FINANÇAS
Nº edição: 332 | 14.JAN.04 - 10:00 | Atualizado em 23.05 - 13:53
PÁRA-QUEDAS CORPORATIVO
Empresas aprendem com os bancos a receita para prevenir crises
Por Ricardo Grinbaum
Petrobras, Cemig e Alcan são empresas de engenheiros, dedicados à produção de petróleo, energia elétrica e alumínio. Nos últimos tempos, porém, até indústrias de atividades pesadas como essas investiram numa tecnologia diferente, puramente matemática, típica do sistema financeiro. As companhias descobriram a receita dos bancos para prevenir crises. Estão adaptando para o chão da fábrica métodos e controles desenvolvidos para o mercado de capitais. “A Petrobras vale US$ 30 bilhões e vai investir US$ 34 bilhões em cinco anos”, diz Gustavo Tardin, gerente executivo de planejamento financeiro e gestão de risco
da Petrobras. “Com números como esses,
temos de nos antecipar e controlar todos
os riscos de nosso negócio.”
No mercado financeiro, esses controles viraram rotina desde meados dos anos 90. Os bancos desenvolveram sofisticados programas de computador e cálculos matemáticos para medir riscos. Os modelos simulam crises em diferentes graus. Com base nas projeções, os executivos descobrem o quanto podem perder em cada situação. Essas informações os ajudam a decidir o quanto aplicar, em quais mercados e a hora de sair, antes de um desastre. Os bancos não fazem mais investimentos sem medir os riscos de cada aplicação. Depois de sentir na pele os efeitos de crises financeiras, as empresas resolveram copiar o modelo. Casos como o da Varig e da Eletropaulo, abatidas pela desvalorização do real, viraram preocupação geral entre executivos e empresários.
“As empresas passaram a raciocinar como as tesourarias dos bancos”, diz Thiago Osório, consultor de projetos da RiskControl, empresa especializada em controle de risco. A RiskControl é um bom exemplo de como a tecnologia bancária migrou para outros setores. Sua origem é um banco. Originalmente, a RiskControl era um departamento de controle de risco do banco BBM, dirigido pelos economistas Sérgio Werlang (mais tarde diretor do Banco Central) e Eduarda La Rocque. O departamento começou a prestar serviços para outros bancos, expandiu-se para indústrias e ganhou vida própria. Hoje, é uma empresa à parte no grupo do BBM e presta serviços principalmente para companhias não financeiras. O faturamento triplicou em 2003 e atingiu R$ 3 milhões. “As empresas buscam cada vez mais instrumentos de planejamento e controle desenvolvidos para os bancos”, diz o diretor comercial Marcelo Oliveira.
Ao contrário dos bancos, os modelos das empresas levam em conta dados de produção. O cálculo básico considera o dinheiro em caixa, o tamanho da dívida e o hedge (proteção financeira contratada pela empresa) para saber os riscos de uma crise. “A diferença é que se projeta não só o risco financeiro, mas também o empresarial”, explica Flávio Nusbaum, diretor comercial da filial brasileira da Algorithmics, multinacional canadense especializada em controles de risco. A Sadia, por exemplo, calcula o quanto seu orçamento vai emagrecer com a queda no preço do frango ou o aumento do preço da ração usada em sua produção. A Petrobras antecipa eventuais perdas com a queda do petróleo ou com a alta do dólar no Brasil. AmBev, CSN e Embraer também adotaram seus controles de risco, a exemplo dos bancos.
De posse dos dados, as empresas se antecipam a eventuais crises e fazem operações no mercado financeiro, semelhantes a contratação de seguros. Não é uma operação barata. Só para comprar os softwares e implantar os modelos de controle de risco, uma grande empresa gasta por volta de US$ 200 mil. A contratação do seguro financeiro pode custar ainda mais. Para os executivos do topo do escalão, esse é o custo da segurança. Além de antecipar eventuais crises financeiras, ninguém quer ser pego de surpresa por escândalos como o da Enron. “Os conselhos de administração aumentaram os controles sobre suas empresas”, diz Oliveira, da RiskControl. “Os acionistas estão cada vez mais exigentes.” Como nos bancos.
Multimídia
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