal de contas, a autoridade monetária acertou ou errou na intensidade do afrouxamento dos juros?

Para responder a essa pergunta, precisamos analisar os argumentos utilizados pelos diretores do Copom e os números correntes e prospectivos da economia. Em seu comunicado, divulgado logo após a reunião, o BC menciona uma “atividade econômica um pouco abaixo do esperado no curto prazo” e com “alto nível de ociosidade”. Por esse aspecto, um corte de meio ponto na Selic era factível. Em relação ao cenário internacional, o Copom avalia que o ambiente é favorável aos emergentes, mas salienta que “as incertezas sobre o crescimento da economia global e, especialmente, sobre a normalização das condições monetárias nos EUA persistem”.

Trocando em miúdos, a incerteza sobre os próximos passos do Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano), que vem adiando a elevação dos juros, talvez recomendasse mesmo um pouco de prudência. Quanto à inflação, que afinal de contas é a principal variável a ser monitorada pelo BC, há boas notícias destacadas pelo próprio Copom: os preços de alimentos estão mais comportados, o que ajuda a aliviar a inflação no curto prazo; e as previsões do mercado para o IPCA estão em 5% para 2017 e em torno de 4,5%, que é o alvo central da meta, em 2018.

Há, no entanto, riscos domésticos, segundo a própria interpretação dos diretores do BC. O ajuste fiscal é longo e ainda incerto e a inflação ficou alta por muito tempo, o que dificulta a sua trajetória para o centro da meta. Em outras palavras, os governos federal, estaduais e municipais gastam demais e a economia brasileira ainda é muita indexada, o que exige sempre uma dose extra de juros. Conclusão: havia bons argumentos para o Banco Central ter sido mais arrojado. Eu poderia incluir aqui um dado que tem forte apelo social: o desemprego já atinge 12 milhões de pessoas e ainda vai crescer até meados de 2017. Se Brasília não atrapalhar e a PEC dos gastos públicos avançar no Congresso Nacional, o corte na Selic em novembro poderá ser de 0,5 ponto percentual.

Porém, levando em consideração que a missão principal do Copom é zelar pela inflação, seria injusto crucificá-lo pela decisão. Afinal de contas, a nova equipe, sob o comando de Ilan Godfajn, está colocando a casa em ordem depois de cinco anos de uma gestão ruim de Alexandre Tombini, que jamais entregou a inflação no centro da meta. Justiça seja feita, a administração anterior do BC foi atrapalhada por uma política populista da presidente Dilma Rousseff, que controlou preços de combustível, energia e transporte público, e valorizou artificialmente o câmbio. Sendo assim, nesse momento de profundos ajustes na economia, a cautela não é um defeito. Mais vale um Ilan Goldfajn cauteloso do que um Alexandre Tombini leniente.

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