Entrevistas

Nº edição: 385 | 26.JAN.05 - 10:00 | Atualizado em 31.12 - 10:48

PAULO BORGES

O rei da moda

Organizador do Fashion Week diz que governo subestima a indústria da moda e reclama apoio para ocupar o mercado global

Por Por Ivan Martins


 Até a próxima terça-feira, dia 25, a moda brasileira tem soberano. Seu nome é Paulo Borges, paulista de São José do Rio Preto, criador, organizador e maestro do São Paulo Fashion Week, maior evento de moda fora do eixo Paris–Milão–Nova York. Foi ele quem, dez anos atrás, sob ceticismo geral, se dispôs a colocar de pé uma semana de desfiles que organizasse o calendário da indústria brasileira de vestuário. “As pessoas diziam que eu era ufanista”, lembra Borges, 42 anos, com um sorriso de vitória. Ao receber a reportagem de DINHEIRO na terça-feira 18, véspera da abertura do evento, ele podia comemorar o fato de que a sua ousadia se transformou em uma produção de R$ 6 milhões, que dá trabalho a 2.500 pessoas por dia e coloca no prédio da Bienal de São Paulo a nata da moda brasileira, com cobertura diária da mídia internacional. Não existe outro setor da economia brasileira que organize algo sequer semelhante em termos de importância global. Mas Borges, tipicamente, não está satisfeito. Diz que apenas parte da indústria têxtil e de confecções está integrada ao calendário de lançamentos, reclama que o governo não dá atenção à formação de mão-de-obra nesse setor e ressalta a necessidade de ocupar, com produtos de qualidade, o “espaço de desejo” que as modelos e o design brasileiro conseguiram criar no exterior. “Não adianta apenas falar em exportação. Exportar o quê? Matéria-prima?”, pergunta. “Tem de ter gente qualificada para exportar design e valor agregado, porque é essa a nossa vocação.” A seguir, sua entrevista:

 


 

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"Nunca briguei com o Mielle. Foi ele quem saiu sem dizer tchau"

 

 

DINHEIRO – Quanto custa montar o Fashion Week?

BORGES – Esta edição está custando R$ 6 milhões. Não é chute, é custo controlado em planilha, a cada hora. Quem organiza ao longo do ano é um núcleo básico de cinco pessoas, os sócios da Luminosidade, mais uma equipe que não chega a 20 pessoas. Um mês antes do evento os 20 viram 60 e na véspera da abertura são mais de 1.500 pessoas trabalhando.

DINHEIRO – Qual é o seu papel nessa engrenagem?
BORGES – Eu costuro as relações. Sou meio síndico, tomo conta da grama.

DINHEIRO – Como o sr. consegue botar todos os egos da moda no mesmo balaio?
BORGES – Pois é... Eu finjo que não estou ouvindo muito, porque se você der muita importância a esses egos você não faz nada. Tem de pegar a energia positiva e deixar passar a energia negativa, como no tai-chi, que eu costumava praticar.

DINHEIRO – Mas o sr. teve uma briga com o Carlos Miele, da M.Oficcer, e ele
deixou de desfilar no Brasil...
BORGES – Não posso chamar de briga porque eu nunca briguei com ele. Aquilo foi o quê, uma desavença? O fato é que ele saiu e nem disse tchau. A gente não pediu e nem mandou sair. Foi decisão dele. É preciso lembrar que a moda é uma cadeia de relações. Ninguém é mais importante que o todo.

DINHEIRO – Nem o sr.?
BORGES – Muito menos eu.

DINHEIRO – A empresa da qual é sócio ganha dinheiro com o Fashion Week?
BORGES – Ganha menos do que deveria ganhar. A gente acredita que está
plantando e por isso investe muito mais do que uma empresa normal investiria. Nosso faturamento anual está em torno de R$ 16 milhões, mas a gente torra esse dinheiro. Só para climatizar o ambiente da São Paulo Fashion Week e manter tudo fresquinho custa R$ 400 mil.

DINHEIRO – Quem paga a conta?
BORGES – Os patrocinadores. Graças a Deus a gente se relaciona muito bem com os patrocinadores (bate na madeira três vezes). Temos uma fila de empresas que querem patrocinar o evento, mas a gente procura manter ao máximo as que já estão conosco, com contratos de três anos.

DINHEIRO – Quanto do evento depende da sua presença?
BORGES – Pouco. Óbvio que eu estou aqui olhando, checando, vendo. Quando eu chego as pessoas dizem que ficam mais calmas. Nessa função não tenho substituto.

DINHEIRO – Uma pessoa que tivesse visto o primeiro Fashion Week em 1996 reconheceria o evento atual?
BORGES – O evento é o que era essencialmente, porque a coluna vertebral é a organização de um calendário brasileiro de moda. Mas ele cresceu, amadureceu, se profissionalizou. A gente hoje consegue ter uma estrutura superior até mesmo à das semanas internacionais em Milão e Paris.

DINHEIRO – Os desfiles brasileiros repercutem no exterior?
BORGES – Hoje a gente está na cobertura internacional. A imprensa de moda européia dá mais atenção à São Paulo Fashion Week do que a Nova York.
São Paulo tem o único evento de moda fora do eixo Milão–Paris–Nova York que
está na cobertura internacional. Obviamente temos menos espaços do que Paris e Milão, mas estamos na mesma cobertura.

DINHEIRO – Não vale a história de que a organização brasileira é sempre
de segunda?
BORGES – De forma nenhuma. Se há uma coisa que a gente conseguiu foi fazer um evento de primeiríssimo mundo. Nossas modelos, por exemplo, são as mais olhadas e mais desejadas do mundo. Viramos um celeiro lançador de modelos.

DINHEIRO – O fato de que não venham para cá grandes modelos estrangeiras significa o quê?
BORGES – Não temos mais modelos de fora por uma questão de moeda. Lá elas ganham em euro ou em dólar. A semana de Milão também tem 130 desfiles, enquanto Paris tem 150. Aqui são 47 desfiles, pagos em real. Não viabiliza a
vinda dessas modelos.

 

DINHEIROQual a importância das
modelos bonitas para um evento empresarial como o Fashion Week?
BORGES – Elas são fundamentais porque levam a imagem da moda para o grande público. A moda até os anos 60 era muito autoral e muito ditatorial, mas agora isso mudou. Os estilistas passaram a olhar para as ruas. A moda feita pela burguesia para a burguesia começou a ser inspirada nas pessoas comuns e voltada para elas. Há uma roupa muito cara e outra muito barata e as duas podem estar na moda. As modelos ajudam a levar essas idéias para o público.

DINHEIRO – Qual é a contribuição brasileira ao mundo da moda?
BORGES – A gente está descobrindo. O fato é que somos um lugar novo que está fazendo uma coisa fresca. A moda precisa disso. O brasileiro não tem travas, não é oprimido e nem opaco. O brasileiro é colorido, vibrante, diverso. A nossa moda expressa isso, mas ainda está em construção. A Itália levou 20 anos para construir o conceito da moda italiana. A percepção de que havia um design italiano de qualidade surgiu nos anos 70, depois de 20 anos de acumulação.

DINHEIRO – Estamos no mesmo caminho?
BORGES – Nitidamente. Já se percebe uma influência clara da beleza brasileira no conceito de beleza global. O mundo inteiro começa a falar de etnia na moda, de estampas na moda. São coisas pequenas, mas perceptíveis para quem é do meio. O Amir Slama, da Rosa Chá, por exemplo, suspendeu a cava dos biquínis femininos e das sungas masculinas e a Dolce Gabbana mudou na mesma direção.

DINHEIRO – Alguns compradores estrangeiros comentam que a moda brasileira é muito criativa mas ainda mal acabada, que falta qualidade industrial ao produto.
BORGES – Acho que existe um pouco disso, mas é decorrência de uma política errada. O País ainda não investiu na indústria da moda. A gente não conseguiu construir uma mão- de-obra qualificada. Não adianta apenas falar em exportação. Exportar o quê? Matéria-prima? Tem de ter gente qualificada para exportar design e valor agregado, porque é essa a nossa vocação.

DINHEIRO – Onde está a falha na cadeia?
BORGES – Não houve investimento na formação técnica, profissional. Não se investiu na formação do modelista, da costureira, do alfaiate, da bordadeira. A indústria brasileira só vai sobreviver se a gente tiver uma confecção forte.

DINHEIRO – O Fashion Week ajuda a mudar isso?
BORGES – Fazemos a nossa parte. As nossas referências há 10 anos vinham do mercado europeu. As revistas de moda faziam seus editoriais baseadas nas imagens européias. O setor têxtil apostava nas “tendências” internacionais e obrigava os estilistas e confeccionistas brasileiros a se enquadrarem. Era um sistema engessado. Demorou 10 anos, mas hoje, na moda brasileira, todo mundo trabalha com um universo cultural do seu próprio país, da sua própria cultura.

DINHEIRO – O Fashion Week já conseguiu criar um sincronismo entre os vários setores da indústria, como acontece nos mercados mais desenvolvidos?
BORGES – A indústria ainda não conseguiu se adequar completamente a essa necessidade. Ainda é meio na base de eu faço hoje para comer amanhã. Uma parte da indústria está engrenada, mas uma parte sozinha não resolve. Todo o mercado tem de estar fazendo da mesma forma.

DINHEIRO – Onde está o erro?
BORGES – Vem da política. Não existe uma linha de pensamento afinada com o mercado global. Não há linhas de crédito suficiente para investimento em exportação, em tecnologia, em confecção. Se anunciam coisas que na prática não acontecem. A gente conseguiu criar um desejo sobre moda brasileira que pouquíssimos países conseguiram. Agora temos de ocupar esse espaço. Aqui no Fashion Week entendemos que agora é o momento de dar o grande salto: a quantidade tem de ser igual à qualidade e à identidade.

DINHEIRO – Como funciona esse negócio de exportar para as grandes lojas e cadeias européias?
BORGES – Para esse mercado global marca é muito sério. Eles primeiro querem saber se a sua marca é estável em termos de qualidade e identidade. Ficam observando. Aí eles começam a comprar em pequenos volumes, para saber se você vai entregar corretamente. Estamos na fase de observação e de pequenas compras.

DINHEIRO – Parece que há este ano uma nova geração de estilistas...
BORGES – Esse é o grande frescor da moda. No mundo inteiro o que move esse negócio é o novo. É um pouco cruel, mas a novidade mexe toda a cadeia produtiva. Os jovens trazem o frescor de que o mercado necessita.

DINHEIROEsses jovens estilistas estão preparados para lidar com os aspectos práticos do mercado?
BORGES – Têm de estar, porque já são pessoas jurídicas e o negócio é todo tocado por eles. O designer pensa, vende, compra o tecido, manda costurar e manda entregar. Ele faz tudo. Lá fora, não. Lá tem uma indústria que trabalha para o designer. Ele cria a coleção com um assistente, num estúdio de 30 metros, e a estrutura cuida do resto.

DINHEIRO Em quanto tempo o sr. acha que a gente chega nisso no Brasil?
BORGES – Mais uns dez anos.

 


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