ECONOMIA

Nº edição: 637 | 23.DEZ.09 - 10:00 | Atualizado em 11.05 - 05:29

Ressurreição no mar

O Brasil, que viu sua Marinha Mercante quase desaparecer, volta a investir pesado nos estaleiros. E já está entre os gigantes globais

Por Hugo Cilo, de Rio Grande (RS)

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Em 1737, uma esquadra portuguesa atracou em uma praia no extremo Sul do País. Naquele lugar, eles fundaram o município de Rio Grande, a primeira cidade do Estado do Rio Grande do Sul. Mais de 270 anos depois, no mesmo local começa a renascer um pilar da indústria naval brasileira - que chegou a ser uma das maiores do mundo nos anos 70 e que, desde então, ficou praticamente abandonada. A partir de fevereiro de 2010, será iniciada no Estaleiro de Rio Grande a montagem da plataforma P-55 da Petrobras para exploração do pré-sal. Já existem outras encomendas que garantirão R$ 55 bilhões a essa indústria para os próximos cinco anos. Em quantidade, serão 195 embarcações com a construção já contratada - um gigantesco mercado que deixará o Brasil na sexta posição do ranking mundial, atrás apenas de China, Coreia do Sul, Japão, União Europeia e Índia. "O ambiente para o ressurgimento da produção naval está pronto", diz o empresário Walter Torre, presidente do Grupo WTorre, que investiu R$ 750 milhões no estaleiro gaúcho, o maior do País. "Em pouco tempo, teremos uma produção naval totalmente nacional."

Durante dez anos, a Petrobras locará o Estaleiro Rio Grande para construção de navios e plataformas. O valor do aluguel já foi antecipado para financiar 77% do custo das obras. A produção será integrada com outros estaleiros, como o Atlântico Sul, em Suape, Pernambuco, e no Rio de Janeiro. No entanto, por razões estruturais, grande parte da nova frota de navios brasileiros sairá do Rio Grande do Sul. "Além do ramo de petróleo e gás, o estaleiro gaúcho poderá suprir a demanda da Marinha, que tem apenas 4% dos navios nacionais", diz Torre.

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A reconstrução da estrutura naval tem sido realmente pensada de forma ambiciosa. O Estaleiro Rio Grande poderá construir três plataformas simultaneamente - cada uma pode custar até R$ 2 bilhões - ou dois grandes navios de uma só vez. Como comparação, o maior petroleiro do mundo tem 320 metros de comprimento, e o dique do estaleiro gaúcho tem 360 metros. "Poderemos suprir a demanda nacional e buscar contratos internacionais", diz o presidente da WTorre. E esses contratos já começam a surgir. A estatal venezuelana PDVSA encomendou dez petroleiros ao estaleiro Eisa, e a Vale vai fazer uma concorrência para quatro navios de grande porte para o transporte de minério de ferro. Na carona do pré-sal,grupos nacionais, como o Sinergy (estaleiros Eisa e Mauá), Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, OAS, Setal e os estrangeiros STX (Coreia) e Jurong (Cingapura) já rascunham projetos.

Junto com o renascimento da produção naval, uma grande cadeia de fornecedores tem se movimentado. Mais de 80 empresas se instalarão em Rio Grande e em Suape a fim de produzir peças e equipamentos para a construção de plataformas e navios. "A arrecadação vai triplicar e a geração de empregos vai avançar exponencialmente", afirma Gilberto Machado de Pinho, secretário de Desenvolvimento de Rio Grande. Estima-se que 45 mil pessoas trabalhem hoje na indústria naval. Em 2000, eram pouco menos de 1,5 mil postos de trabalho.


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