Entrevistas

Nº edição: 378 | 01.DEZ.04 - 10:00 | Atualizado em 21.04 - 08:24

LUIZ EDUARDO BATALHA

"Começou a guerra do hambúrguer"

Empresário que trouxe ao Brasil o Burger King, segunda maior rede de fast-food do mundo, estréia no mercado disparando contra o rival mundial McDonald's e avisa: não vai ser vice a vida toda

Por Maurício Capela


Aos 58 anos, Luiz Eduardo Batalha decidiu vender hambúrguer. Empresário do turismo e da agropecuária, ele é um dos maiores criadores de gado Nelore e Angus do País. Tem 28 mil cabeças e fatura só com isso R$ 8 milhões por ano. Mas como o sonho de todo agropecuário é alcançar o consumidor final, o empresário touxe ao Brasil a segunda maior cadeia de fast-food no mundo, a americana Burger King – fica atrás só do McDonald’s. Por anos, o Burger King, presente em 63 países e com um faturamento global de US$ 11 bilhões, namorou o País. Mas o projeto nunca saiu do papel. Agora é diferente. Com aval da matriz, Batalha vai despejar US$ 20 milhões em cinco anos para abrir 50 restaurantes no Estado de São Paulo. A BGK — empresa fundada por ele e por outros 10 sócios, entre eles o locutor esportivo Galvão Bueno e o piloto de Fórmula Indy Hélio Castro Neves – só tem autorização para atuar nesta região. “Trouxemos uma marca forte em um momento em que a economia apresenta bom ritmo de crescimento”, afirma. E no que depender dos anúncios publicitários da Burger King, a chapa vai esquentar por aqui. O primeiro deles: “Abaixo a ditadura. Agora você pode escolher”. A primeira loja começou a funcionar na quarta-feira 24 e se formaram filas de até 300 clientes. A seguir, a entrevista de Batalha à DINHEIRO:


DINHEIROOs seus anúncios sugerem que acabou a ditadura do hambúrguer no Brasil?
LUIZ EDUARDO BATALHA – É isso mesmo. Estava faltando a grande batalha do fast-food no Brasil, porque todos os outros primeiros e segundos colocados de outros setores do mundo já tinham vindo para cá. É o caso dos bancos, perfumes, roupas e tantos outros. Só faltava o fast-food. Esse, talvez, tenha sido o nosso maior incentivo. A guerra do hambúrguer está declarada.

DINHEIRO – Há quanto tempo o sr. negociava com a matriz do Burger King?
BATALHA – Sou pecuarista há mais de 30 anos e o sonho dessa categoria de profissionais é chegar até o fim da cadeia produtiva. Por isso, estávamos sempre atentos aos negócios relativos à carne, e o Burger King já era uma paixão minha desde a primeira vez que eu experimentei. Isso foi em 1982. Ficava me perguntando por que eles não estavam no País. Mais tarde, ouvi que o Emerson Fittipaldi estava trazendo a rede para cá. Depois, foi a vez da Cotia Trading. Bem, pensei, quem somos nós diante de grupos tão poderosos? Mas um belo dia, eu estava com o Batista Gigliotti, que era o único funcionário da Burger King no Brasil. A missão dele era prospectar um parceiro por aqui. Começamos a conversar, trocamos cartões e ele me disse que estava procurando um parceiro para o Brasil. Foi aí que eu disse: “Você já encontrou um”. Isso tudo aconteceu em outubro de 2001 e o mais engraçado que toda essa conversa ocorreu durante um check-up médico. Foi totalmente por acaso. Ele fazia o primeiro da vida dele e eu já era craque. Tenho até ponte de safena.

DINHEIRO – Quando a negociação começou a sair do papel?
BATALHA – Começamos a conversar na Flórida, onde fica a sede do Burger King, em janeiro de 2002. Entre o primeiro contato e o início das tratativas, não existiu parada. As discussões foram incessantes. Contratei a consultoria Boucinhas & Campos para fazer o plano de negócio a respeito desse tipo de atividade, porque a gente aprendeu que a Burger King era uma franquia diferente das outras. Nós não podíamos subfranquear para ninguém. Foi aí que decidimos constituir um grupo com 11 acionistas, que ficaria encarregado pela primeira e principal praça, o Estado de São Paulo. Nossa base é do setor pecuário. Dos 11 sócios, seis são agropecuaristas. Com essa percepção, disse a todos que tínhamos a chance de fazer um negócio cujo produto final é do nosso controle. Afinal, vamos vender carne e a gente produz carne.

DINHEIRO – O Burger King dividiu o Brasil em nove regiões. O seu grupo, que
atua no Estado de São Paulo, também poderá ficar com outro pedaço do País?
BATALHA – Não é obrigatório e também não está vetado. Se eu provar que tenho competência e que cresço velozmente no mercado paulista, posso pegar outra
praça. Mas eu não quero e o meu grupo também não deseja isso. Nós estamos focados em São Paulo.

DINHEIRO – Quais são as metas para o mercado paulista?
BATALHA – Vamos abrir 50 lojas em cinco anos, o que demanda investimentos de US$ 20 milhões. Foi dito que a média de faturamento das lojas da rede é de US$ 1 milhão por mês. Mas acho que vamos estourar qualquer uma das continhas feitas pela matriz. E é fácil ver isso. Em um sábado, o McDonald’s fatura R$ 52 mil no Shopping Ibirapuera, em São Paulo, onde nós estamos inaugurando a primeira loja do Burger King. Se multiplicarmos por 30 dias, passa de R$ 1 milhão. No ano, supera os R$ 12 milhões. Mas agora começa a nossa parte. Agora, entra em campo a nossa capacidade de gerenciamento.

DINHEIRO – Qual é a lucratividade estimada que o Burger King pode ter no
Brasil, levando-se em conta que cada loja poderá superar um faturamento
mensal de US$ 1 milhão?
BATALHA – Deverá ser entre 8% e 10%.

DINHEIRO – Como foi a negociação com os fornecedores?
BATALHA – Para nós, os principais fornecedores são a MPM, na área de propaganda, e a Coca-Cola, que foi uma decisão dificílima. Jogaram para mim essa responsabilidade, porque eu deveria escolher entre Coca e Pepsi. E a minha decisão, imagine, valia para todo o País. Agora, qualquer Burger King que quiser se instalar mesmo fora da nossa região usará Coca-Cola nos próximos anos. Foi duro, mas a minha escolha baseou-se em números, porque você vê a preferência do consumidor. A Coca tem algo como 68% de participação de mercado, contra 13% da Pepsi. Não dá para ignorar a relevância da Coca. Por exemplo, a empresa colocou dois funcionários em um flat, enquanto o restaurante do Ibirapuera estiver no prazo de experiência. Não pode ter uma vírgula de problema.

DINHEIRO – O Burger King será maior que o McDonald’s em São Paulo?
BATALHA – Não, eu não diria isso. O nosso ideal é ser o melhor da Capital e buscar qualidade. Eu não estou preocupado com o McDonald’s, porque eu não sei se ele aumentará a sua presença no País.

 

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"O McDonald's até proibiu seus fornecedores de trabalhar conosco"

 

DINHEIRO – Mas se for o melhor, o sr. poderá ser o maior também?
BATALHA – Olha, você nunca entra em um lugar para ser o segundo a vida toda. É claro que a gente entende a dificuldade. O McDonald’s tem 25 anos à nossa frente e milhões de dólares para despejar no mercado. Estão fazendo uma campanha louca para nos segurar, porque eles não acreditavam na nossa chegada. Na verdade, não tem coisa melhor que o segundo lugar. Ser número dois é ser um estilingue. Eu não tenho nada a perder, mas o primeiro colocado tem muito. Hoje, nosso rival tem várias lojas e eu não tenho nada. Então, fica essa briga toda. Agora, quando houver um equilíbrio, como 300 pontos-de-venda para cada lado, aí vai ficar interessante.

DINHEIRO – O que o sr. chama de “campanha louca” para barrar o avanço da Burger King?
BATALHA – Nas vésperas da abertura da loja no Shopping Ibirapuera, espalhamos outdoors nas ruas próximas indicando que nossa loja ficava ao lado do McDonald’s. No dia seguinte, eles apareceram rasgados, justamente no pedaço que citava a localização. Nós fotografamos tudo e até demos queixa na polícia. Isso não é coisa de vandalismo. Além disso, sabemos que eles pressionaram seus fornecedores para não trabalharem conosco.

DINHEIRO – Vocês têm fornecedores em comum?
BATALHA – Não. Nós, de fato, procuramos alguns dos fornecedores deles, como os de pão e embalagens. Mas vários deles foram proibidos de fornecer para a Burger King e, obviamente, não iriam comprar uma briga com alguém que tem 600 lojas para atender um grupo que começa com apenas três. Perdemos esses contatos, mas felizmente o mercado brasileiro possui outros fornecedores com o mesmo nível de competência e qualidade.

DINHEIRO – Outros grupos já tentaram trazer o Burger King ao Brasil e falharam. O ambiente econômico hoje é mais propício a um investimento como esse?
BATALHA – Eu acho perfeito. Hoje, temos um governo preocupado com a inflação e, às vezes, até com cuidados excessivos. Mas é fato que todo crescimento gera inflação, então é normal usar a taxa de juros. Dizem que o País deverá crescer 5% no ano que vem. Acho bastante crível. Estou satisfeito com a parte econômica do governo Lula. Só acho que há falhas no social.

DINHEIRO – O sr. votou no presidente Lula?
BATALHA – No primeiro turno, não. Só no segundo.

 

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"Ninguém invade fazenda na Amazônia. O MST quer terra perto de boas rodovias"

 

DINHEIRO – Além da parte econômica, qual é o outro grande acerto do governo Lula?
BATALHA – O grande acerto é a parte econômica. É claro que há alguma ressalva em relação à taxa de juros. Mas eles não estão brincando lá. Então, prefiro acreditar que eles têm uma boa razão para fazer isso. Certamente, há mais informação que sustenta essa atitude. Eu acho a equipe econômica irrepreensível. Tem gente de primeiro time lá. O ministro da Fazenda, Antônio Palocci, é uma surpresa maravilhosa para a gente. O Henrique Meirelles, presidente do Banco Central (BC), não é surpresa alguma, até porque ele foi presidente mundial do BankBoston. A gente já sabia da competência dele. Na agricultura, o presidente colocou o Roberto Rodrigues, que é o homem que mais entende de agropecuária na teoria e na prática. É só ver os resultados.

DINHEIRO – O sr. acha que o crescimento da economia brasileira a taxas de 5% é sólido?
BATALHA – Sim, porque o País anda durante a noite. Não há mais tanta dependência assim de investimentos do exterior. Basta ver a balança comercial. Os setores agrícola e agropecuário deixam saldo positivo. Esse é um País todo voltado para o agronegócio e turismo. Eu não sou dono de gado e de hotel à toa. Imagina a cena. O camarada vê um sol de 40 graus e o batuque do carnaval lá fora e ele é obrigado a ficar numa prensa de uma indústria. Isso não é para ele. O nosso negócio é outro. Não tem furacão. Não tem nada. Temos que aproveitar os recursos naturais. Mesmo assim, o Brasil não tem mais volta nesse ritmo de crescimento. A eleição do Lula não era o que de pior poderia acontecer no Brasil? Pois é. E entra um Lula desse, do tipo “Paz e Amor”, e não acontece mais nada. Não há aumento de invasões dos sem-terra. A eleição do Lula serviu como um pacto social.

DINHEIROComo pecuarista, qual é a avaliação que o sr. faz a respeito do Movimento dos Sem-Terra (MST)?
BATALHA – A minha avaliação é simples. O último governo fez uma grande distri-
buição de terra sem o menor rigor. Nesse governo, está melhor. Para mim, a saída é uma cooperativa. Se não houver uma organização para produção, o sem-terra nunca conseguirá sozinho. Temos que achar a exata vocação de cada pedaço do País. Aqui, é tomate. Lá, é outra coisa. Não adianta dar um pedaço de terra, não. Empreste um pedaço de terra, com direito a ganho se ele permanecer no local por um tempo e alcançar uma meta de produção. Até porque ele prova que tem relação com a terra. Nas minhas terras, até hoje não ouve qualquer invasão. Agora, o engraçado é que ninguém invade propriedades na Amazônia. Eles sempre ficam perto das rodovias, como Castelo Branco e Anhangüera. Ninguém quer terra no fundão do País.


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