ECONOMIA
Nº edição: 447 | 12.ABR.06 - 10:00 | Atualizado em 23.05 - 10:41
A mão (quase) invisível de Lula
Cresce no governo a influência de Luiz Dulci, o ministro que ajuda a aplacar os movimentos sociais
Por IVAN MARTINS
Circula no Palácio do Planalto um conceito inédito na vida pública brasileira: governabilidade social. Ele equivale, em termos de sociedade civil, aos arranjos parlamentares (legítimos) que garantem a chamada governabilidade política. O homem que cunhou a expressão, e tem a tarefa de colocá-la em prática, é o ministro Luiz Dulci, da Secretaria Geral de Governo. Encarregado pelo presidente Lula de conduzir o diálogo com os movimentos sociais, o professor mineiro tem feito, na verdade, um tanto mais do que isso. Nesses nove meses de crise política, ele tem ajudado a evitar, pelo contato constante com entidades como CUT, CNBB e MST, entre centenas de outras, que os problemas do governo se transformem em avalanche nas ruas contra o presidente. “Os movimentos não apóiam o governo e nós não concordamos com tudo o que eles pensam, mas existe diálogo, respeito e projetos comuns”, explica Dulci. O ministro fala com 500 organizações por mês e assegura, por ordem expressa de Lula, que boas idéias e reivindicações razoáveis ganhem espaço na agenda do Planalto. Foi assim que o crédito consignado se transformou em realidade, apesar da resistência do Ministério da Fazenda. Foi assim, também, que se fez, neste ano, a mais ampla negociação de salário mínimo desde os anos 60. Pela mesma via, a da conversa com entidades educacionais, multiplicou-se por 10 a verba do Fundo Federal de Educação, que atingiu R$ 1,5 bilhão. Também se elevou, com apoio da confederação dos trabalhadores rurais, de R$ 2,3 bilhões para R$ 9 bilhões o financiamento para a agricultura familiar. Em todas essas situações, Dulci tem sido o facilitador quase invisível que age em nome do presidente.
Nas últimas semanas, com a saída de Antônio Palocci da Fazenda, aumentaram as atenções em torno desse bacharel de línguas clássicas, fundador do PT e amigo de Lula desde 1979, quando ambos eram sindicalistas. Ele constitui, com Gilberto Carvalho, o núcleo mais próximo ao presidente no Palácio. Encontra-se com o chefe do governo mais de uma vez ao dia. Discreto, avesso à formação de grupos e rígido em seus hábitos administrativos, resistiu ao vendaval que derrubou José Dirceu, ex-chefe da Casa Civil, e afastou Luiz Gushiken do centro das decisões. Embora integre o chamado núcleo duro do governo desde janeiro de 2003, recebeu agora duas tarefas adicionais, que denotam a confiança do presidente. Está encarregado da propaganda oficial, através da Secom, antes coordenada por Gushiken. A Secretaria de Comunicação tem verba de R$ 150 milhões mas supervisiona publicidade das estatais no valor de R$ 900 milhões. “A Secom existe apenas para dar satisfações dos atos do governo”, diz o ministro. Ele também é responsável pelo Pró-Jovem, um programa de bolsas educacionais que até o final do ano vai atender 170 mil jovens nas capitais, com verba de R$ 300 milhões. Dulci considera que os pobres entre 18 e 24 anos formam um dos grupos mais vulneráveis da sociedade brasileira. Nos dois projetos, deve trabalhar com as máximas que o tem orientado no campo minado de Brasília. A primeira é que o homem forte do governo Lula não é outro senão o presidente Lula. A segunda máxima é que falar demais não dá certo. É simples, mas tem funcionado.
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