ECONOMIA

Nº edição: 713 | Economia | 03.JUN.11 - 21:00 | Atualizado em 05.01 - 02:28

Decolagem autorizada

O governo finalmente decide entregar seus aeroportos à iniciativa privada, mas a participação da Infraero nas concessões levanta dúvidas sobre o modelo adotado

Por Guilherme Queiroz

 

Clique e ouça um resumo da reportagem

 

Um inesperado anúncio chegou aos funcionários da Infraero na terça-feira 31, dia em que a estatal celebrava seu 38º aniversário. Em mensagem aos colaboradores, o presidente da empresa, Gustavo Vale, revelou a decisão do governo de privatizar três dos principais aeroportos administrados pela empresa: o de Cumbica, em Guarulhos,  e o de Viracopos, em Campinas, ambos em São Paulo;  e o Juscelino Kubitschek, em Brasília. Foi uma surpresa para o pessoal da estatal. 

A sinalização, até então, era de que o novo modelo seria adotado para os novos terminais, com a concessão apenas das áreas comerciais. Mas a presidente Dilma Rousseff foi convencida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de que era melhor entregar à iniciativa privada toda a administração e exploração dos terminais. Agora,  a Infraero será parceira obrigatória nas sociedades de propósito específico (SPEs), que serão criadas para administrar cada um dos três aeroportos.
 
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O caos e o ideal: o Aeroporto de Cumbica (à esq.), em Guarulhos (SP), superlotado, contrasta com a tranquilidade
e organização de terminais como o de Hong Kong, na China, modelo bem-sucedido de administração de capital misto
 
Os detalhes ainda serão definidos nas regras do edital, que deve ser lançado em dezembro, mas já está decidido que o setor privado terá um mínimo de 51% do capital. A ideia é caracterizar a nova empresa como de capital misto e livrá-la das amarras da Lei de Licitações – na avaliação do governo, uma das principais razões da morosidade e ineficiência da Infraero. O ministro Wagner Bittencourt, da Secretaria de Aviação Civil, órgão criado para coordenar as obras do setor aéreo, acrescenta que o modelo “shopping center”, que se limita à concessão de espaços para a exploração comercial nos terminais, não garantiria o retorno financeiro para possíveis investidores. 
 
“É preciso aproveitar a disposição de investidores, nacionais e estrangeiros, de fazer esse aporte no Brasil”, disse em audiência na Câmara dos Deputados, na quarta-feira 1º. Para o governo, manter a Infraero na administração dos aeroportos tornará a empresa mais atraente na hora de abrir seu capital, o que deve ocorrer até o fim desse governo. “É mais fácil abrir o capital da Infraero depois de se aplicar nela um choque de competitividade”, disse Dilma na reunião com governadores e prefeitos das 12 cidades-sede da Copa do Mundo de 2014, na terça-feira 31.
 
A participação da Infraero em cada empresa vai depender dos investimentos feitos pela estatal nesses aeroportos. Para a Copa do Mundo de 2014, Guarulhos deve receber R$ 1,2 bilhão; Brasília receberá R$ 748,4 milhões; e Viracopos, R$ 742 milhões. Parte dos recursos já foram gastos, mas a estatal ainda não tem os dados definidos. “A Infraero precisa recuperar seu investimento”, diz Vale, da Infraero. “Quanto maior for, maior será a participação da empresa no capital.” 
 
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As indefinições sobre o modelo a ser adotado têm deixado cautelosos possíveis investidores, entre empreiteiras e companhias aéreas. Empresas como Gol e Azul afirmam que estão acompanhando o assunto, enquanto a TAM não se manifesta. “A entrada da iniciativa privada é o ponto mais crucial”, disse à DINHEIRO Juan Quirós, presidente do Grupo Advento, especializado em grandes construções e interessado em Viracopos.“O investidor quer controle da gestão, e isso ainda não se sabe como será.”  
 
Para o professor de transporte aéreo da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Respício do Espírito Santo, o grau de interesse das empresas nas concessões estará diretamente atrelado a sua autonomia nas decisões e em relação à Infraero. “É preciso saber até onde irá o poder do governo nessa SPE”, afirma. 
 
O governo, no entanto, sabe que tem nas mãos um ativo atraente. Os aeroportos de Guarulhos, Brasília e Campinas estão entre os cinco mais lucrativos da Infraero. Juntos, lucraram R$ 456,6 milhões em 2010. Mas, como apenas 21 dos 67 aeroportos da Infraero estão no azul, mantê-los sob gestão estatal significa recursos para sustentar seus terminais deficitários. Se está claro como o governo ganha nessa equação, para o setor privado, ainda sobram dúvidas.
 
 

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  • IJhEHCEyS

    em 18/06/2011 00:51:09

    It's soopky how clever some ppl are. Thanks!

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    • Francisco Rodrigues Lira

      em 06/06/2011 20:51:46

      Vale o ditado: " Ruim com ela pior sem ela", não importa como será realizada, mas, será melhor que seja feita ! Será um cabide ou melhor um armario à menos, para se pindurar gafanhotos e parasitas que só pioram o serviço público. Melhor que se privatize tudo, deixando o governo sem função alguma !!!

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      • JORGE POVALA

        em 05/06/2011 09:51:14

        É justo para o conribuinte "ENTREGAR", (é este o verbo empregado, ironicamente, por este valioso veículo de comunicação), o "filé mignon" para a iniciativa privada e deixar os demais para o erário. Pergunto, como ficam os demais aeroportos em o subsídio cruzado, agora sem o filé? Ninguém fala nisso.

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