ECONOMIA
Nº edição: 447 | 12.ABR.06 - 10:00 | Atualizado em 21.02 - 15:31
Mosqueteiros às avessas
Antônio Palocci, Márcio Thomaz Bastos e Marcelo Netto eram três grandes amigos. Agora, a ordem é "cada um por si"
Por LEONARDO ATTUCH
Athos, Porhos e Aramis, os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas, tinham um lema: um por todos e todos por um. Juntos, guerrearam na França
em defesa do trono de Luís XIII. No Brasil, o ex-ministro Antônio Palocci, o ministro Márcio Thomaz Bastos e o jornalista Marcelo Netto, ex-assessor da Fazenda, eram também bons amigos. Isso até alguns dias atrás. Depois do episódio Francenildo Costa, caseiro que teve seu sigilo bancário violado dentro da Caixa Econômica Federal, os três tornaram-se peças centrais de uma guerra fria em Brasília, pontuada por intensas pressões e ameaças. No primeiro instante, Thomaz Bastos atribuiu, até de forma pública, toda responsabilidade do crime a Palocci – assim, a quebra de sigilo seria um “fato isolado”, rapidamente reprimido pela Polícia Federal, e não um ato de governo. Palocci ficou desapontado. “É o primeiro pagamento que recebo depois de três anos e meio de dedicação absoluta ao saneamento da economia”, disse a um amigo. Apesar da mágoa, Palocci não pensou em vingança – menos por amizade a Bastos e mais por lealdade ao presidente Lula. Foi então que o terceiro personagem da trama, Marcelo Netto, que se via na incômoda posição de lado fraco da corda, reagiu. E assim surgiram na imprensa informações dando conta de que dois assessores próximos de Bastos – Daniel Goldberg e Cláudio Alencar – estiveram na casa de Palocci na noite de 16 de março, data em que Jorge Mattoso, ex-presidente da Caixa, entregou o extrato de Francenildo ao ex-ministro. Marcelo temia que a bomba estourasse só no seu colo.
Nesse clima de cada um por si, os três começaram a se explicar na semana passada. Palocci foi o primeiro. Na segunda-feira 3, ele se reuniu com dois advogados: José Roberto Leal e José Roberto Batochio. Os três decidiram antecipar o depoimento à Polícia Federal, antes marcado para dois dias depois. Na terça, Palocci seria ouvido às 15h e pediu aos advogados que, em seguida, concedessem uma entrevista no Hotel Meliá. Lá, seria revelado o teor do depoimento. Como a coletiva foi chamada em nome de Batochio, desafeto do ministro Thomaz Bastos, Brasília foi tomada por um festival de boatos como há muito não se via. Dizia-se que Palocci, sentindo-se abandonado, teria implicado o ministro da Justiça no crime. E que Thomaz Bastos, por sua vez, teria pedido demissão. À noite, quando Batochio chegou ao saguão do hotel, mais de 60 jornalistas o aguardavam. Na entrevista, ele revelou a linha de defesa do seu cliente: Palocci não teria ordenado a quebra de sigilo, nem vazado o extrato. Apenas o recebeu das mãos de Mattoso. Portanto, não haveria crime. Ainda assim, o ex-ministro foi indiciado pela PF por violação de sigilo. Depois foi a vez de Marcelo Netto, visivelmente abatido, depor. Antes, porém, o jornalista fez chegar ao ministro da Justiça uma série de ameaças. Uma delas, a de que não cairia só. Na PF, Marcelo Netto foi ouvido como testemunha – e não como investigado. E pôde se manter calado, preferindo falar só em juízo, ainda que o direito ao silêncio seja dos investigados – e não das testemunhas. Como queria, saiu sem ser indiciado.
Depois dos depoimentos de Palocci e Marcelo Netto, persistiram ainda dúvidas em relação à atuação do ministro Thomaz Bastos no caso. Por isso, os principais líderes do Senado já haviam decidido convocá-lo para depor em plenário. Na quinta-feira 6, o ministro se antecipou e informou que irá de forma espontânea. Dirá que nem ele nem seus assessores tomaram ciência antecipada de qualquer irregularidade. Mesmo assim, a história não está encerrada. “O esquema concatenado para desmoralizar o depoimento do caseiro remete ao presidente da República”, disse o senador Tasso Jereissati, presidente do PSDB. Como se vê, a linha que separa o “fato isolado” do crime de governo é bastante tênue. E, com os mosqueteiros unidos mais pelo medo do que pela amizade, tudo pode acontecer.
Multimídia
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