FINANÇAS

Nº edição: 429 | 30.NOV.05 - 10:00 | Atualizado em 03.03 - 02:35

A vida depois da Bolsa

Como a abertura de capital endurece a rotina e turbina os negócios da nova geração de empresas brasileiras S.A.

Por Por alexandre teixeira

Afinal, de que vale abrir o capital de uma empresa? O que muda na vida de uma companhia depois da euforia da primeira oferta pública de ações? A Bolsa de Valores, claro, é uma fonte de financiamento para projetos empresariais. Pavimenta, por exemplo, a expansão internacional de uma Natura. Ou sustenta a disputa da Gol com a TAM pelo espaço que a Varig está perdendo no setor aéreo. Mas o mercado de capitais tem apelos menos óbvios. Transformar-se numa companhia aberta pode ser até um caminho para a sucessão nos grupos familiares. “Quando vêem empresas vendendo participações a investidores estratégicos a preços muito interessantes, alguns empreendedores pensam que isto pode ser mais saudável do que entregar o que criaram a filhos, primos e sobrinhos”, observa Marcelo Trindade, presidente da CVM. De acordo com uma pesquisa realizada com cerca de 400 executivos durante o 6º Congresso Brasileiro de Governança Corporativa, na semana passada em São Paulo, o principal benefício da abertura de capital é a melhor percepção de valor dos investidores sobre os papéis da empresa. Por outro lado, 25% dos homens de negócios presentes ao evento do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa destacaram como dificuldades o custo de montar uma área de relação com investidores e a necessidade de se reportar ao mercado com mais informações do que o exigido por lei.

Exigências como estas mantiveram setores inteiros da economia afastados das bolsas nas últimas décadas. “A última abertura de capital de ferrovia, antes da nossa, foi feita pelo Barão de Mauá”, ironiza Bernardo Hees, presidente da América Latina Logística, que tem ações no mercado há um ano e meio. No caso da ALL, a oferta pública de ações era um objetivo desde o início, em 2002. Por isso, antes da abertura de capital, seus diretores já faziam reuniões regulares com analistas e apresentavam relatórios financeiros públicos e bilíngües. Mesmo assim, depois do chamado IPO foi preciso estreitar os laços com o mercado. Sobretudo com os investidores internacionais. “A rotina de road shows (viagens em série para ‘vender’ a companhia) é uma coisa maçante, embora útil”, admite Hees.

Com 180 dias de experiência no mercado, o empresário José Salim Mattar, presidente da Localiza Rent a Car, avalia que o endurecimento da rotina empresarial, no fim das contas, vale a pena. Por um acordo de acionistas, os filhos dos controladores não trabalham na Localiza. A ida ao mercado, segundo Mattar, foi uma solução para perpetuar a companhia, com gestão profissional e capital pulverizado. “Nossos filhos podem vender suas ações e montar uma butique em Nova York ou uma pousada em Búzios.”

Afastar os herdeiros da companhia pode ser conselho trivial de consultores, mas é tabu nas empresas brasileiras. “A novidade é que há jovens empreendedores dispostos a compartilhar ou até ceder o controle a terceiros. Acho que é o caso da Microsiga”, observa Luis Spinola, financista pioneiro na gestão de fundos de private equity no Brasil. De fato, a fabricante brasileira de software prepara há mais de um ano sua abertura de capital. Mas faz mistério sobre a data de sua ida ao mercado. “Estamos avaliando”, limita-se a dizer o presidente Laércio Cosentino.

Primeira empresa a entrar no chamado Novo Mercado, a Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR) viu seu valor multiplicar-se desde a chegada ao pregão, em 2002. No seu mais recente lançamento de ações, em 2004, os papéis da empresa foram oferecidos a R$ 23,50 a unidade. Hoje, a cotação está em R$ 65. “É a fonte de recursos que buscávamos desde a criação da empresa”, diz Renato Alves Vale, presidente da CCR. Membro desta geração, o portal de comércio eletrônico Submarino está radicalizando sua experiência na Bolsa. “Quando abrimos capital, em março, oferecemos 48% das ações ao mercado. Hoje, já temos cerca de 60% do nosso capital nas mãos de terceiros”, revela Flávio Jansen, o presidente. Os recursos captados no processo financiaram, por exemplo, a entrada do portal em uma área nova, de venda de entradas para espetáculos, com a aquisição da Ingresso.com. E o Submarino já prepara, para 2006, uma nova oferta pública de ações.

Até o fim de 2006, quase 100% do capital do site estará na Bolsa. Ele passará, então, a fazer companhia às Lojas Renner, primeira empresa do país a ter todo o seu capital pulverizado. Desde seu IPO, há quatro meses, as ações da rede varejista já subiram 100%. “Estamos diante de uma nova companhia”, comemora o presidente José Galló. O ritmo de expansão dobrou. Em vez de quatro lojas novas por ano, serão oito, pelos próximos quatro anos. E a Renner passará a oferecer produtos financeiros. É a força da Bolsa turbinando os negócios das novas S.A.


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