ECONOMIA

Nº edição: 337 | 18.FEV.04 - 10:00 | Atualizado em 19.04 - 06:36

PRESO SERGIO CRAGNOTTI

O capo da Bombril e do Grupo Cirio vai para a cadeia. Acusação: fraude e calote de US$ 1,4 bilhão

Por Rosenildo Gomes Ferreira

O empresário italiano Sergio Cragnotti passou os últimos 10 anos se gabando por ter escapado ileso à operação Mãos Limpas, que colocou atrás das grades políticos, empresários e banqueiros daquele país, no início da década de 90. Na quarta-feira 11, a prisão do outrora capo di tuti capi do Grupo Cirio (que no Brasil é dono da Bombril e da marca Peixe) e também do Lazio (time vencedor do campeonato italiano de 2000) mostrou que chegou a hora de acertar as contas com o passado. Cragnotti é acusado de falência fraudulenta e de ter ludibriado 30 mil pequenos investidores com o não-pagamento de bônus emitidos pelo grupo que comanda empresas dos setores alimentício (molho para tomate) e de bebidas (sucos Del Monte). O calote é da ordem de US$ 1,4 bilhão. A quebra da Cirio é atribuída pelos promotores a transferências suspeitas, no valor de US$ 840 milhões, feitas no período 2000-2002 a credores selecionados. A lista inclui bancos (Capitalia, Monte dei Paschi di Siena, Sanpaolo IMI e UBS) e a combalida Parmalat. Além de Cragnotti, também foram parar atrás das grades seu filho Andrea e o genro Filippo Fucile, ambos dirigentes da subsidiária Cirio Finanziaria SpA. A Justiça italiana colocou na mira um total de 45 pessoas, incluindo executivos de bancos que participaram do lançamento dos bônus. Giulia Bongiorno, advogada de Cragnotti, disse que a medida foi o resultado da pressão da mídia e da opinião pública, sacudida pela quebra de outro grande conglomerado industrial do país, a Parmalat (ver box ao lado). Afinal, argumentou ela, a Cirio foi à lona no final de 2002 e desde então está sob intervenção do governo.


A prisão de Cragnotti tem reflexos no Brasil, onde o ativo mais reluzente do empresário era a Bombril. A deputada Iriny Lopes (PT-ES), integrante da CPI do Banestado que apura as remessas ilegais de dinheiro para o exterior, quer ouvir o empresário italiano. Na quinta-feira, ela apresentou um requerimento à comissão pedindo que o depoimento seja feito através de carta precatória. “De certo, ele tem muito a dizer”, aposta. Ela também já pediu a quebra do sigilo bancário de executivos que atuam e atuaram na Parmalat e na Cirio do Brasil. O nome de Cragnotti foi parar na CPI depois que a parlamentar descobriu que, entre 1999 e 2002, a Bombril fez remessas de US$ 1,3 bilhão para a Itália. O ex-controlador da Cirio tem, ainda, contas a ajustar com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Em 2002, ele foi multado em R$ 62,5 milhões pela autarquia, por conta de fraudes na compra da Cirio pela Bombril. O processo está em análise no chamado conselhinho do Banco Central, órgão encarregado de apreciar recursos de casos envolvendo práticas danosas ao mercado financeiro.

Outrora festejado como um grande financista e um brilhante estrategista, Cragnotti caiu no ostracismo também por aqui. Seu nome é renegado tanto na Bombril S/A (comandada por uma equipe nomeada pela Justiça brasileira) como na Bombril Holding, controlada pela italiana Cirio Finanziaria e que tem parte do capital da fabricante de lãs de aço. Por meio de sua assessoria, Gianni Grisendi – encarregado pela Justiça italiana de administrar a Bombril Honding – disse que Cragnotti não tem mais qualquer relação com a empresa. O mesmo discurso é repetido pela diretoria da Bombril, presidida hoje por Wilson Nunes. Apesar disso, há quem garanta que Cragnotti continua assombrando a deficitária companhia que acumulou um prejuízo de R$ 1,8 bilhão no período janeiro-setembro de 2003. “Mesmo de longe, Cragnotti vinha tentando influir nos rumos da Bombril”, diz uma fonte que preza da intimidade do capo italiano. Com ele atrás das grades, essa tarefa se tornará cada vez mais difícil.

Caso Parmalat
Ricardo gonçalves: Para a Justiça, o ex-presidente da Parmalat devia ter cortado o próprio salário de R$ 150 mil mensais diante da crise

Diretores na rua
A agonia da Parmalat do Brasil parece não ter fim. Na semana passada, o juiz Carlos Henrique Abrão, da 42ª Vara Cível de São Paulo, determinou a intervenção na empresa e a demissão de toda a diretoria, incluindo o presidente, Ricardo Gonçalves. Além de perder o posto, os executivos ficaram com os bens indisponíveis e tiveram os sigilos bancário, fiscal e eletrônico quebrados. Também só poderão deixar o País com autorização judicial. O comando foi entregue a Keyler Carvalho Rocha. Ele foi diretor de mercado de capitais do Banco Central na década de 80 e ocupa atualmente o posto de vice-presidente do Instituto Brasileiro dos Executivos de Finanças (Ibef). A expectativa de Abrão é que os novos gestores coloquem as contas em ordem no curto prazo. Ao contrário do que vinha pregando Gonçalves, o magistrado garantiu que a Parmalat tem dinheiro em caixa e que voltará a honrar as dívidas. Além disso, estaria em negociação com os bancos um empréstimo emergencial de R$ 70 milhões para reforçar a liquidez da companhia. Gonçalves reagiu mal à destituição. “Não há razão para a destituição, uma vez que não cometi fraude nenhuma, nenhum delito”, afirmou. O juiz disse que Gonçalves recebia salário de R$ 150 mil por mês e devia ter feito um corte no próprio holerite diante da crise financeira da empresa.
 


Multimídia

A missão mais difícil de Belini

O executivo que fez da Fiat a maior montadora do País tem pela frente a tarefa de manter a liderança do mercado em um ambiente de crise, cercado por concorrentes cada vez mais agressivos e numerosos. Confira os bastidores da reportagem

Quem vai mandar nessa turma?

Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica, prepara-se para passar o comando da empresa para seus filhos. em jogo, um negócio que movimenta mais de R$ 2 bilhões em 30 países

Os novos empreendedores do mercado erótico

Conheça histórias de empresários que mudaram radicalmente de ramo e decidiram apostar na indústria do prazer - que atualmente movimenta mais de US$ 46 bilhões por ano no mundo

Economia - Um vice-presidente com voz própria e personalidade forte

Crédito: Roberto Castro/Ag. Istoé

- - Fatos em Destaque

- - Fatos em Destaque


Por favor, preencha todos os campos abaixo para deixar seu comentário.
A Istoé Dinheiro pode utilizar este comentário para divulgação na revista impressa.

    Isto é compartilhar

    Divida sua leitura com seus amigos

    Colunas

    ver todos
    publicidade

    Edições especiais

    índice de matérias edições anteriores edições especiais assine a revista

    © Copyright 1996-2011 Editora Três
    É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.
    Fechar [X]