ESTILO

Nº edição: 356 | 29.JUN.04 - 10:00 | Atualizado em 07.11 - 09:28

Executivos radicais

As modalidades que transformaram a adrenalina em recurso profissional dos homens de negócios

Por Por Carlos Sambrana e Carol Carloni

O executivo ou empresário que nunca passou por um momento de muita pressão, de tensão e de risco que atire a primeira pedra. O mundo dos negócios é um ambiente extremamente competitivo. É preciso, portanto, ter sangue-frio para desviar os obstáculos que surgem no meio do caminho. Neste cenário, sempre à beira do limite, quem pratica esportes radicais leva larga vantagem. “O profissional adepto dessas modalidades está mais acostumado a lidar com dificuldades e com o risco”, diz Rodrigo Araújo, consultor da Korn Ferry, empresa de recrutamento de executivos.

Além de transportar as experiências do esporte para o escritório, esses esportistas de terno e gravata tendem a lidar com as dificuldades de forma mais racional. É uma tese comprovada cientificamente. “As pessoas melhoram a eficiência cardiovascular e, conseqüentemente, o controle mental”, diz Nuno Cobra, preparador físico e autor do livro A semente da vitória. DINHEIRO selecionou as modalidades radicais cujos desafios aperfeiçoaram o cotidiano de segunda a sexta dessa turma. Acompanhe:


BÁSICO DO ESPORTE
Como funciona: Trata-se de
velejar em uma prancha de surfe, à mercê do vento que sopra numa pipa.
O que é preciso: Prancha e pipa.
Preço do equipamento:
R$ 4,5 mil, em média.
KITESURF
Prepare-se para uma nova expressão que colará em seus ouvidos: kitesurf. É como velejar sobre uma prancha aos sabores do vento. Como nas mais difíceis situações empresariais, exige absoluto controle e tomada de decisão rápida. As direções são coordenadas por meio de uma pipa que, inflada pelas lufadas, impulsiona o esportista. É preciso, portanto, ter uma intuição aguçada na hora de definir para onde ir. Nos EUA e na Europa é a nova onda. “Descobri a modalidade recentemente e me apaixonei”, diz Edson Pereira Junior, proprietário da Fast Comunicação Integrada, do Rio. Como comanda uma empresa com clientes do porte de Coca-Cola e Banco Real, ele tem uma vida agitada. O esporte consegue mantê-lo calmo no dia-a-dia. “No verão, saio do escritório às 15 horas e fico no mar até as 16 horas”, diz ele. “Volto para a empresa sem sinal de estresse.” O empresário criou um campeonato, o Oi Kitesurf, patrocinado pela empresa de telecomunicações. “Consigo praticar o esporte que me faz bem, organizo uma competição e ainda ganho dinheiro”, completa.


LYS DE PAULA: A executiva tem mais de 60 saltos no currículo
BÁSICO DO ESPORTE
Como praticar: O pára-quedista controla a
direção da queda de
acordo com os movimentos feitos com o corpo.
O que é preciso: Um pára-quedas, altímetro e um avião.
Preço do equipamento:
R$ 3 mil o pára-quedas
(R$ 200 por salto).
PÁRA-QUEDISMO
Coragem. Eis a palavra-chave do pára-quedismo.
Quando o avião alcança 12 mil pés, o equivalente a
4 mil metros, é chegada a hora do desafio. Desliga-se o motor do aparelho, que dança suavemente no céu. O coração bate mais rápido. O salto é dado. São 45 segundos em média de queda livre com velocidade aproximada de 300 km/h, dependendo do peso do esportista. Depois de 7 mil pés no ar, a caminho do solo, é o momento de acionar o pára-quedas. Nesse instante, nem os corajosos escapam da tensão, do quase medo. “Na minha primeira experiência sozinha passei por um susto, não conseguia acionar o pára-quedas”, diz a executiva Lys de Paula, coordenadora do Grupo Rio Branco de distribuições, de São Paulo.

Lys, experiente, já realizou mais de sessenta saltos. Sente-se vitoriosa cada vez que sobe numa aeronave para depois cair no vazio. “Sempre tracei meus objetivos além das minhas possibilidades”, diz ela. “O pára-quedismo foi um desafio conquistado.” Para praticá-lo sem riscos, é fundamental muito conhecimento, disciplina e autocontrole. Exige-se, é claro, também uma bela conta bancária. Um pára-quedas comum chega a R$ 3 mil. Sem contar com o principal: ter um avião para saltar. Ou então, como é mais comum, pagar em média R$ 200 por salto. “A sensação da queda livre é de euforia”, diz Lys. “É um verdadeiro encontro com Deus.”


BÁSICO DO ESPORTE
Como praticar: quatro pessoas a bordo de um bote inflável descem a corredeira de um rio desviando de obstáculos.
O que é preciso: capacete, colete
salva-vidas, remo e sapato emborrachado.
Preço do equipamento:
R$ 500 a R$ 1 mil (o passeio
custa, em média, R$ 100).
RAFTING
Desafiar obstáculos supostamente intransponíveis a cada momento. No mundo dos negócios, a afirmação é quase uma regra de todos os dias. Uma empresa grande, por exemplo, luta cotidianamente para se manter na liderança. A concorrente, por sua vez, briga para derrotá-la. As barreiras são os investimentos, a melhora do produto e como chegar ao consumidor. O paralelo perfeito para essa situação é o rafting. Trata-se do esporte praticado a bordo de um bote inflável em corredeiras de rios. É uma modalidade que exige trabalho em equipe e coragem. “Como numa empresa, quem pretende vencer precisa correr riscos”, diz Fabrizio Giovannini, dono da Torcomp Usinagem e autor de um livro de gestão empresarial, “Organização Eficaz”. “Quem não se arrisca tem resultado apenas mediano”, afirma ele. O empresário Leonardo Sauerbronn, dono da marca de roupas Rinx, vai ainda mais longe. “No rafting, você exercita a liderança, administração de ego, trabalho em equipe e o alcance dos objetivos”, diz ele, que ministra palestras sobre o assunto e já foi campeão mundial da modalidade com a equipe brasileira.


LUIZ BAGGIO: Há 10
anos mescla o mergulho
com o trabalho
BÁSICO DO ESPORTE
Como praticar: Exige muita inteligência emocional, concentração e cautela do mergulhador.
O que é preciso: Cilindro com ar comprimido, regulador, máscara, roupa neoprene, cinto com peso (lastro), colete flutuador, faca e nadadeira.
Preço do equipamento:
R$ 3 mil, em média.
MERGULHO
Disciplina e organização são requisitos fundamentais debaixo d’água. Eles diminuem os riscos a quase zero, evitam subidas rápidas em demasia à tona, que podem estourar tímpanos. No mergulho, qualquer detalhe pode mudar os planos do esportista. Há regras claras: é preciso bom condicionamento físico e alimentação equilibrada. Como é uma modalidade que exige equipamento técnico, é fundamental checá-lo minuciosamente a cada saída
para o fundo do mar.

O advogado Luiz Augusto Baggio, dono de oito bancas espalhadas pelo Brasil, pratica mergulho há 10 anos. Para o empresário, o esporte auxilia em planejamentos, assim como em minimizar riscos. “Se estou dentro de uma caverna e não há luz, não posso entrar em pânico”, declara ele. “ É preciso ter calma e traçar a melhor solução, tal qual o meu cotidiano de trabalho.” Fora e dentro d’água, Baggio cria álibis para escapar de situações que podem comprometer sua vida. Para ele isso é o mais instigante: dominar situações de estresse. As regras não passam de mera diversão comparado ao duro trabalho diário de advogar e administrar seus escritórios. “Este esporte descansa a minha mente.”


BÁSICO DO ESPORTE
Como praticar: É bom sempre ter a companhia de um instrutor. O esportista desce o paredão preso em um gancho ligado a corda.
O que é preciso: Corda e ganchos.
Preço do equipamento:
R$ 2 mil, em média.
RAPEL
O rapel foi uma das primeiras atividades de adrenalina máxima a tornar-se mania, quase que uma febre entre executivos. O motivo: a facilidade em começar a praticá-lo. A rigor, basta ouvir durante vinte minutos as instruções de segurança para se aventurar. O esporte pode ser realizado em montanhas, em cachoeiras ou até mesmo na cidade.

O fundamental é ter uma altura adequada, que pode ir
de 25 a 100 metros. O procedimento é seguro desde que o equipamento seja de boa qualidade e bem conservado. “É preciso ter plena confiança no equipamento”, diz o diretor da consultoria de seguros Aon Risk Services, Clemens Freitag. Quem já experimentou, assegura: a modalidade é excelente no combate ao cansaço do escritório, por unir natureza e acuidade.

Freitag rapidamente se apaixonou pelo esporte. “O rapel é fácil e seguro”, afirma. É verdade, sim, para quem já tem afinidade em descer paredões menores, sempre suspenso por uma corda. Aos que nunca praticaram é bom lembrar que a aventura tem riscos. Cabe aqui, também, uma metáfora com o dia-a-dia das empresas. Nelas, os riscos sempre devem ser avaliados antes de qualquer tomada de decisão. No rapel é semelhante. “É necessário respeitar os limites de segurança”, diz Freitag. “É crucial, por exemplo, descer na velocidade adequada”. O rapel nasceu de uma palavra em francês que significa “chamar” ou “recuperar”. Trata-se, na aventura, de recuperar o domínio de uma situação aparentemente perdida para torná-la uma vitória pessoal.
 


Multimídia

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