NEGÓCIOS

Nº edição: 334 | 28.JAN.04 - 10:00 | Atualizado em 16.01 - 11:22

A INDÚSTRIA RETRÔ

Cansado de tanta modernidade, o mundo cultua o passado. E as empresas com história para contar é que lucram com essa febre

Por Christian Carvalho Cruz e Patrícia Cançado

Ultima moda na sociedade de consumo: carro de gângster, agasalho da Adidas com as três listras, Bamba “cabeção”, liquidificador com copo de vidro e os discos da Nara Leão. Não, não estamos na década de 60. O ano é 2004 mesmo. E o mundo vive um fenômeno de culto ao passado que extrapolou o universo da moda e vem tomando de assalto diversos segmentos da indústria. É a onda retrô – ou “vintage”, como preferem os descolados. Sim, porque gastar dinheiro com um tênis com aparência de velho é tremendamente sofisticado hoje em dia. Não se trata de colecionar antigüidade. Tampouco é algo restrito a um gueto vanguardista. “Esse movimento está longe de ser popular. Mas já chegou àquela camada da sociedade que compra com o coração e não só com a razão. Ela representa 27,5% dos consumidores mundiais”, diz Adalberto Viviani, da consultoria de marketing Concept. Poucas vezes uma única tendência tornou viável as principais ambições de uma empresa: produzir com pouco, vender por muito e ter um nome admirado no mercado. Os produtos retrô reforçam a imagem da marca (porque dão idéia de exclusividade, de tradição, de eternidade), demandam investimento baixo (afinal, a idéia já está pronta) e o melhor de tudo, valem mais, muito mais.

 

Olhe só os “novos” eletrodomésticos da Brastemp. Eles são monocromáticos, têm poucos botões, linhas retas e são de metal, não de plástico. Exatamente como a vovó usava na década de 50. A diferença é que custam dez vezes mais do que um aparelho com desenho atual e, vendidos em lojas de grife, servem também para enfeitar a casa. O liquidificador custa R$ 790. A batedeira, R$ 2,4 mil. A americana Whirlpool, dona da Brastemp, tem uma divisão e uma marca (KitchenAid) só para desenhar e fabricar esses produtos nos Estados Unidos. “No Brasil, as vendas da nossa linha retrô crescem 20% ao ano desde 1999, quando ela começou a ser importada”, afirma Newton Gama, gerente geral de design da Brastemp. “Quando o mundo entra em crise, como aconteceu depois do 11 de setembro, as pessoas tendem a se proteger voltando-se para o passado, quando tudo parecia mais previsível”, filosofa Gama. Os executivos do Pão de Açúcar também perceberam isso e estão empenhados em dar às novas lojas da rede uma cara de quitanda. A madeira substitui o aço nas bancas de frutas, há fotos antigas nas paredes, mesinhas para tomar café e a área de alimentos sem agrotóxico fica cada vez maior. “São elementos lúdicos, sutis, que rememoram os valores mais simples de antigamente”, explica Paulo Lima, diretor regional do Pão de Açúcar.

Mas por que essa obsessão pelo simples? O fato é que o futuro imaginado décadas atrás não deu certo. As pessoas trabalham mais, divertem-se menos e não têm a menor idéia do que vai acontecer amanhã. O passado parecia bem mais simples. Faça o teste: quando você pensa em qualidade de vida imagina uma cena de Guerra nas Estrelas ou do Sítio do Pica-Pau Amarelo? Ninguém agüenta mais tanta modernidade. E se o futuro parece ainda pior, então voltemos à utopia que vivíamos no passado. Daí o sucesso do retrô, que não se restringe a design e produtos. Grandes companhias estão reescrevendo a sua história em função disso. A francesa Infogrames, líder mundial em games para consoles Nintendo, PlayStation e X-Box, mudou seu nome para Atari, um ícone dos anos 80. Comprou a marca da fabricante de brinquedos Hasbro com uma única finalidade: decolar no mercado americano. A Chrysler, quando quis reforçar a sua identidade yankee depois de ter sido incorporada pela alemã Mercedes, lançou um carro inspirado nos filmes de Al Capone – o PT Cruiser, símbolo máximo do retrô na indústria automobilística. Já a Volkswagen não tinha tantas pretensões ao atualizar o Fusca, em 1998. Mas descobriu com o New Beatle uma nova linha de comunicação. Além de durabilidade e confiança – motes históricos da marca –, a VW agora vende emoção. O resultado prático disso: “Setenta por cento dos compradores do New Beatle só perguntam o preço do carro na hora de assinar o cheque”, conta Paulo Kakinoff, diretor de marketing da VW.

 

É ou não é o sonho de qualquer empresa? Sobretudo se for uma que quase faliu, como a Puma. Nos anos 90, a fabricante alemã de artigos esportivos vendia US$ 200 milhões e era dona de uma marca de segundo time. Graças à recuperação de modelos de tênis clássicos dos anos 70, a Puma virou o jogo: seus produtos tornaram-se “cult”, seu logotipo está no uniforme da seleção italiana de futebol e hoje a com-
panhia festeja uma faturamento de US$ 1,5 bilhão. Na compatriota Adidas, o retrô é tão importante que ganhou status de unidade de negócios – a Adidas Originals. Ela tem lojas próprias em Nova York, Berlim, Tóquio e Milão e representa 15% das receitas globais. “Na linha Originals a margem de lucro é 20% maior que na convencional”, diz Marcelo Ferreira, presidente da
Adidas no País, que planeja uma loja Originals em São Paulo ou no
Rio dentro de dois anos. Nesse segmento de calçados, por sinal, o Brasil virou um terreno fértil para “velharias”. Só a Alpargatas re-
lançou três de seus antigos sucessos nos últimos dois anos: o
Conga, o Bamba “cabeção” e o Comander.

Mas de todos os setores, talvez o que mais tenha ganhado com essa moda é o da música. Artistas do passado (muitos já mortos) estão salvando a indústria fonográfica nacional, que perde mercado para os piratas todos os dias. Na Universal Music, 50% do faturamento vem da venda de relançamentos em CD de títulos que fizeram barulho na época do LP. É o caso da série “Elenco”, dos anos 60, que tem Astrud Gilberto, Edu Lobo, Tom Jobim e Dick Farney. “Não custa quase nada relançar um título desses, porque já está tudo pronto. É só remasterizar e distribuir”, afirma Ricardo Moreira, gerente de marketing estratégico da Universal. Só para comparar, o disco de um artista novo exige investimentos de até R$ 1 milhão, entre produção e marketing. “E o melhor: os títulos de catálogo vendem bem e agregam valor à imagem institucional da companhia.” Como diria Cazuza, o mundo dos negócios está virando um museu de grandes novidades.


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