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A volta do cassino na bolsa

O investidor Naji Nahas foi o especulador símbolo até os anos 1990. Agora, a política nacional assume o papel de mexer no comportamento da bolsa de valores

A volta do cassino na bolsa

Na tarde de terça-feira 15, enquanto o ministro da educação, Aloizio Mercadante, participava de uma entrevista coletiva para explicar as gravações em que ele promete ajudar o senador Delcídio do Amaral (sem partido-MS), o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo, oscilava conforme o “valor” das informações. Mais cedo, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, responsável pelos processos da Operação Lava Jato, aceitou a delação premiada do ex-petista e ex-líder do governo no Senado, revelada com exclusividade pela ISTOÉ. A possibilidade do ex-presidente Lula ser nomeado ministro pela presidente Dilma Rousseff ganhava corpo. Entre 15 horas e 15h30, a temperatura da política brasileira estava em ebulição. Se as frases de Mercadante fizeram o mercado de ações subir, o boato de que Lula estava assumindo, oficialmente, um cargo no governo provocaram a queda brusca do indicador em quase 400 pontos, em menos de cinco minutos. Depois que sua posse foi contestada na Justiça, na quinta-feira 17, o Ibovespa subiu 6,6%, a maior alta diária em sete anos (leia reportagem à pág. 18).

O comportamento atual da bolsa lembra os anos 1990. Naquele período, a especulação mandava na alta e na baixa das ações, fazendo desse mercado um local para aventureiros. Ali estavam os grandes apostadores, em busca de ganhos fáceis como a sorte em uma roleta de cassino. O investidor Naji Nahas é um exemplo clássico desse período. Ele manipulava a valorização dos papeis que tinha em sua carteira. Chegou a ter quase 10% de ações da Vale e da Petrobras. Nahas fazia operações casadas de compra e venda, escorado em altos empréstimos bancários, com a certeza de que o círculo se fecharia em seu favor. Quando seu esquema foi descoberto, as ações da Vale tinha se valorizado cerca de 1.600% em oito meses. A Bolsa do Rio de Janeiro quebrou. Ele foi inocentado de manipulação e quebra do mercado, em 2004. E seu pedido bilionário de indenização foi negado.

A imagem de cassino desapareceu nos anos 2000, após uma série de medidas adotadas de transparência e de elevada governança corporativa, além da fusão de pequenas bolsas de valores em uma só, a BM&FBovespa. A especulação deixou de ser a principal responsável pelos vaivens das ações, que passaram a ser vistas e analisadas por seus fundamentos de mercado. Isso provocou uma enorme mudança, atraindo novos investidores e empresas, que encontraram uma alternativa de captação de recursos, com custos menores às linhas de financiamento tradicional oferecida por bancos. Entre 2004 e 2010, por exemplo, foram 115 ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês). Havia espaço para todos, inclusive companhias pré-operacionais, como a petroleira OGX, do empresário Eike Batista, que convenceu os investidores a apostar no seu projeto. Foram R$ 6,8 bilhões captados por ele, um recorde na época, numa expectativa que não se concretizou.

A especulação é um mal necessário para a bolsa de valores. Ela serve para dar liquidez e como porta de entrada e saída para a negociação de ações. O problema é quando só ela movimenta o mercado, fazendo os papeis dançarem conforme interesses específicos. A BM&FBovespa anda tão esvaziada que empresas estão sendo negociadas a centavos na bolsa de Nova York e outras, como muitos bancos médios, cogitam fechar seu capital. O mercado, como a economia, voltou ao passado. Mas nem todos topam brincar nessa Las Vegas brasileira.

(Nota publicada na Edição 959 da Revista Dinheiro)