INVESTIDORES

Nº edição: 447 | 12.ABR.06 - 10:00 | Atualizado em 17.06 - 13:42

Bilhete é apenas um detalhe

As companhias aéreas cobram por produtos que antes eram gratuitos e até inventam serviços para fazer caixa

Por Fernanda Galvão

Há uma nova tendência no mundo da aviação comercial. As companhias aéreas cobram por produtos que antes eram gratuitos, como os alimentos e bebidas a bordo. Cobram também por serviços que não existiam e foram criados para fazer caixa. Por US$ 15, a americana Northwest oferece lugares da preferência dos passageiros A United Airlines cobra US$ 299 dos viajantes freqüentes para lhes garantir lugares à frente, com maior espaço para as pernas. Ela ainda oferece a chance das pessoas acelerarem o check-in, em quiosques especiais, desde que desembolsem US$ 2 por mala. Muitas das recentes invenções, a rigor, facilitam a vida dos turistas e executivos. Você acessa o site de uma companhia aérea para comprar seu bilhete de viagem e, ao mesmo tempo, já deixa feita a reserva em um dos hotéis da rede credenciada. Navegando pelo site, aproveita que a empresa tem uma parceria com uma locadora de automóveis e aluga um carro com desconto. Dentro da aeronave, a caixa registadora não pára. O drinque oferecido pela comissária tem preço – custa cerca de US$ 1.



Ryanair, o sucesso de um modelo:
A companhia irlandesa transportou
35 milhões de pessoas por bilhetes de US$ 53. Faturou alto – US$ 1,7 bilhão – porque uma boa parte veio de receitas adicionais à venda de passagens.

O modelo, nascido nos Estados Unidos, se espalha. Na Europa, a companhia irlandesa Ryanair é um exemplo bem-sucedido de empresa que ganhou rentabilidade com receitas adicionais. No ano passado, a companhia faturou US$ 1,7 bilhão com bilhetes de US$ 53, em média. O segredo: uma austera estrutura de custos e cobrança de praticamente todos os serviços que envolvem a viagem, como embarque de bagagem e uso de celulares e laptops na aeronave. Resultado: US$ 265 milhões – o equivalente a 15,6% do lucro em 2005 - veio de rendas extras. No Brasil, a realidade ainda está milhas distantes do cenário internacional, mas algumas alternativas começam a ser esboçadas. A Gol é uma das que mais se aproxima do modelo da Ryanair. A brasileira usa as aeronaves para transporte de passageiros e cargas, o que exige uma eficiente operação logística nos aeroportos. No ano passado, o faturamento da Gollog, divisão de transporte de cargas da empresa, representou 3,5% das vendas globais e 7% do lucro líquido no ano, que foi de R$ 513,2 milhões. A TAM Express, braço de transporte de cargas da TAM, rendeu R$ 407 milhões à companhia no ano passado – cerca de 7% do faturamento de R$ 5 bilhões no período.

Frederic Jean

Gol, lucros com cargas:
A Gollog, braço de transporte de cargas da companhia, é ótimo negócio. O faturamento em 2005 representou 7% do lucro da empresa, que foi de R$ 513,2 milhões

Prática cada vez mais comum no exterior, no Brasil a venda de produtos e serviços a bordo não existe. “É uma questão cultural, o brasileiro não aceita pagar por serviços dentro da aeronave”, diz Renato Pascowitch, diretor comercial da brasileira Ocean Air. A atividade mais explorada no País, por enquanto, é a publicidade. Quase todos os espaços estão à venda nas aeronaves, desde a bandeja para refeições e capas de assentos das poltronas até a propaganda nas revistas de bordo. A TAM produz comerciais exclusivos que são exibidos nos
canais de rádio e nas telas de vídeo dos vôos internacionais. “Ainda não são receitas que produzem impacto no orçamento, mas servem para incrementar verbas de marketing, por exemplo”, diz Faustino Pereira, diretor de marketing da Varig. “As parceiras comerciais também são úteis para captar clientes e reforçar a marca.” A viagem rumo a um novo cenário comercial nos ares está apenas começando. Apertem os cintos porque pode sair caro.



AVANÇO NO BOLSO DO PASSAGEIRO
De onde vêm as receitas extras
 

SERVIÇOS DE BORDO E PUBLICIDADE
Em outros países, já é comum a cobrança por serviços de bordo como vendas de bebidas e alimentos e aluguel de aparelhos celulares e laptops. Somente com a venda de refeições no ar, a Ryanair amealha US$ 61 milhões. No Brasil, esses serviços são gratuitos. A forma mais usada de explorar as aeronaves é a cobrança de espaços publicitários, que incluem, por exemplo, a colagem de adesivos comerciais na fuselagem do avião.




HOTÉIS
Algumas empresas oferecem serviços de reserva em hotéis credenciados e ganham um percentual do valor da transação. A irlandesa Ryanair recebe US$ 17 milhões anuais por esse atendimento.




BAGAGEM
No exterior, as companhias já cobram para embarcar a bagagem. A Ryanair fatura cerca de US$ 36 milhões ao ano com esse recurso. No Brasil, a cobrança ainda não existe.




ESTACIONAMENTO
Aeroportos dão descontos no estacionamento para os passageiros. A Gol faz isso no Brasil.




ALUGUEL DECARROS
Acordos com locadoras de automóveis rendem um percentual da receita para as empresas. A Ryanair faz US$ 70 milhões anuais na parceria com a Hertz.




CARTÃO DE FIDELIDADE
Os cartões com os quais os clientes compram produtos e serviços e recebem pontos que podem ser trocados por passagens são uma boa fonte de receita. A TAM faturou R$ 85 milhões com seu cartão em 2005.


 


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