FINANÇAS
Nº edição: 447 | 12.ABR.06 - 10:00 | Atualizado em 21.02 - 15:38
A previdência de Scheikman
Estrela brasileira das universidades de Chicago e Princeton, economista vai criar planos de aposentadoria para clientes abonados de gestora carioca
Por MIRIAM KÊNIA
O professor José Alexandre Scheinkman, um
dos principais nomes brasileiros nos meios acadêmicos da economia internacional, está pensando em aposentadoria. Mas não na dele. Famoso por ter chefiado o Departamento de Economia da Universidade de Chicago – posto já ocupado por Milton Friedman e, desde então, venerado e criticado como templo do liberalismo americano – Scheinkman hoje leciona na Universidade de Princeton e segue ativo no debate da economia nacional. A novidade é que ele acaba de romper a fronteira da academia e vai trabalhar como consultor no mercado brasileiro de previdência privada. Sua proposta é trazer para o País seu conhecimento sobre os sistemas de aposentadoria complementar dos Estados Unidos (onde vive há 30 anos) e da Europa. “A minha participação será estratégica”, diz Scheinkman. Sua atenção estará voltada para o desenvolvimento de novas aplicações. Basicamente, planos de previdência com mais ações em carteira, tendo o Ibovespa como referência, até o limite permitido por lei (49% dos investimentos do fundo). A idéia é desenhar produtos sob medida para poupadores de alto poder aquisitivo, com fôlego financeiro para bancar uma aplicação mínima de R$ 150 mil. Scheinkman tentará adequar as aplicações ao perfil de cada cliente. Exemplo: o plano de previdência de um investidor que atue no setor financeiro não terá ações de bancos na carteira. “É importante diversificar os riscos quando se pensa no futuro”, ensina o professor.
Scheinkman chega ao mercado financeiro em parceria com o também economista Mauro Molchansky, presidente da RealAssets, uma empresa carioca de administração de recursos. Ao contrário do acadêmico, Molchansky tem história nas finanças. Como diretor financeiro da Aracruz Celulose, ele coordenou o primeiro lançamento de ações de uma companhia brasileira na Bolsa de Nova York, em 1992. Desde 2002, ele comanda a RealAssets, especializada em gestão de fortunas. Nesses quatro anos, convenceu-se de que a previdência privada brasileira carece de produtos adequados para este público de altíssimo poder aquisitivo. Os rendimentos médios são tímidos – em geral apenas acompanham o CDI – e os custos são elevados. Do total do patrimônio do setor, que chegou aos R$ 85 bilhões em 2005, apenas 1% está aplicado em renda variável. “Há um conservadorismo neste ramo”, observa Molchansky.
Há seis meses, nas primeiras conversas com Scheinkman, em Nova York, ele confirmou a suspeita de que o mercado brasileiro está atrasado. Nos Estados Unidos, a bolsa de valores é o carro-chefe da Previdência. “Minha intenção é usar a experiência internacional do professor Scheinkman para inovar”, diz Molchansky. Claro que a realidade nacional, marcada pelos juros exageradamente elevados, inibe investimentos em ações. Mas os dois cérebros da RealAssets avaliam que, para investimentos de longo prazo, a renda variável é uma promessa nada desprezível de bons retornos.
A gestora de recursos carioca já está testando um fundo de previdência, administrado pelo Santander. A carteira, por enquanto, tem apenas 10% de seus ativos em ações. Mas o custo foi reduzido com a não cobrança da chamada taxa de carregamento (valor normalmente cobrado pelas seguradoras para bancar despesas administrativas). Apenas três meses depois de lançada, a aplicação acumula um rendimento de 122% do CDI (principal parâmetro para a indústria de fundos). E já chama a atenção dos especialistas. “É um modelo de negócio independente novo no mercado”, avalia Marcelo D’Agosto, sócio-diretor do site financeiro Fortuna. Detalhe: os planos de previdência da RealAssets terão de passar não só pelo crivo de sua clientela, mas também pelo das seguradoras e bancos, que serão responsáveis pela administração e custódia dos produtos.
Multimídia
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