ECONOMIA

Nº edição: 342 | 24.MAR.04 - 10:00 | Atualizado em 16.04 - 11:27

O QUARTEL E O CAPITAL

A elite empresarial ajudou a depôr João Goulart com a criação de um instituto de estudos. Depois do AI-5, alguns de seus membros deram dinheiro aos órgãos da repressão

Por Fábio Altman

Em 1969, José Mindlin era diretor de um núcleo de desenho industrial da Fiesp. Dividia o tempo entre o escritório da entidade no Viaduto Dona Paulina e o batente na Metal Leve. Um dia ele recebeu a visita, na Fiesp, de um representante do exército envolvido na criação da Operação Bandeirante, a Oban, célula repressiva do regime militar. O homem, que já havia entrado em outras salas, alcançou a de Mindlin. “Estamos com dificuldades para montar um esquema de inteligência, não temos dinheiro”, disse o interlocutor. E pediu ajuda de Mindlin. A resposta foi seca. “Isso não é inteligência, é repressão, não posso admitir financiá-la”. O relato foi feito pelo próprio Mindlin a DINHEIRO. Revela que, naquele tempo de combate nas trevas, o empresariado foi, sim, procurado pelo regime para dizimar a oposição que entrara na luta armada.

Descobriu-se, nas páginas do livro A Ditadura Escancarada, de Elio Gaspari, que a Oban foi socorrida por uma caixinha liderada, no segundo semestre de 1969, pelo então ministro da Fazenda, Delfim Netto. Em um almoço realizado no casarão de Dona Veridiana Prado, no bairro paulistano de Higienópolis, ao qual comparecem quinze empresários, passou-se o chapéu. Ali, Delfim explicou a falta de verbas e equipamento das Forças Armadas para combater a subversão. Gastão Bueno Vidigal, fervoroso inimigo dos comunistas, dono do banco Mercantil de São Paulo e organizador do encontro, estipulou a ajuda a US$ 100 mil por cada grupo econômico. Anos depois, Paulo Egydio Martins, nomeado governador de São Paulo em 1974, diria: “Àquela época, levando-se em conta o clima, pode-se afirmar que todos os grandes grupos comerciais e industriais do estado contribuíram para o início da Oban”. Ninguém nunca admitiu tê-lo feito, à exceção de Vidigal.

 

A movimentação dos empresários rapidamente incomodou a guerrilha na clandestinidade – e os industriais que ajudavam a ditadura transformaram-se em alvo. Na manhã de 15 de abril de 1971, um grupo da Aliança Libertadora Nacional, a ALN, encostou um Volkswagen ao lado do Galaxie azul de Henning Albert Boilesen, um norueguês que chegara a presidente da Ultragás e diretor da Fiesp. Boilesen abriu a porta do carro e foi atingido por uma rajada de submetralhadora. A fotografia do corpo no chão, ao lado do Fusca, virou ícone do confronto entre a esquerda revolucionária, ávida em derrubar os militares, e a direita conservadora. A morte de Boilesen seguia o roteiro estabelecido pelas agremiações que aderiram às armas. Pouco antes, a primeira página do jornal Venceremos, porta-voz da ALN, estampou na capa uma foto de Pery Igel, dono do grupo petroquímico Ultra, com a seguinte manchete: “Este é o homem que paga aos carrascos da Oban”. O Ultra era fornecedor das refeições do DOI, o Departamento de Operações de Informações, centro da tortura.

Hoje, passados 30 anos daquele momento de sangue, cabe uma indagação: em que ponto da história o conflito natural entre o empresariado e a oposição, defensores de uma economia socialista, transformou-se em guerra? Em que instante o embate iniciado com a posse de João Goulart, em 1961, saiu do plano das idéias, ou mesmo do jogo de pressão a base de dinheiro, para mergulhar no porão? A resposta: o AI-5 de dezembro de 1968, com o fechamento do Congresso, cassações e censura, empurrou ambos os lados para as extremidades. “Era natural que os empresários, incomodados com as reformas de João Goulart, voltadas para o fim dos latifúndios no campo e benefícios para os trabalhadores, se incomodassem”, diz Marcelo Ridenti, historiador da Unicamp. “Movimentos de reação desse gênero são tradicionais. É o que ocorre na Venezuela de Hugo Chávez”. Era fundamental, no raciocínio da classe empresarial, ter um país com ambiente seguro para negócios e lucros, e isso significava tirar Jango do poder.

Para isso, em novembro de 1961, Augusto Trajano de Azevedo Antunes(Caemi) e Antônio Gallotti (Light) criaram o Ipes, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, construído para promover a livre iniciativa. Nasceu e cresceu como um centro de produção de estudos econômicos em defesa da iniciativa privada. Em pouco tempo tornou-se imã da conspiração contra Jango. Reunia mais de 500 empresas. Era uma agremiação legítima, pivô a agregar os líderes empresariais, inicialmente contra Jango e depois no apoio ao regime, até que o abismo do AI-5 resultasse em radicalismo. “Num segundo momento político, os empresários identificaram na luta armada um risco que antes colavam a Jango”, diz Ridenti.

Nem todos os empresários que compunham o Ipes entraram no jogo da tortura, poucos o fizeram, na verdade – mas o fato desse guinada ter ocorrido, manchando uma categoria, impõe uma segunda pergunta: o empresariado formava uma elite orgânica, dona do poder, ou apenas servia aos interesses dos quartéis? René Dreifuss, autor de um clássico, 1964: A conquista do Estado, definiu o golpe como um “movimento de classe, e não um mero golpe militar”. Para ele, a elite empresarial é que derrubara Jango e se instalara no comando do País, por meio dos órgãos de legislação econômica, e não os militares. Os anos da ditadura, amplamente estatizantes, muito pouco liberais e distantes do ideário do Ipes, na verdade afastaram os industriais do poder. Segundo notou a historiadora Maria Vitória Benevides numa refinada análise da obra de Dreifuss, o bloco industrial recorreu à intervenção militar – ou a aceitou – apenas para desferir a punhalada final no Estado populista. Os militares, nesse caminho, agiriam como restauradores da ordem e depois deixariam Brasília em benefício do mundo das finanças. Não foi o que ocorreu. Os empresários foram personagens secundários até 1985. Só começaram realmente a participar dos destinos do País com o retorno da democracia. É a prova de que uma economia saudável, ou com a intenção de sê-la, só brota em ambiente de liberdade.


Multimídia

Quem vai mandar nessa turma?

Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica, prepara-se para passar o comando da empresa para seus filhos. em jogo, um negócio que movimenta mais de R$ 2 bilhões em 30 países

A fórmula do milionário das farmácias

Sidney Oliveira, presidente da Ultrafarma, transformou sua pequena farmácia em uma empresa de R$ 650 milhões. Confira os bastidores da reportagem de André Jankavski

Os novos empreendedores do mercado erótico

Conheça histórias de empresários que mudaram radicalmente de ramo e decidiram apostar na indústria do prazer - que atualmente movimenta mais de US$ 46 bilhões por ano no mundo

Economia - Um vice-presidente com voz própria e personalidade forte

Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

- - Fatos em Destaque

- - Fatos em Destaque


  • best money here

    em 06/04/2014 06:20:26

    Ut3cqz Really appreciate you sharing this article.Much thanks again. Awesome.

    Denuncie esse comentário

    • stunning seo guys

      em 19/01/2014 18:13:34

      BaYpDx Fantastic blog post. Great.

      Denuncie esse comentário

      • wholesale bags

        em 10/01/2014 11:20:00

        O QUARTEL E O CAPITAL - ISTOÉ Dinheiro

        Denuncie esse comentário

        • seo thing

          em 20/12/2013 10:04:18

          ADfW3o Really appreciate you sharing this blog article.Thanks Again. Will read on...

          Denuncie esse comentário

          • chan luu ???

            em 23/10/2013 06:52:03

            ??? ????? chan luu ??? http://www.jordan4fireredforsale.com/???????????-pqz1ro9-2.html/

            Denuncie esse comentário

            Por favor, preencha todos os campos abaixo para deixar seu comentário.
            A Istoé Dinheiro pode utilizar este comentário para divulgação na revista impressa.

              Isto é compartilhar

              Divida sua leitura com seus amigos

              Colunas

              ver todos
              publicidade

              Edições especiais

              índice de matérias edições anteriores edições especiais assine a revista

              © Copyright 1996-2011 Editora Três
              É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.
              Fechar [X]