NEGÓCIOS
Nº edição: 428 | 23.NOV.05 - 10:00 | Atualizado em 23.04 - 05:26
Olavo na água
Ele não pára. A nova empreitada de Olavo Monteiro de Carvalho é a Ecoaqua, grupo que gerencia a parte hídrica de empresas de vários setores
Por Por darcio oliveira
O Cristo de um lado, Morro da Urca e Pão de Açúcar do outro e a enseada de Botafogo logo abaixo. Eis o cenário visto da sala de estar da casa de Olavo Monteiro de Carvalho, no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro. É lá que o empresário toma seu café da manhã, devora os jornais do dia e, segundo os amigos, ganha uma força extra do “Redentor” para detectar novos negócios e quase sempre acertar em cheio com eles. “É aqui que eu me inspiro”, conta Olavo. E inspiração, nesse caso, significa não deixar passar nenhuma oportunid
ade de lucro. Agora mesmo, o dono do grupo Monteiro Aranha, que tem participações em áreas tão distintas quanto papel, petroquímica e embalagens, anda animadíssimo com um assunto: água. Olavo mergulhou no setor de saneamento industrial ao se associar aos grupos SGC (de Portugal) e Victori e montar a Ecoaqua – especializada em fazer para empresas a gestão dos recursos hídricos, tratamento de efluentes e reutilização da água. “A economia é brutal para os clientes. Em alguns casos pode chegar a 50%”, diz. Mais que um novo negócio, o que anima o empresário é a possibilidade de mexer de forma racional com um recurso cada vez mais escasso. Segundo a ONU, em 2015 o mundo terá 8 bilhões de pessoas e o aumento do consumo, somado a poluição dos mananciais, provocará uma crise séria de abastecimento. “Cerca de 80% dos efluentes sanitários e industriais gerados no Brasil, por exemplo, são lançados sem tratamento inadequado nas reservas naturais de água”, confirma Olavo. “E cada litro de esgoto bruto compromete, em média, entre 7 e 8 litros de água pura nos mananciais. Por isso, a gestão de recursos hídricos é fundamental”, defende.
Hoje, a Ecoaqua tem como clientes o grupo Sendas, Petrobras, a petroquímica Nitriflex, a fabricante de embalagens Owens–Illinois e a empresa têxtil Lancaster, entre outros. Já investiu R$ 13 milhões em projetos de abastecimento de água, tratamento de efluentes, operação e manutenção de sistemas hídricos. “Vamos aplicar outros R$ 100 milhões nos próximos três anos”, promete Vlamir Paes, presidente da Ecoaqua. Por enquanto, Olavo e seus pares elegeram seis setores-alvo: siderúrgico, papel e celulose, petroquímico, alimentos e bebidas, têxtil e automotivo. “Mas temos condições de atender qualquer ramo da indústria”, diz Olavo. O faturamento da Ecoaqua em 2005 bateu nos R$ 8 milhões e estimativa é crescer 50% ao ano nos próximos cinco anos. Os contratos com as empresas são feitos geralmente por um período de 10 anos. Todos os custos de implantação do sistema são de responsabilidade da Ecoaqua e os clientes só começam a pagar após o início da operação e com a comprovação de eficiência do projeto. O modelo, inédito no Brasil, foi inspirado no setor elétrico nos EUA. “Nossa grande vantagem é que temos poder de negociação com fornecedores de máquinas e equipamentos e grande capacidade de atrair recursos para os projetos. Não há risco para o cliente”, avisa Alessandro D´Ecclesia, diretor-presidente da Brasil Saneamento, sócia de Olavo na Ecoaqua.
Há um grande potencial neste mercado. Atualmente, a gestão de recursos hídricos é feita por apenas 1% das indústrias brasileiras. No setor têxtil, por exemplo, um dos mais poluentes devido às características de seu processo produtivo, são tratados somente cerca de 40% do esgoto industrial, enquanto os outros 60% são lançados diretamente nos mananciais. “A constituição brasileira dá total prioridade a população no caso de crise de abastecimento de água. É uma situação complicada para as indústrias que não tiverem uma gestão rigorosa e controlada deste recurso”, afirma Paes. De acordo com o executivo, o mercado total de soluções industriais de saneamento gira em torno de R$ 16 bilhões por ano. Desse montante, 20% a 30% pode ser ocupado pelas atividades de reutilização de efluentes. “Tínhamos um problema que era a conta de água, muito alta, e os resíduos do nosso processo produtivo. Contratamos a Ecoaqua para fazer esses ajustes e o resultado foi uma economia no consumo de água superior a 50%”, conta Randolpho Agnello, diretor industrial da Owens-Illinois.
Com o crescimento da Ecoaqua, os sócios já vislumbram novas oportunidades. Em breve, diz Olavo, será preciso até mudar o nome da companhia. “Talvez Eco Utillities”, sugere o empresário. Isso porque os sócios, aproveitando todo o conhecimento que adquiriram no setor de água, começam a fazer vôos também por outras áreas. A Ecoaqua está para fechar um grande contrato com uma indústria de alimentos (cujo nome ainda não pode ser revelado) para reaproveitar absolutamente tudo. Os efluentes serão tratados e transformados em água novamente. O lodo gerado no tratamento do esgoto industrial também será convertido em fertlizante e os resíduos orgânicos da produção de alimentos virarão biomassa para a criação de energia. Além disso, o gás metano, um efluente geralmente descartado sem tratamento, passará a alimentar caldeiras, evitando a queima de óleo. Evitando essa queima de óleo, segundo as leis ambientais, a cliente da Ecoaqua ganha crédito de carbono e pode negociá-lo no mercado internacional. “Fizemos as contas e a empresa vai ganhar US$ 40 mil por mês em crédito de carbono”, conta Paes. Diante de novas frentes de negócio, Olavo Monteiro também já se mexeu. Ele acaba de criar, em parceria com os professores Lázaro Roberto e Eduardo Palmerio – ambos da Universidade de Uberaba (MG) –, a BioExton. “A principal atividade será transformar lodo em fertilizante”, conta Olavo. A recém-criada empresa, que tem entre seus executivos Joaquim Pedro Collor, filho de Fernando, já está negociando os primeiros contratos. Olavo não pára. ![]()
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