ECONOMIA

Nº edição: 616 | 27.ABR - 10:00 | Atualizado em 10.08 - 22:51

O Brasil de longo prazo

Como a menor taxa de juros da história e a expansão do crédito estão mudando as estratégias das empresas e ampliando o mercado de consumo

Por Hugo Cilo

fotos: FELIPE BARRA

Uma foto histórica: pela primeira vez no governo Lula, o Copom permitiu o registro da imagem de uma de suas reuniões. No último encontro, a equipe comandada por Henrique Meirelles reduziu a Selic a 8,75% ao ano

Dividendos da estabilidade”. Essa tem sido a expressão mais repetida nos últimos meses pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Significado dela está estampado nos indicadores positivos da economia, na menor taxa de juros da história, na ampliação do crédito e nos mais longos prazos de pagamento de que se têm notícia no País. Para quem viveu a época da hiperinflação e do overnight, quando só era possível comprar à vista, é quase um milagre perceber que já se pode adquirir, com juros relativamente baixos, a casa própria em 30 anos, o carro novo em 84 meses e o caminhão em 96 meses. Na quarta-feira 22, quando o Comitê de Política Monetária reduziu a taxa básica de juros de 9,25% para 8,75%, o horizonte da economia se alargou ainda mais. E esse novo Brasil, de prazos a perder de vista, tem mudado as estratégias das empresas e ampliado o mercado de consumo.

Antes mesmo da decisão do Banco Central, diversos bancos anunciaram cortes de juros e revisaram suas projeções de crédito. No Bradesco – que recentemente esticou de 25 para 30 anos o prazo dos financiamentos imobiliários, e de 60 para 80 meses o de veículos –, o diretor-executivo Ademir Cossiello revia para cima as perspectivas de financiamentos para o banco neste ano e definia o repasse integral da redução da Selic aos correntistas. “Já é possível projetar um aumento da carteira de crédito. O banco terá que ganhar em volume e, assim, podemos crescer 10% contra 2008 em financiamentos. O que é ótimo, dado o cenário lá fora”, disse ele à DINHEIRO. “Juro alto significa risco maior, e risco maior não é bom para ninguém”, completou.

Essa mesma equação – em que juros menores reduzem os riscos – agradou à cúpula da Mercedes-Benz no Brasil. O diretor nacional de vendas, Gilson Mansur, refez as contas em sua sala na fábrica de são Bernardo do Campo e chegou a uma conclusão animadora. “ No começo do ano, as vendas caíram 19% e achávamos que o cenário continuaria ruim. Agora, podemos apostar em algo semelhante a 2008, que já tinha sido muito bom”. Hoje, é possível financiar um caminhão em até 96 meses, com juros fixos de 0,37% ao mês (4,5% ao ano). “Prazo longo e taxa baixa diluem o peso das prestações e isso, sem dúvida, é o que de melhor pode haver no mercado”, completou.

A expansão do crédito tem gerado dividendos em vários setores da economia. Graças a esse inédito cenário, o assistente de marketing Carlos Eduardo Villar, 25 anos, decidiu, neste ano, financiar um apartamento em Taboão da Serra (SP) e, ao mesmo tempo, comprar um carro popular em 60 meses. O jovem paulistano quis aproveitar a ampla oferta de dinheiro no País para acelerar a construção de seu patrimônio. Antes de sair às compras, comparou os melhores juros em várias instituições para adquirir o automóvel e, no caso do imóvel, optou por um sistema de cooperativa, com taxas mais atraentes do que as praticadas pela maioria dos bancos. “Vou pagar juros em financiamentos longos. Mesmo assim, dado o novo ambiente de euforia no crédito, fiz bons negócios”, disse Villar.

A euforia, naturalmente, tem impulsionado o mercado imobiliário, segmento em que já possível encontrar juros de 5% ao ano e prazo de 360 meses (30 anos), em bancos públicos e privados. O presidente da construtora MRV, Rubens Menin, obteve no primeiro semestre um faturamento de R$ 1,3 bilhão. Em todo o ano passado, as vendas ficaram em R$ 1,5 bilhão. “Com esse novo cenário do crédito, e a trajetória de queda dos juros, chegaremos a R$ 2,9 bilhões, o dobro do ano passado”, disse Menin à DINHEIRO, que teve de contratar 18 mil pessoas. Isso se baseia em números concretos e no exponencial crescimento do mercado de imóveis populares. Com a nova redução da Selic – além do programa Minha Casa Minha vida –, as prestações de um financiamento de R$ 77 mil, por exemplo, pago em 30 anos, caíram de R$ 900, há dois meses, para os atuais R$ 555,80. “nos meus 30 anos no mercado, é uma situação inédita”, completou Menin.

RUBENS CHAVES - FREDERIC JEAN - GUSTAVO SCATENA/IM
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Para o casal Paula Castris e Fabio Bifano, ela secretária, e ele arquiteto, a combinação de fatores positivos na economia brasileira também criou uma situação que, anos atrás, pareceria sonho. Diante de juros baixos e prazos longos, eles puderam adquirir um apartamento de classe média no bairro do Ipiranga, em São Paulo. O casal comprou neste ano o imóvel na planta e terá pouco mais de um ano, até às chaves, para garimpar bancos em busca de taxas atraentes e prazos convidativos. E vão encontrar opções mais atraentes do que as de meses atrás. “Ainda não sei quanto vou financiar, nem o prazo do contrato. Sei que, frente aos juros em queda e aos prazos sendo ampliados, encontrarei opções melhores das que existiam meses atrás”, disse Paula. “Com prestações mais baixas, poderemos ser mais audaciosos e fazer até outras compras”, completou ela.

A postura mais agressiva do consumidor em relação ao crédito tem sido captada pelo radar do Banco Central. Para o chefe do Departamento econômico do BC, Altamir Lopes, a nova realidade do crédito tem realmente estimulado um comportamento ousado dos consumidores. “O que está puxando essa mudança é a habitação, segmento que teve um volume de crédito ampliado em 40%”, disse Lopes. “Inegavelmente, está havendo uma recuperação mais rápida do crédito, e os consumidores estão mais confiantes”, destacou ele. Não por acaso, o crédito que não chegava a 25% do PIB no Brasil há cinco anos chegou aos atuais R$ 1,25 trilhão, 43% do PIB, segundo o BC. Mesmo depois desse salto, há no País um gigantesco potencial de expansão
“O baixo endividamento dos brasileiros e o consumo ainda reprimido em relação às grandes economias, abre caminho para uma evolução ainda maior do crédito. Se dobrar nos próximos anos, chegar na casa dos 80% ou 90% do PIB, ainda está abaixo dos estados Unidos, Japão ou Europa”, disse o vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), Miguel de oliveira.


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Crédito significa nada mais do que antecipação de consumo. E se as projeções de aumento dos financiamentos se concretizarem, uma nova multidão deve entrar para o mercado, acelerando a atividade industrial do País e o crescimento econômico. na prática, isso já é uma realidade. Na quinta-feira 23, o IBGE divulgou números surpreendentemente positivos sobre o mercado de trabalho – a desocupação em junho caiu de 8,8% para 8,1%. “O efeito da expansão do crédito tem sido impressionante”, disse o presidente da Federação das indústrias do estado de São Paulo, Paulo skaf, que enxerga como “ideal” uma Selic de 7% ao ano – não muito distante daquela que foi definida na última reunião do Copom.

Quanto menores os juros básicos, mais ânimo terão os consumidores e mais recursos estarão disponíveis na economia. “Se investimentos atrelados à Selic não valem a pena, os bancos naturalmente direcionam os recursos aos empréstimos diretos. Como um jogo de estratégia”, explicou o diretor de administração de riscos e crédito do Banco Panamericano, Adalberto Savioli, que também é presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito (Acrefi). “Os custos dos financiamentos e os prazos de pagamento estão até melhores que no período pré-crise”, afirmou o economista da Associação Comercial de são Paulo, Marcel Solimeo. Já o diretor-financeiro do Itaú-Unibanco, Silvio Carvalho, prevê que a tendência de aumento do crédito se manterá. “O segundo semestre será fundamental. Vamos crescer e neutralizar os impactos da crise internacional no início do ano”, disse à DINHEIRO o executivo. O Itaú-Unibanco projeta aumento de até 13% no volume de concessão de crédito em 2009, e um avanço de até 25% em 2010, caso o PIB brasileiro cresça na casa dos 4%. “Os juros estão menores, a inadimplência estável e os spreads serão ajustados. Assim, todos ganham. E o País também.”


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  • Adenilson

    em 10/08/2010 22:51:32

    Porque não divulgam a diferença de preço entre a compra avista e parcelado. Deveriam ser mais honesto com os consimudores. Se isso ocorre com parcela em 5 vezes, imagine em 96 meses. UM BOM NEGOCIO PARA TORNAR A POPULAÇÃO CADA VEZ MAIS INDIVIDADOS, POOL DE POBREZA.

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    • Adenilson

      em 10/08/2010 22:45:58

      Exemplo: As redes de supermercados Bom Preços, faz questão de lhe vender a prestação e dividir ate 5 vezes. Mais por traz existe a rede Hipercard, que paga a rede bom preço a vista, valores baixíssimo, e ganha uma fortuna em cima de cada parcela paga.

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      • Adenilson

        em 10/08/2010 22:39:15

        O financiamento em 100 meses ou mais, não garanti o conforto do consumidor, mais enriquece a empresa que por traz desse financiamento cobram juros altíssimos, sem ao menos divulgar isto para os consumidores, logo quanto maior o tempo de financiamento, melhor para as empresas de credito.

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        • Adriano

          em 09/08/2010 11:44:19

          E ao invés de incentivar a população a poupar, estão incentivando-a a se individar... E a concentração de fortunas na mão de algumas poucas pessoas vai se intensificando... Fato: As pessoas realmente gostam de ser enganadas.

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          • Alessandra Branco

            em 12/05/2010 16:15:20

            Acredito sim na melhora do País !!!principalmente com relação ao mercado gerando mais oportunidades de compra facilitada de carro e casa para pessoas de baixa renda.Isso tem sido uma verdade.Mais Também sei que tem muito a ser aprimorado.

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            • Marcelo

              em 02/04/2010 13:15:15

              Um dos maiores entraves deste pais são pessoas como esta com um comentario totalmente descabido do mínimo senso de vergonha na cara.. estas são as corjas que atrasão nosso país... "o pais não melhorou em nada" comentariozinho que mostra o quanto ele é ignorante... concordo com o amigco c é vagabundo

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              • Mario Jose

                em 15/03/2010 21:12:28

                Mas como tem vagabundo nesse Brasil.

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                • Diomar Franco da Rocha

                  em 14/03/2010 01:53:56

                  Minha opinião é: O Brasil não melhorou em nada ainda e para melhorar seria preciso que o governo federal teria que "garantir todo mês o seguro desemprego" até o trabalhador conseguir o novo emprego, e quando esse empregado fosse dispensado, automaticamente o teria de volta. Obs: carac, a justifica

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