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Para a Nintendo, se reinventar é simples

O sucesso do Pokémon Go se deve mais a uma questão comportamental do que tecnológica. Não foi a primeira vez que a empresa deu uma tacada dessas

Para a Nintendo, se reinventar é simples

Na quarta-feira 13, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, praticamente implorou para que a empresa de videogames Nintendo lance o seu mais recente game no País. “Alô, Nintendo! Faltam 23 dias para as Olimpíadas Rio 2016”, disse Paes, por meio de sua página no Facebook. “O mundo todo tá vindo pra cá. Venha também!” O post era acompanhado pela hashtag #PokemonGoNoBrasil e uma séria de fotos mostrando os monstrinhos Pokémon em paisagens da cidade.

A manifestação do político carioca é apenas um exemplo do impacto causado no mundo todo pelo jogo Pokémon Go, lançado na semana passada pela empresa japonesa. Sem exageros, o game para celulares se espalhou mais rápido do que uma epidemia de zika, mesmo em lugares onde ele ainda não foi lançado, como o Brasil. Em questão de dias, o Pokémon Go já estava no topo da lista dos games para celular mais rentáveis do planeta. Estimativas apontam que ele estaria gerando US$ 1 milhão por dia em receita, com potencial de faturamento anual superior a US$ 1 bilhão. 

Em uma semana, as ações da Nintendo subiram 55%, aumentando seu valor de mercado em US$ 9 bilhões. Trata-se de um feito e tanto para uma companhia que, nos últimos anos, lutava para se atualizar diante das mudanças no mercado de games. Muitos, inclusive, duvidavam de sua capacidade de se reinventar. O motivo era, justamente, sua relutância em sair do mundo dos consoles e entrar para o cobiçado ecossistema dos jogos para celulares, mercado que ela, agora, tem potencial para dominar.

A Nintendo não precisou reinventar a roda para, literalmente, voltar ao jogo e se transformar num fenômeno de vendas no mundo mobile. Na verdade, ela não trouxe nenhuma tecnologia nova. O Pokémon Go é baseado no conceito de realidade aumentada, que propõe a interpolação de mundos virtuais com o real. No jogo, o objetivo é “caçar” pokémons que estão espalhados pela cidade. O jogador tem de sair atrás dos monstrinhos, procurando-os com a câmera do celular.

Quando os encontra, escondidos em alguma estrutura física, ele deve jogar “pokebolas” para capturar o bicho. O interessante é que, ao contrário dos videogames tradicionais, o game exige que o jogador saia de casa e experimente o mundo exterior, ainda que, em grande parte, com os olhos grudados na tela do celular. O sucesso do Pokémon Go se deve mais a uma questão comportamental do que tecnológica. A Nintendo percebeu, há cerca de dois anos, quando iniciou o desenvolvimento do jogo, que os fãs da franquia estariam dispostos a participar de uma brincadeira desse tipo.

Não foi a primeira vez que a empresa deu uma tacada dessas. Em meados dos anos 2000, quando Sony e Microsoft disputavam para ver quem criaria o console com a maior qualidade de som e imagem, a Nintendo lançou o Wii, que trazia gráficos toscos, comparados aos da concorrência. Mas o videogame vendeu 100 milhões de unidades, ante 70 milhões dos rivais. Seu grande atrativo era um controle sem fio que funcionava por movimentos, obrigando as pessoas a se mexer. Agora, assim como o jogo obriga as pessoas a encarar o mundo real, ele acaba enfrentando problemas reais.

Nos Estados Unidos uma menina procurava pokémons em um parque, mas acabou encontrando um cadáver. Na Austrália, ladrões usaram o aplicativo para atrair potenciais vítimas. Na Coreia, o quarto maior mercado de games do mundo, restrições de mapeamento em virtude do conflito com a vizinha Coreia do Norte prejudicam a sua jogabilidade. E no Oriente Médio, fatwas (tipo de ordenamento religioso do islamismo) contra o personagem obriga os gamers muçulmanos a serem discretos. Na área de tecnologia, às vezes, inovar é mais simples do que parece.