ECONOMIA

Nº edição: 484 | VISÕES DE BRASIL | 2006/2007 | 27.DEZ.06 - 10:00 | Atualizado em 22.02 - 16:28

Cadê o Youtube daqui?

O maior fenômeno da tecnologia de 2006 surgiu, de novo, nos EUA. Motivos? Cultura de empreendedorismo e investimentos que faltam no Brasil

Por Por joão prado

A revista Time, da qual ISTOÉ é parceira no Brasil, anunciou semana passada a personalidade do ano: você. Mas não um você qualquer – a personalidade do ano sou eu, você, mais 33 milhões de brasileiros, entre um bilhão de pessoas que navegam na internet. Muita gente já usava a rede atrás de informação, entretenimento e compras, mas 2006 foi especial. Foi o ano em que a chamada web 2.0, aquela em que a internet se torna cada vez mais amigável e por isso interativa, ganhou força. O símbolo máximo que trouxe poder a esse internauta tem nome e sobrenome – YouTube – e nasceu das mãos dos americanos Steve Chen, 27 anos de idade, e Chad Hurley, de 29. Por meio do YouTube, as pessoas podem assistir, produzir, veicular – se comunicar – do jeito que quiserem, na hora que quiserem, com uma liberdade jamais experimentada pelo cidadão comum. Gol de bicicleta espetacular de Ronaldinho? Namoro caliente de Daniella Cicarelli na praia? Embriaguez de Fernando Vanucci ao vivo? Tapa na pantera? O bambu do Silvio Santos? Todo mundo viu, na hora que quis, compartilhando com amigos de trabalho e mandando os links para a família. (Se não viu, é melhor não contar a ninguém e ir ao YouTube “se informar”).

O brasileiro, particularmente, experimentou e gostou do poder de escolha. Levantamento do Instituto Ibope indica que o Brasil é o quarto país que mais busca o YouTube, com 2,6 milhões acessos em 2006. Está atrás apenas dos EUA, que tem 34 milhões, do Japão, com 7,3 milhões, e do Reino Unido, com 4,4 milhões. O Brasil superou, inclusive, países nos quais os níveis de inclusão digital são muito maiores, como Espanha e França. Mas, se a novidade teve tamanha aderência entre os internautas brasileiros, por que não surge no País uma iniciativa semelhante? Afinal de contas, não faltam aqui empreendedores em tecnologia com 20 e poucos anos de idade como Chen e Hurley e cheios de boas idéias. As especulações são muitas e vão desde falta de formação até a de capacidade de comunicar com eficiência projetos embrionários. “Apesar de termos uma participação significativa no processo digital, faltam incentivos para não estrangular o jovem empreendedor brasileiro”, diz Cid Torquato, diretor da Camara-e.net (Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico). “Mesmo um sucesso como o YouTube precisa de capital inicial para nascer e é exatamente esse o problema do País.” Para Torquato, como muitos outros setores, as taxas de juros penalizam investimentos em inovação, já que o retorno do dinheiro aplicado no banco é garantido, enquanto investir em tecnologia nem sempre é seguro.

Há ainda outros problemas que impedem a proliferação de iniciativas na área, como a ausência de uma cultura semelhante à do Vale do Silício. Ex-funcionários do site PayPal, Chen e Hurley cresceram na região e sempre estiveram atrás de idéias a partir das quais pudessem criar empresas. Quando a PayPal foi comprada pelo site de comércio eletrônico eBay, eles usaram o dinheiro e o conhecimento para criar o YouTube, vendido ao Google por US$ 1,6 bilhão, em outubro. Outra questão diz respeito à infra-estrutura no País. “Só 10% dos internautas brasileiros têm banda larga”, diz Marcelo Coutinho, diretor-executivo do Ibope. “É difícil propagar um negócio num público tão restrito.” Para tentar driblar essas dificuldades, têm surgido iniciativas como a promovida pelo Young Americas Business Trust, instituição ligada à Organização dos Estados Americanos, que irá fazer um concurso de incentivo a projetos de tecnologia. “A idéia é apoiar propostas empreendedoras que sofrem com a ausência de incentivo”, diz Jackson Morais, coordenador do projeto. Nesse concurso, os sete melhores inscritos das Américas concorrerão a um prêmio em dinheiro, por enquanto de US$ 75 mil. Não é muito, mas é um começo.

 


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