NEGÓCIOS
Nº edição: 529 | 14.NOV.07 - 10:00 | Atualizado em 23.05 - 10:55
A jovem cara da AVON
A centenária marca de cosméticos sofria dos males do envelhecimento. Coube ao venezuelano Luis Felipe Miranda trazê-la de volta aos bons tempos
Por Por Adriana Mattos
No início de 2006, Andrea Jung, presidente mundial da Avon, chamou todos os executivos das subsidiárias do grupo para uma conversa franca. Foi direto ao ponto: disse que a empresa precisava mudar, num processo sem solavancos, mas urgente. A ordem foi cortar na própria carne, diminuir o número de empregados, rever lançamentos, fabricar mais onde era mais barato. Enfim, tornar a Avon mais leve, numa operação que exigiria até US$ 500 milhões. Por trás da guinada estava a pressão dos investidores e o temor de que o modelo de negócio, até ali campeão, pudesse engasgar. Apostar no volume, com produtos a preço baixo, numa venda direta (sem lojas e com menos custos fixos), era uma receita que já não fazia os resultados decolarem em certos países. A Avon crescia timidamente na América do Norte e perdia terreno no bilionário segmento de cuidados da pele, deixando escapar oportunidades de ouro.
"Nós não estamos interessados na Natura. Não faço a menor idéia de onde surgiram esses rumores"
LUIS FELIPE MIRANDA, presidente da Avon do Brasil
Entre os participantes daquela reunião estava o venezuelano Luis Felipe Miranda, o então recém-empossado presidente da filial brasileira da Avon. Por aqui, a situação não era nem de perto dramática, mas a empresa sentia alguns sinais do envelhecimento da marca. Por isso, o alto comando sabia que o trabalho pela frente seria gigantesco. E foi. No princípio, a empresa sangrou. De abril a junho de 2006, o lucro global caiu 54% por causa de custos de reestruturação. Mas a tacada de Andrea foi um sopro de vitalidade numa marca de 120 anos. No grupo Avon de hoje, há 30% menos gerentes e 10% menos funcionários. Os níveis hierárquicos caíram de 15 para sete. As vendas cresceram 12% até setembro e o lucro operacional, 35%. Os investidores, obviamente, adoraram. As ações nos EUA subiram quase 20% neste ano. E a travessia não está concluída. "O trabalho ainda continua", diz Miranda. Por aqui, a determinação foi a mesma. Era preciso tirar a marca do marasmo. A redução nos cargos de gerência atingiu 20% em 2006. A carteira de produtos à venda ficou mais enxuta, com reduempresa a trabalhar com um portfólio de 1,5 mil itens hoje. Especialistas desse mercado acreditam que o encolhimento teria sido ainda maior, com corte de cerca de mil produtos da marca - passando de 2,5 mil para 1,5 mil. Nesse emagrecimento, aqueles cosméticos com variações e cores praticamente iguais foram alvo fácil para a eliminação. Mais: a empresa passou a trabalhar com contratos de compras de matérias-primas mais volumosos, para que se pudesse ganhar no preço.
A equipe de 1,2 milhão de revendedoras recebeu atenção especial. O desafio era atingir o maior lucro possível com o menor esforço empregado. Era preciso fazer com que o exército de vendedoras da Avon alcançasse um nível mais eficiente na venda. A idéia é buscar um maior giro do produto com a margem de retorno maior. Um intenso programa de treinamento foi desenvolvido para atingir esse objetivo, sobretudo com a tropa de elite das revendedoras, formada por 20% delas, aquelas com melhor desempenho de vendas. A preparação dessa massa de mulheres virou ponto de honra. Por isso, investiu-se mais num programa que a Avon batiza de RVP (Proposição de Valor dos Representantes da Avon). Nessa ferramenta, foram aplicados US$ 100 milhões no mundo neste ano. O Brasil entrou nesse bolo. A ação consiste não só em orientar a vendedora a vender melhor, como difundir estratégias para que ela melhore os seus resultados individuais. Um exemplo: ampliar a rede de atendimento de pedidos na internet. "Estamos melhorando a oportunidade de lucro da revendendora e fortalecendo a marca. É um processo sem fim", diz Miranda.
O grande desafio nessa mexida foi mantê-la dentro de quatro paredes. Nada poderia respingar na marca. Nada poderia afetar a crença dos clientes e das vendedoras no produto Avon. Ao contrário do que muitas empresas fazem nessa hora, os investimentos em marketing subiram muito. No Brasil, o crescimento foi de 30% neste ano. A empresa não comenta, mas estima-se que estão sendo gastos R$ 60 milhões em publicidade em 2007. No mundo, só de julho a setembro, foram mais de R$ 170 milhões em publicidade. A atriz Ana Paula Arósio e a miss Brasil Natalia Guimarães foram contratadas como garotas-propaganda. A escolha das duas foi feita a dedo. A dupla de beldades deveria sustentar lançamentos dirigidos para todas as classes de renda. Entre os lançamentos de destaque está um perfume de R$ 80, criado em parceria com o estilista francês Christian Lacroix. Tudo nele é chique. A campanha na TV a cabo é a cara dos anúncios de caríssimas fragrâncias internacionais. "É para quem ainda tem preconceito em relação à Avon", diz Miranda. Mas não o entenda mal. Não se trata de dar uma guinada no negócio em direção à classe A. A Avon não quer saber disso. Os "produtos de prestígio", como diz Andrea, não geram volume. A Avon é a empresa que aposta na quantidade. Ela nasceu assim e isso faz parte de seu DNA. De cada dois batons vendidos no Brasil, um é da Avon. De cada dois potinhos de creme antiidade comercializados por aqui, um é dela.
Boa parte desse esforço de mudança no Brasil foi estimulada pela ascensão da concorrência nos últimos anos. E ela tem nome e endereço conhecidos: Nat u r a . P e l a s c o n t a s do mercado, em 2005, quando a Avon estava no olho do furacão, a Natura teria conseguido se tornar líder do mercado brasileiro de cosméticos. Naquele ano, em volume de negócios, incluindo na conta a margem das revendedoras (um dos mais importantes indicadores do setor), a Natura somou R$ 4,4 bilhões e a Avon, R$ 4 bilhões. Não há dados de 2006. O fato é que a empresa brasileira foi avançando sobre o terreno da americana porque havia espaço. E porque a Natura construiu uma imagem que caiu no gosto da consumidora: vende produtos ecológicos sob o mote do "aceite você mesma" e "seja você mesma". É aquele tipo de coisa que soa bem ao ouvido de qualquer mulher. Mas alguma coisa na Natura não andou muito bem recentemente. O lucro caiu no terceiro e no quarto trimestres de 2006. Até setembro, a queda foi de 5%. O número de lançamentos neste ano será menor que o do ano passado e a programação de investimentos foi revista para baixo. O aumento nos custos de produção e os investimentos na atividade internacional impactaram nos resultados. Com isso, o valor de mercado da Natura sofreu um baque: caiu mais de 26% em nove meses.
"Em 2006, o faturamento da Avon no Brasil atingiu US$ 1 bilhão. Neste ano, até setembro, a empresa já cresceu mais de 30%"
Nessa toada, quando o mercado olhava mais torto para a Natura, a companhia publica um anúncio se autocongratulando por um lançamento vitorioso, dizendo que até havia gente querendo comprá-la. Mas quem? A Avon, concluiu-se. A americana já até teria pensado em arrematar a brasileira anos atrás (o que ela nega de pés juntos), mas o assunto tinha morrido. "Não, nós não estamos interessado neles", afirma Miranda. De onde saiu isso? "Não faço a menor idéia", afirmou. Suscinto e direto, Miranda economiza assim nas palavras raramente. O responsável pelo segundo maior mercado da Avon no mundo é daqueles executivos que não deixam dúvida no ar. Explica tudo, tintim por tintim. Carismático, extremamente simpático, o executivo de 47 anos começou na Avon na Venezuela quando ainda estudava, aos 21 anos. Foi subindo degrau por degrau, até ser transferido para o Brasil, cujo crescimento se dá a taxas duas vezes maiores que a média mundial. Ele chegou pouco antes da hora dos ajustes, em 2005, e ganhou elogios lá fora. Andréa Jung citou o Brasil por diversas vezes no último encontro com analistas de mercado, em setembro. E Miranda, ficou vaidoso? "Solo un poco envanecido", diz ele.
Multimídia
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Fernando Augusto
em 16/08/2011 13:57:54
O marketing multinível tem corrompido a Avon? . A Avon tem sido, e ainda é hoje, o pilar que sustenta a credibilidade da indústria de vendas diretas. Continua em: http://industriadadecepcao.wordpress.com/2011/08/16/o-mmn-tem-corrompido-a-avon/
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