NEGÓCIOS
Nº edição: 284 | 05.FEV.03 - 10:00 | Atualizado em 17.06 - 17:03
SCHÜRMANN EM TERRA FIRME
Família de velejadores abre loja no litoral paulista, prepara franquias, filma superprodução para o cinema e negocia um desenho animado com a tevê
Por Christian Carvalho Cruz
No lugar das tradicionais sandálias de couro, sapato social. Sobre a camisa tinindo de branca, um bem passado paletó azul-marinho. Do surrado boné, nem sinal. Bermudão? Que nada: calça bege, de pregas. E uma pastinha zero-zero-sete cheia de papéis para completar o visual. Mas que diabos faz Vilfredo Schürmann todo arrumado, caminhando apressado sob a garoa fina de São Paulo, a quilômetros do mar, seu habitat natural? Negócios. O patriarca da famosa família de velejadores que já passou 12 anos cruzando os oceanos lançou âncora. “Temporariamente”, ele faz questão de frisar. “Nada me prende à terra firme.” A menos que a tal terra firme ofereça oportunidade de rechear o caixa até a próxima viagem. O percurso ainda é segredo de Estado, mas por conta de uma nova aventura a bordo do Aysso, marcada para 2005, os Schürmann têm intensificado o seu lado empresarial, que lhes rendeu R$ 1,2 milhão em 2002.
E não se trata das manjadas palestras para executivos, que eles fazem à média de três por mês, cobrando R$ 9 mil cada. A mais recente tacada da família é uma loja-café em Ilhabela, litoral norte paulista, chamada Adventure House. Num espaço de 130 m2, no qual investiram US$ 150 mil, eles vendem roupas e acessórios para esportes radicais, promovem palestras com aventureiros e servem café com o “bolo da formiga”, receita criada por Heloísa, mulher de Vilfredo, numa tarde sem vento no Oceano Índico. A marca registrada dos Schürmann, o minucioso planejamento antes de tomar qualquer decisão, também está lá. “Levamos um ano entrevistando comerciantes da região para saber se o negócio era viável. Só aí decidimos abrir”, conta o sócio Bob Wollheim, ex-presidente da StarMedia no Brasil e hoje dono da Ideia.com, incubadora de empresas fundada em parceria com o primogênito dos Schürmann, Pierre. “Dá para recuperar o investimento em quatro anos, franqueando a marca”, diz.
A Adventure House é apenas um sopro em relação ao furacão de negócios que os Schürmann esperam movimentar nos próximos dois anos. O maior deles é o filme O Mundo em Duas Voltas, sobre a vida do navegador português Fernão de Magalhães e a viagem de dois anos e meio que a família empreendeu em 1997. “Será uma superprodução. Filmaremos batalhas com mais de 1.500 figurantes”, empolga-se Vilfredo. Dividindo o leme da empreitada com o capitão estão os irmãos Gullane, os mesmos de O Bicho de Sete Cabeças e Castelo Rá-Tim-Bum. “Estrearemos em 2004 e acreditamos que o filme será visto por 2 milhões de pessoas no Brasil”, conta Fabiano Gullane,
que já negocia a distribuição da fita com Fox e Columbia. Os Schürmann têm até julho para captar os R$ 5,6 milhões necessários para as filmagens. Já conseguiram o apoio do Banespa e estão investindo R$ 500 mil do próprio bolso.
A família também quer aportar na televisão, transformando as molecagens da caçula Kat, de 10 anos, em desenho animado. Será uma história em capítulos na qual Kat e seu golfinho de estimação rodam o mundo levando mensagens ecológicas. “A Globo e o SBT já demonstraram interesse”, diz Vilfredo. “Quando o desenho e o filme estiverem no ar, nosso faturamento terá dobrado”, calcula. As contas baseiam-se no licenciamento da marca Kat para material escolar, roupas, brinquedos e nas vendas do CD com a trilha sonora do desenho, composta por Gilberto Gil.
Até lá, o economista que virou marinheiro vai aperfeiçoando
a sua estrutura em terra. Já tem 35 funcionários espalhados
pelos escritórios de São Paulo, Florianópolis e Rio de Janeiro.
A voz de comando ele dá de sua casa à beira-mar em Ilhabela.
Mas três vezes por semana precisa vestir o seu traje de gala
(“Mas sem gravata”) e subir ao planalto para fazer dinheiro. Na última terça-feira, Vilfredo reuniu-se com diretores da BMW, interessados em seus workshops feitos a bordo de veleiro e que chegam a custar R$ 117 mil. O objetivo de tanto trabalho, Vilfredo, 54 anos, não esconde: “Queremos deixar tudo azeitado para, depois da próxima viagem, passarmos o resto da vida no mar”. Quer dizer: viver literalmente de brisa.
Multimídia
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