DINHEIRO EM NÚMEROS

Nº edição: 520 | Exclusivo | 12.SET.07 - 10:00 | Atualizado em 23.05 - 10:38

As finanças de um megatraficante

Depoimentos de Juan Carlos Ramírez Abadía à Polícia Federal, obtidos com exclusividade pela DINHEIRO, revelam como é simples lavar dinheiro sujo no Brasil

Por Por Cláudio Júlio Tognolli, especial para a DINHEIRO

O narcotraficante colombiano Juan Carlos Ramírez Abadía, preso em 7 de agosto passado pela Polícia Federal num condomínio de luxo em São Paulo, é dono de uma fortuna avaliada em US$ 1,8 bilhão, segundo informações do Departamento de Estado norte-americano. Isso representa apenas uma fração dos US$ 3 trilhões que as dez principais máfias do mundo, enraizadas em 23 países, movimentam por ano, a partir dos US$ 200 bilhões gerados pelo tráfico de cocaína. O dado mais estarrecedor, no entanto, não é o patrimônio de Abadía, mas a forma aparentemente simples com que ele lavava dinheiro no Brasil. Nos seus depoimentos à Polícia Federal, obtidos com exclusividade pela DINHEIRO, fica claro que ele não decidiu se esconder aqui por mero acaso. Com fronteiras e aeroportos sem fiscalização eficiente, o dinheiro muitas vezes entrava no País por automóveis e era depois distribuído a vários portadores, que o traziam de avião a São Paulo. Em seguida, de táxi, eles o levavam até a mansão do traficante Abadía, em Aldeia da Serra, nas cercanias de Alphaville.

Tudo extremamente fácil, rápido e seguro. O mapa financeiro desse megatraficante, que não possuía uma conta bancária no Brasil, está descrito nas 222 linhas do depoimento que Abadía prestou à PF. Nele, o colombiano assegurou que é um traficante independente e que nunca pertenceu a nenhum cartel. "Gostaria de esclarecer que conheço todas as pessoas do Cartel de Norte Valle, mas cada um tem seu negócio independente", disse ele. Abadía também indicou que duas empresas na Colômbia são as bases de seu negócio.

"As empresas foram constituídas na Colômbia com recursos do narcotráfico, sendo que uma atuava no ramo imobiliário e outra no ramo de comunicações", afirmou no depoimento. Em seguida, ele relatou seus passos no Brasil, desde que chegou ao País, há três anos: "Peguei um barco na Venezuela, desembarquei no Nordeste brasileiro, não me recordo em que cidade. Depois, peguei um carro, andei com ele uns 400 ou 500 quilômetros, até que embarquei num pequeno avião. Vim nesse avião até o interior de São Paulo. Aqui parte do tempo em São Paulo, mas morei também em Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre".

Pelo que Abadía revelou à PF, a estrutura de sua movimentação financeira é aparentemente pueril. "Envio recursos da Colômbia para a Venezuela e lá uma pessoa pega um carro e entra no Brasil através da fronteira da cidade de Santa Elena. Depois essa pessoa vai de carro até Boa Vista. Nessa cidade, os recursos são divididos e entregues para várias pessoas, que me trazem esse dinheiro utilizando-se de vôos comerciais normais", explicou. Abadía confessa que, quando chegou no Brasil, trouxe aproximadamente US$ 4 milhões. Mais tarde, com o uso do esquema, internou mais US$ 4 ou US$ 5 milhões, além de uma quantia em euros que não especificou. "Uma parte desse dinheiro usei na aquisição de bens, e outra estava guardada", disse. De acordo com o traficante, uma parte do dinheiro estava em sua casa e foi apreendida pela polícia. "Outra parte estava na casa de uma pessoa chamada Jaime, em Campinas, e uma parte está na casa que tenho em Florianópolis, na praia de Jurerê Internacional", revelou. Os bens que adquiriu no Brasil, revela ainda o depoimento, são os seguintes: uma casa na Alameda Dourada, 71, Condomínio Morada dos Lagos, em Aldeia da Serra, no município paulista de Santana do Parnaíba; uma casa na Rua do Bosque, sem número, no Condomínio dos Frades, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro; uma casa em Florianópolis, na praia de Jurerê Internacional, na rua dos Robaletes; um sítio chamado Santa Bárbara, em Pouso Alegre, em Minas Gerais; uma fazenda em Guaíba, no Rio Grande do Sul; uma lancha modelo Azimuth Intermarine 520, de altíssimo luxo. E ainda "diversos veículos, bens de consumo, uma academia de musculação que montou em sua casa em São Paulo, a fazenda em Guaíba e outra casa alugada em Curitiba".

Um de seus braços direitos nos negócios era Victor García Verano, tratado por Abadía como Peter. Cabia a ele transformar esse dinheiro do tráfico em propriedades imobiliárias. "Ele trazia dinheiro da Espanha de forma oficial", disse Abadía no depoimento. "Peter" é de Bogotá, na Colômbia, e é administrador de empresas. Está no Brasil há 17 meses. Victor "Peter" Verano tinha o papel de materializar os narcodólares em imóveis. "Quando eu queria adquirir algum bem eu os procurava, eles me mostravam as propostas e eu comprava aquilo em dinheiro vivo", contou Abadía.

Ele também indicou o que cada "colaborador" seu era determinado a fazer. Daniel Bras Marostica, um paulistano comerciante, por exemplo, comprou a casa de Abadía em Aldeia da Serra, a casa de Angra dos Reis e o sítio em Pouso Alegre. Daniel buscava "laranjas" para botar os imóveis no nome. A casa de Abadía, em Aldeia da Serra, estava em nome de um cunhado do "colaborador" Daniel, por exemplo. Já o colaborador André Luis Telles Barcellos comprou a fazenda em Guaíba e uma aeronave modelo King Air B90, que depois "foi vendida para um terceiro na Venezuela". De acordo com o inquérito, o colaborador Jaime Hernando Martínez Verano escondeu na casa de Florianópolis "uns 200 mil euros no teto do imóvel e dois passaportes, bem como carimbos de entrada e saída da Venezuela e Paraguai". Das quase 20 empresas cujos nomes lhe foram lembrados no interrogatório, o traficante Abadía só admitiu conhecer duas: Disdrogas Ltda. e Ramírez Abadía y Cia. S.C.C, que são de seu pai e estão baseadas na Colômbia.

Agora o que se espera de Abadía, uma vez extraditado aos Estados Unidos, é que ele também revele, em sistema de delação premiada, o esquema de lavagem de dinheiro, sobretudo a partir dos laranjas que montavam para ele empresas "offshore" nas Bahamas. A fazenda do traficante colombiano Gustavo Duran Bautista, braço direito de Abadía, mantida na Bahia, tinha 100 hectares irrigados de uva e de manga para exportação, com produção anual de 1,2 mil toneladas. O esquema não engloba só abastecimento de cocaína via remessas de lotes da droga em meio às frutas.

Narcotraficantes também compram terras e fazendas produtivas para lastrear suas fortunas em nomes de laranjas. "É preciso ainda investigar a forma como ele utilizava essas fazendas para mascarar a entrada de outros recursos", disse à DINHEIRO a procuradora federal Janice Ascari, que já participou de diversas investigações sobre lavagem de dinheiro.

De qualquer forma, o que torna o narcotráfico um negócio tão lucrativo é o fato de existirem no mundo 340 milhões de usuários vorazes de drogas, englobando heroína, ópio, cocaína, maconha, alucinógenos e barbitúricos - número que equivale a toda a população dos Estados Unidos. A dependência de calmantes e sedativos lidera todas as modalidades, com 227,5 milhões de consumidores ou quase 4% da população mundial. Em terceiro lugar está a maconha, com 141 milhões de adeptos, totalizando 2,5% da população global. Um grupo de 25 milhões de pessoas consome alucinógenos.

A cocaína possui 13,3 milhões de usuários. Oito milhões são adeptos contumazes da heroína e 30 milhões de pessoas, equivalentes a 0,5% da população mundial, recentemente mergulharam no consumo desenfreado das chamadas drogas sintéticas, como a ATS e a metanfetamina.

Para abastecer os 340 milhões de consumidores de drogas, diz um relatório recente das Nações Unidas, há mecanismos econômicos que geram lucros de até US$ 400 bilhões por ano - uma soma maior do que o comércio global de aço e ferro, de veículos automotores e igual à produção mundial de artefatos têxteis, que representam 7,5% dos negócios feitos anualmente em todo o mundo. O mercado de 340 milhões de drogados proporciona aos traficantes, segundo as Nações Unidas, margens de lucro jamais encontradas em qualquer outra atividade econômica. É esse tipo de procura que ajudou a irrigar a fortuna de US$ 1,8 bilhão, que o traficante Abadía escondia no Brasil com extrema facilidade.


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  • em 07/02/2012 11:27:08

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    • em 07/02/2012 07:30:24

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      • em 07/02/2012 03:33:29

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        • em 06/02/2012 23:38:48

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