NEGÓCIOS
Nº edição: 647 | Negócios | 26.FEV.10 - 13:41 | Atualizado em 23.05 - 10:19
Energia sem barreiras
Empresa brasileira é premiada no Exterior por inventar usina que pode ser construída em qualquer rio. E com uma vantagem: agride menos a natureza
Por Tatiana Vaz
Aos 14 anos, o futuro cientista austríaco Johann Hoffmann fez sua primeira invenção: um sistema de boias para conter derramamentos de óleo no mar. A tecnologia deu tão certo que até hoje é empregada em seu país de origem. Desde então, muitas outras ideias foram patenteadas por ele. Na década de 90, Hoffmann mudou-se para o Brasil. E continuou inovando.
Entre outras criações, ele desenvolveu uma tecnologia que permite remover os depósitos de mercúrio dos rios da região amazônica. Agora, aos 61 anos, Hoffmann trabalha em seu projeto mais ambicioso. Ele quer explorar os rios brasileiros para a produção de energia. Mas com uma diferença: pretende fazer isso causando menos impacto na natureza do que os provocados por métodos tradicionais.

Edson Abuchaim, executivo do projeto, diz que o sistema é mais econômico do que o convencional
Hoffmann inventou um sistema de turbinas que gera energia a partir do fluxo natural de um rio, sem a necessidade de construir uma represa. Para viabilizar o projeto, fundou, ao lado de dois sócios, a Care Electric Energia, que funciona desde 2007 em um pequeno escritório incubado no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), da Universidade de São Paulo.
“Não é somente um avanço tecnológico que foi alcançado”, disse Hoffmann em uma entrevista à revista americana “Business Week”. “Mas uma maneira de apoiar o desenvolvimento socioeconômico em comunidades pobres de países em desenvolvimento, aumentando a disponibilidade de energia limpa.”

Frank de Luca, sócio da Care Electric, diz que busca investidores dispostos a pagar R$ 5,5 milhões pelo projeto
Graças a esse projeto, a Care Electric conseguiu o feito inédito de ser a primeira empresa brasileira a fazer parte da lista das companhias apontadas como “visionárias” pelo Fórum Econômico Mundial, que aconteceu em Davos, na Suíça. Junto de outras 26 corporações, entre elas o Twitter, a inovação da Care Electric foi eleita como uma das que vão contribuir para o avanço da economia global. O levantamento foi feito a partir da análise de mais de 300 projetos de inovação realizados nos cinco continentes.
“Para receber essa premiação, o sistema teve de ser aprovado por técnicos do mundo todo”, conta Frank de Luca, americano radicado no Brasil e um dos sócios de Hoffman. A conquista fez com que a empresa ganhasse credibilidade no mercado e despertou o interesse de muitas companhias de energia estatais e privadas, tanto do Brasil quanto do Exterior. “Buscamos investidores dispostos a aplicar R$ 5,5 milhões na tecnologia, porque não temos condições de tocar o projeto sozinhos”, disse De Luca. “A intenção é apenas manter uma pequena participação nos ganhos.”


O sistema da Care Electric é simples. Suas turbinas geram energia elétrica a partir do próprio fluxo natural do rio. Isso sem a necessidade de instalação de barragens ou uso de grades, como em uma usina convencional. Peixes e barcos menores têm livre passagem pelas instalações.
“Comparado com um sistema hídrico tradicional, o nosso se mostra mais eficiente por aproveitar 90% de água da capacidade de gerar energia, enquanto os outros não ultrapassam 60%”, afirma Edson Abuchaim, gerente de gestão da empresa. Por ser formada por peças modulares, a usina da Care Electric pode ser montada em qualquer lugar. Um sistema parecido está sendo utilizado pela construtora Odebrecht nas usinas Santo Antonio e Jirau, no rio Madeira. “Nesses casos, porém, serão construídas barragens, o que não será feito na Care Electric”, diz De Luca.
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